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No entanto, ativistas também disseram que é necessário aguardar os desdobramentos que a fala do líder católico pode ter

Agência Brasil

Organizações de defesa de homossexuais consideraram um avanço e um marco simbólico a declaração feita pelo papa Francisco , durante sua viagem de volta ao Vaticano na última segunda-feira (28), de que os homossexuais não devem ser discriminados, mas integrados à sociedade.

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O papa Francisco condenou o “lobby gay” no Vaticano, mas disse que os homossexuais não devem ser julgados ou marginalizados. “O problema não é ter essa orientação [homossexual]. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lobby por essa orientação, ou lobbies de pessoas invejosas, lobbies políticos, lobbies maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema” , disse. “Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la?”

Julio Moreira:
Arquivo pessoal
Julio Moreira: "A gente precisa entender que tipo de acolhimento é esse, porque simplesmente ter uma fala que eu amo o pecador, mas condeno o pecado, não nos ajuda muito a combater a homofobia"


Para Loren Alexsander , responsável pelo Movimento de Gays, Travestis e Transformistas (MGTT), a declaração do papa significa um avanço dentro da sociedade. Loren destacou que o importante é que haja respeito. “Ele [respeito] tem que ser mútuo, tem que ser recíproco, tanto a pessoas do nosso segmento, como a qualquer ser da sociedade civil”.

O coordenador do programa estadual Rio sem Homofobia  Cláudio Nascimento  considerou a declaração do papa um marco simbólico importante. “Uma diferenciação de todo discurso de altas autoridades da Igreja Católica em outros tempos e pode demarcar um novo momento da igreja católica com essa discussão”, disse.

Nascimento advertiu, entretanto, que é necessário aguardar os desdobramentos que a declaração pode ter. Segundo Nascimento, as palavras do papa Francisco foram oportunas na atualidade, levando-se em conta que a violência e a discriminação contra gays, lésbicas, transexuais e bissexuais permanecem em patamares altos em todo o mundo e existem países que tratam a homossexualidade com a pena de morte.

O coordenador do programa fluminense disse que, dentro do cenário brasileiro em que há um homossexual assassinado a cada dia e que 40% dos homossexuais na cidade do Rio de Janeiro sofreram agressão por homofobia, “a declaração do papa ajuda a tocar nos corações e mentes das pessoas, especialmente aquelas que têm alguma orientação religiosa. Isso, com certeza, tem um papel importante, que a gente não pode desconsiderar”.

Nascimento:
Divulgação
Nascimento: "A declaração ajuda a tocar nos corações e mentes das pessoas, especialmente aquelas que têm alguma orientação religiosa"

O presidente do Grupo Arco-Íris do Rio de Janeiro  Julio Moreira , disse que a declaração do papa é positiva e abre novas portas para o diálogo. “A gente entende, também, que é uma fala do papa, não da Igreja. É necessário também que, dentro das hierarquias da igreja católica, isso comece a ser colocado em prática”, disse.

Moreira salientou que a questão da misericórdia e do acolhimento aos mais necessitados deve ser objeto de toda igreja. “No caso dos homossexuais, que são violentados diariamente nos seus direitos à própria existência, isso é mais do que condizente. Porém, a gente precisa entender que tipo de acolhimento é esse, porque simplesmente ter uma fala que eu amo o pecador, mas condeno o pecado, não nos ajuda muito a combater a homofobia institucionalizada, que está na sociedade e precisa mudar”.

O presidente da entidade disse que enquanto houver discursos que colocam o segmento gays, lésbicas, transexuais e bissexuais (LGBT) como algo negativo, haverá uma reprodução da homofobia. “A gente espera que essa fala [do papa] seja introjetada em forma de ações positivas e posições que a própria Igreja respeite os avanços que essa comunidade conquistou ao longo dos anos e ainda quer conquistar”.

Moreira defendeu também o posicionamento de Francisco a respeito da construção de uma igreja que não se misture com os lobbies políticos. “Isso para nós também é fundamental. A garantia do Estado laico, onde a separação Estado e Igreja seja realmente respeitada”.

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