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Integrantes da Força Aérea e da Marinha dos Estados Unidos, homossexuais criam grupos de apoio aos colegas que querem assumir sua sexualidade sem prejudicar suas carreiras

Por oito anos, o sargento da Força Aérea dos Estados Unidos Justin Lahl se acostumou a manter em segredo a sua orientação sexual. E isso significava aguentar calado a cada momento que um colega militar fazia uma piada homofóbica, sendo inclusive obrigado a esboçar um sorriso ‘amarelo’ toda vez que a homossexualidade era tratada de forma caricata para provocar risos. Apenas o seu parceiro de quarto e alguns amigos sabiam que ele era gay.

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Mas hoje, Lahl, um mecânico de aviões de 26 anos de idade, não precisa mais esconder a sua condição, pelo contrario, ele fala abertamente dela na base da Força Aérea onde atua, em Kirtland, no estado de Ohio.

Líder da organização Gay-Straight Alliance, Lahl faz parte do primeiro grupo de apoio para militares gays e lésbicas em Kirtland. Aliás, o comandante da base deu apoio e incentivou a iniciativa.

A civil Elise Thomassom, o sargento Justin Lahl e o capitão Greg Moran (de farda), membros de grupos de apoio para militares gays e lésbicas americanos
The New York Times
A civil Elise Thomassom, o sargento Justin Lahl e o capitão Greg Moran (de farda), membros de grupos de apoio para militares gays e lésbicas americanos


Grupos como o de Kirtiland têm se propagado por todo o território americano desde 2011, quando o presidente Barack Obama revogou a política “don’t ask, don’t tell” (não pergunte, não fale), que proibia militares gay e bissexuais de falar abertamente de sua sexualidade, sob pena de serem expulsos da força que atuavam.

"Tem sido uma experiência libertadora. Agora eu posso ser eu mesmo e não duas pessoas diferentes, uma para o trabalho e outra para casa”, revela Lahl, que é vice-presidente do grupo de apoio Kirtland. "Não somos mais pessoas anônimas, sem voz. Nós temos representação na base”, completa.

Participam do grupo 12 militares gays e lésbicas ainda na ativa, além de dezenas de veteranos e civis homossexuais. Três soldados heterossexuais também integram a iniciativa. Na base de Kirtland, atuam 20 mil pessoas.

Mensalmente, o grupo se reúne para sociabilizar e também para aconselhar militares que ainda não saíram do armário, orientando-os para que a sua sexualidade não seja um obstáculo para que eles avancem em suas carreiras militares.

"Como o nosso grupo cada vez maior, a expectativa é que em breve a presença da comunidade LGBT seja uma situação cada vez mais comum nas forças militares”, projeta o capitão Greg Moran , presidente do grupo de apoio. Ele lembra que até há pouco tempo só era possível discutir o assunto homossexualidade de maneira clandestina.

Da mesmo modo que o grupo da Força Aérea em Kirtland, organizações similares têm sido formadas na Marinha dos EUA.

Justin Lahl: “Espero que seja bem mais fácil para as novas gerações
The New York Times
Justin Lahl: “Espero que seja bem mais fácil para as novas gerações"

No ano passado, a suboficial de segunda classe Ann Foster , 27, deu início ao Grupo de Apoio aos Gays e Lésbicas da Marinha (GLASS na sigla em inglês), na Estação Naval dos Grandes Lagos, em Illinois. Ela tomou a iniciativa depois acompanhar a história de uma militar lésbica que tinha que sustentar sua esposa e filhos sem poder recorrer aos mesmos benefícios que os marinheiros heterossexuais têm direito.

Foster diz que nos últimos meses foram formados grupos em três bases navais e que 15 estão em processo de formação. Ela atribui esse crescimento a geração mais jovem que está servindo nas Forças Armadas dos EUA atualmente. Soldados que cresceram acostumados a conviver com amigos e familiares abertamente gays, tornando a política “don’t ask, don’t tell” obsoleta e sem sentindo.

Tem sido uma experiência libertadora. Agora eu posso ser eu mesmo e não duas pessoas diferentes, uma para o trabalho e outra para casa (sargento Justin Lahl)

"Eles não têm esse medo inato que as pessoas que estavam na Marinha antigamente tinham, militares que serviram longos períodos sob o espectro da política ‘don’t ask, don’t tell’”, analisa Foster.

No entanto, Foster conta que alguns comandantes se incomodam com iniciativas deste tipo sendo formados sob sua guarda. Ela observa ainda que a presença desse os grupos até agora a se restringe à Marinha e à Força Aérea, não aparecendo no Exército.

Na base de fuzileiros navais de Base Camp Lejeune, na Carolina do Norte, um grupo de militares tem se reunido informalmente há nove meses, tentando conseguir apoio oficial, mas eles tem encontrado resistência do comando local.

Mesmo nas bases em que os grupos funcionam com apoio oficial, a convivência entre militares homossexuais e heterossexuais nem sempre é fácil. De acordo com a ativista civil Elise Thomasson , muitos comandantes se distanciam de soldados que se declaram gays.

Lahl está esperançoso quanto ao futuro dos homossexuais militares. “Se assumir foi difícil para nossa geração. Espero que seja bem mais fácil para as novas gerações... Espero que eles não tenham que sentir medo”.

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