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Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme mostra mais que o romance de Emma e Adèle. Mostra como duas pessoas são passíveis de se amar desesperadamente

Cenas da descoberta do amor e do sexo na HQ da francesa Julie Maroh
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Cenas da descoberta do amor e do sexo na HQ da francesa Julie Maroh

Na coletiva de imprensa após a premiação do último Festival de Cannes, em maio passado, a pergunta que não queria calar era se dar a Palma de Ouro para o filme “La Vie d’Adèle” havia sido uma escolha política. Afinal, o filme é protagonizado por um casal de lésbicas e a França vivia dias tensos de manifestações contra o casamento gay. O júri foi consensual em uma só resposta: “não”. A opinião geral sobre o filme, incluindo aí a do presidente do júri, Steven Spielberg, é que não se tratava de uma história de amor entre duas meninas. Se tratava de uma história de amor. Ponto.

Esse mesmo argumento foi usado pelo diretor do filme, Abdellatif Kechiche, para explicar o que o fascinou quando ele resolveu adaptar para o cinema a história em quadrinhos da francesa Julie Maroh. O “lance” não eram as duas mulheres, ou mesmo a descoberta da sexualidade, e sim que aquelas duas pessoas refletiam toda a confusão que vivem tantos outros casais quando descobrem, geralmente em idade ainda muito jovem, que essa máquina do corpo humano é capaz de amar (desesperadamente) alguém.

Capa do livro
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Capa do livro "Le bleu est une couleur chaude", ou "O azul é uma cor quente"

Le bleu est une couleur chaude, diz o título do livro em francês. Sim, “o azul é uma cor quente”. Escrita e desenhada por Maroh, ela própria lésbica e militante do movimento LGBT, essa HQ levou nada menos que Prêmio de Público no mais prestigiado festival de quadrinhos do mundo, o Angoulême (que está para as HQs assim como Cannes está para o cinema). Não é pra menos.

As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux em cena do filme
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As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux em cena do filme "La Vie D´Adèle"

O trabalho de Maroh é vigoroso e demonstra alguém que parece ter domínio natural da fluência de uma história. Em outras palavras: ela trabalhou muito e estudou mais ainda para conseguir se lançar no mercado com um álbum desse porte (seus trabalhos anteriores eram tímidas participações em coletâneas). Seu traço segue uma linha de quadrinhos europeus que dialoga com o cartum sem perder algo de um desenho quase realista, quase expressionista, sempre delicado. O livro já foi comprado por uma editora americana, que vai lançá-lo em inglês em outubro deste ano. E tudo indica que editoras brasileiras estão de olho nele.

O azul do título e do cabelo de Emma (personagem que no filme é vivida por Léa Seydoux) é um elemento que ganha vida própria na história, quase toda contada em preto e branco. Muito além de ser um elemento plástico por si só interessante à narrativa, o azul é a cor do amor de Clémentine. É o azul que sinaliza a diferença, a distinção do singular no meio da multidão. Em tempo: no filme de Kechiche, Clémentine virou Adèle, vivida pela atriz Adèle Exarchopoulos.

Questões estéticas à parte, o livro ganha mesmo em seu roteiro. Maroh escolhe as palavras e os silêncios certos para dar conta de todas as montanhas russas de um relacionamento. Está lá o sexo (e é tão bonito ver uma HQ com sequências honestas de sexo), o gozo, a intimidade, a discussão de relacionamento, o choro, as idas e vindas de um relacionamento que se consome, a convivência com a família, enfim, o combo completo que você leva quando se apaixona por quem se apaixona por você.

Cenas da HQ
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Cenas da HQ "Le bleu est une couleur chaude", ainda apenas em francês. Uma editora americana vai lançar em inglês. Quando será que sai no Brasil?

De bônus, guiadas pelo diário de Clémentine, lidamos com toda a mixórdia emocional de uma jovem que está começando a descobrir seu corpo e suas vontades e que, por isso, vai enfrentar questionamentos que vêm de dentro e de fora. E, claro, a crise não é de ordem apenas afetiva, há um mundo caindo lá fora, pessoas protestando na rua, a França das revoluções burguesas.

O texto é lindo – “as questões dos adolescentes são banais aos olhos dos outros, mas quando alguém se sente só e seus pés travam, como saber dançar?” – e as conversas entre Clémentine e Emma são tudo aquilo que compete a uma boa história. De amor. Triste e alegre, mas “apenas” mais uma bem contada história de amor.

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