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Para especialistas, a cura da homofobia paterna leva tempo e necessita de alguns fatores para acontecer, como a necessidade de o próprio filho se aceitar

Se fosse alguém da vida real e não um personagem de novela, o administrador Félix Khoury ( Mateus Solano ) teria tido um Dia dos Pais nada agradável. Nas últimas semanas, a trama das 21h da Globo o tem mostrado sofrendo ataques pesados de homofobia do próprio pai. Para impedir que Félix assumisse publicamente sua homossexualidade, o médico César Khoury ( Antônio Fagundes ) até ameaçou demitir Félix do hospital da família.

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O grau de homofobia de César é tão alto que chega a causar dúvida sobre a possibilidade dessa aversão à homossexualidade se extinguir ou, pelo menos, diminuir algum dia. Provocando também um questionamento: O que seria preciso para um pai como o de “Amor à Vida” se curar e passar amar o filho do jeito que ele é?

Mestre em Diversidade Sexual pela PUC-RJ, o educador Alexandre Bortolini acredita que a mudança é possível, mas que ela acontece gradativamente e não é de uma hora para outra. “Todas as pessoas são capazes de aprender, é importante o filho ter a noção de que é um processo”, analisa Bortolini, ressaltando que se a homofobia do pai descambar para a agressão, seja ela física ou verbal, será necessário que o filho se afaste por um tempo.

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Machão e conservador, César Khoury não consegue aceitar a homossexualidade do filho
Divulgação/TV Globo
Machão e conservador, César Khoury não consegue aceitar a homossexualidade do filho

Infelizmente, essa violência é uma realidade em muitos casos, como relata a presidente do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), a terapeuta Edith Modesto . “Dos 50 casos que atendemos mensalmente na ONG, pelo menos um vem de uma expulsão, dez são de ameaças”, enumera Modesto.

Otimista, Edith acredita que os laços familiares prevalecem e colaboram para a aceitação da homossexualidade. “O processo varia de pessoa para pessoa, os contextos são variados. Mas é preciso esclarecer esse pai. Isso é difícil, principalmente para o filho, que além de sofrer muito por ser gay, não encontra o acolhimento em casa. Porém, com tempo, o amor sempre vence”.

Bortolini observa que a aceitação da homossexualidade do filho muitas vezes esbarra em fatores culturais, que fazem até o pai questionar a própria sexualidade. “É o caso clássico da máxima ‘esse menino é a cara do pai’, o fato dos primogênitos serem herdeiros. É uma questão de cobranças culturais sendo postas em xeque”.

Especialista em vínculos familiares, a psicanalista Brunella Rodriguez aponta outra dificuldade envolvida nesta questão, o fato de que muitas vezes a homossexualidade de um filho acaba provocando um conflito colateral, que é o estremecimento da relação entre o pai e a mãe. Nestes casos, a dinâmica mais comum acontece com ela sendo mais tolerante, aceitando a orientação sexual, e ele a rejeitando, atuando como repressor. 

Ele não se aceitou, não confrontou o pai para que eles pudessem lidar com a homofobia. Ao forçar uma relação heterossexual, Félix reforça a homofobia do pai (Brunella Rodriguez)

Reconhecendo também que essa oposição entre os pais é comum, Modesto avalia que quando pai e mãe têm uma relação mais harmônica, a aceitação se dá de uma maneira menos traumática. “Se o relacionamento é estável, o casal se une para enfrentar as dificuldades. Do contrário, a homossexualidade do filho pode ser a gota d’água para acabar o relacionamento”, julga a terapeuta.

Independentemente da dinâmica estabelecida pelo casal, os especialistas ouvidos pelo iGay entendem que no exemplo apresentado pela novela, não é só César que precisa resolver sua homofobia. Para eles, Félix também sofre do mesmo problema.

“Ele não se aceitou, não confrontou o pai para que eles pudessem lidar com a homofobia. Ao forçar uma relação heterossexual, Félix reforça a homofobia do pai”, considera Rodriguez, mencionando o casamento de fachada do personagem com Edith (Bárbara Paz).

Para a psicanalista, ao se aceitar, Félix vai, consequentemente, ter uma relação melhor com o seu próprio filho, Jonathan (Thalles Cabral).

“Com a autoaceitação e talvez a do pai, Felix pode enfim eliminar essa herança homofóbica que carrega, deixando assim de achar que não pode ser um bom pai. Aliás, algo muito comum entre os homossexuais”, conclui Rodriguez.