Tamanho do texto

25 de julho é o Dia do Escritor, e o iGay foi se consultar com Pedro Paulo de Sena Madureira, um dos mais importantes editores brasileiros dos anos 70 até os 2000 e atual professor de literatura, para fazer uma lista essencial dos escritores gays

Gay assumido “desde que se conhece por gente” – ele se casou no dia 11 de julho passado com Carlos Henrique Lamothe , seu companheiro há 37 anos -, o editor Pedro Paulo de Sena Madureira refuta o termo “literatura gay”. “Não gosto dessa classificação”, diz, e justifica: “O escritor é bom ou não é bom, a obra é bem escrita ou não. Não acredito em ´literatura gay´, assim como não concordo com 'literatura feminina´.”

CURTA A PÁGINA DO IGAY NO FACEBOOK 

Pedro Paulo Senna Madureira:
Claudio Augusto
Pedro Paulo Senna Madureira: " Não acredito em ´literatura gay´, assim como não concordo com 'literatura feminina"

Ele começa a ditar o seu conhecimento extenso com indicações de obras que poderiam, mas nunca serão por ele, classificadas como “literatura gay”.

“O primeiro romance de Marguerite Yourcenar , ´Aléxis´, de 1929, trata da carta de um pianista famoso para a sua mulher, com quem ficou casado por três anos sem chegar propriamente a possuí-la , dizendo que vai abandoná-la para seguir sua vocação e viver sua atração por homens.”

Pedro Paulo lembra-se ainda de “Memórias de Adriano”, a obra mais importante da escritora, uma biografia imaginária do imperador romano. “Ela cita toda a relação dele com outro homem. Posso dizer que é uma obra-prima gay? Não, é simplesmente uma obra-prima.”

E o editor segue sua relação de livros que seriam, em sua opinião, diminuídos pela classificação de “gays”. “´Bom Crioulo´, do escritor brasileiro Adolfo Caminha , é um belo romance”, diz ele, lembrando a obra que em sua publicação, em 1895, foi recebida com escândalo pela crítica literária por tratar de tabus como sexo inter-racial e a homossexualidade em ambiente militar.

“Todos se esquecem também de ´Moleque Ricardo´ (1935), de José Lins do Rego , que passa praticamente 2/3 do livro como homossexual. Ele vai para o Recife na adolescência e se depara com a vida urbana. É uma delícia de romance”, descreve Pedro Paulo.

E vai mais longe: “Os sonetos do Shakespeare , segundo a maioria dos biógrafos, são dirigidos a um rapaz. São uma obra-prima da literatura.”

Considerando que a sexualidade dos escritores não é uma definição da sua obra, e sim puramente a sua orientação sexual, Pedro Paulo aceitou a tarefa de listar os autores gays que são, em sua opinião, os mais significativos da literatura. Sua lista final com 11 nomes seria a seguinte:

1- Jean Genet – escritor, poeta e dramaturgo francês, morreu em Paris em 1986. “Todos os principais personagens de sua obra toda são homossexuais”, diz Pedro Paulo, que cita os livros “Diário de um Ladrão” e “Nossa Senhora das Flores” e a peça de teatro “As Criadas”.

2- Edmund White – romancista, escritor de contos e crítico literário, nasceu em Ohio, EUA, em 1940. “Biógrafo de Jean Genet, assim como o seu biografado, só tem romances gays.”

Divulgação
"Onde Andará Dulce Veiga?", de Caio Fernando Abreu, e "Diário de Um Ladrão", de Jean Genet, obras essenciais dos dois autores


3- Caio Fernando Abreu – Jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro, morreu em 1996. “Meu amigo”, diz Pedro Paulo. “Na obra do Caio Fernando pouco aparece o homossexualismo explícito. Ele era abertamente homossexual, mas procurou não trazer em seus livros essa característica predominantemente homossexual.”

Divulgação
"Em Busca do Tempo Perdido", o clássico de Marcel Proust

4- Marcel Proust – Escritor francês, morreu em 1922. Mais conhecido por sua obra “Em Busca do Tempo Perdido”, publicada em sete partes entre 1913 e 1927. “Na última parte de ´Em Busca do Tempo Perdido´, depois de ´Sodoma e Gomorra´, do 4º ao 7º volumes, o homossexualismo é totalmente explícito.”

5- Gore Vidal – Autor, dramaturgo e ensaísta americano, morreu em 2012. Nos Estados Unidos, é mais respeitado como ensaísta do que como romancista. O crítico John Keats elogiou-o como "o melhor ensaísta do século [XX]”.

6- Oscar Wilde – Dramaturgo e poeta irlandês, autor de um único romance, “O Retrato de Dorian Grey”, Wilde foi o inventor de um movimento estético chamado esteticismo, ou dandismo, que defendia o belo como antídoto para os horrores da sociedade industrial. Em 1895, foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por "cometer atos imorais com diversos rapazes”, depois que o pai de Bosie (apelido de Lorde Alfred Douglas, um de seus amantes) o denunciou e o levou ao tribunal. Morreu em 1900.

7 - James Baldwin – Ensaísta, romancista e dramaturgo americano de Nova York. Foi o primeiro escritor a dizer o que os negros americanos pensavam e sentiam. Chegou ao auge de sua fama durante a luta dos direitos civis no início da década de 1960. Morreu em 1987.

8 - André Gide – Escritor e militante da causa gay francês, recebeu o Nobel de literatura em 1947 e morreu em 1951. Homossexual assumido, falava abertamente em favor dos direitos dos homossexuais. Escreveu, entre 1910 e 1924, “Corydon”, livro destinado a combater os preconceitos homofóbicos.

9 - João do Rio – Prolífico escritor carioca, publicou textos sob diversos pseudônimos em várias publicações cariocas. João do Rio era um dos pseudônimos, nascido na “Gazeta de Notícias”, que engoliu o seu verdadeiro nome, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto. Morreu em 1908.

Divulgação
"O Rei do Cheiro" e "Pedação de Mim", duas das obras de João Silvério Trevisan

10- João Silvério Trevisan – Escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista LGBT paulista de Ribeirão Bonito, nasceu em 1944. Ex-seminarista, assumiu sua homossexualidade e foi um dos fundadores do grupo Somos, de defesa dos direitos dos homossexuais, na década de 1970.

11- Lúcio Cardoso - Escritor, dramaturgo, jornalista e poeta mineiro, morreu em 1968. Católico, deixou em seu Diário (1961), escrito entre 1949 e 1962, um relato emocionado sobre sua homossexualidade, e as dúvidas e culpas geradas pela sua orientação sexual.

“Posso provocar?”, pergunta Pedro Paulo, como se fosse possível evitar que o seu raciocínio a jato atinja seus alvos como um raio. “Coloca também Shakespeare, considerando que os sonetos tenham mesmo sido escritos para um rapaz, e Santo Agostinho , que nas ´Confissões´ relata suas ´relações proibidas´.”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.