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Aos 30 anos, a vencedora do “The Voice Brasil” lança o primeiro CD por uma gravadora, e já disse a que veio: “Vamos tratar as diferenças com respeito. O amor não tem cura. ”

Ellen Oléria usa sua voz, “A Voz”, com desenvoltura. Fala pelos cotovelos, dá gargalhadas capazes de balançar as paredes e canta. É só provocar. “Eu canto em casa desde pequenininha, mas nada muito especial. Sempre gostei de uma fuleiragem, bastava me verem com um violão e me pediam para tocar alguma coisa. Cantei na igreja e minha primeira banda foi com meus irmãos, Dadá e Eliene.” E antes de vencer o “The Voice Brasil” e ser considerada “A voz” do Brasil, quem foi a primeira pessoa que te disse que sua voz deveria ser ouvida pelas multidões? “Gostaria de dizer que foi minha mãe. Mas nós éramos três fazendo zoeira em casa, o que ela fazia era pedir para a gente parar.”

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As multidões vieram. Ela já cantou no réveillon do Rio de Janeiro para 3 milhões e 200 mil pessoas. Cantou o Hino Nacional no estádio Mané Garrincha em sua Brasília natal. E cantou no encerramento da Parada Gay em São Paulo. “Quero fazer como o Milton Nascimento e ir aonde o povo está. E onde o povo estiver peço que me convidem para cantar”, roga ela. No sábado (29) Ellen vai estar no concerto em homenagem a Renato Russo em Brasília, aquele em que a imagem do cantor vai aparecer em holograma. “Renato Russo é referência para várias gerações. Muito do que eu sei de violão aprendi com meu irmão cantando Renato Russo.” Sua música será “Teatro dos Vampiros”, e ela recita os versos: “Sempre precisei de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto.”

"Minha técnica é o ´instinto selvagem´. Não leio quadraturas, nem partituras e nem as cifras. Dizem que as notas têm parentesco, eu não conheço a vizinhança."

De violão ela sabe o que aprendeu com o irmão e, bem, tocando. “Minha técnica, como diz meu irmão, é o ´instinto selvagem’. Não leio quadratura, nem partitura e nem cifras. Dizem que as notas têm parentesco, eu não conheço a vizinhança.”

A falta de intimidade com a técnica não foi empecilho para a cantora, que lançou dois discos independentes, em 2009 e 2010, e um DVD em 2011, antes de vencer a primeira edição do reality show “The Voice Brasil” e ganhar como prêmio um contrato com a Universal Music, mesma gravadora de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ivete Sangalo. Seu primeiro CD por uma gravadora, “Ellen Oléria”, será lançado no dia 2 de julho, com metade das 13 faixas de sua autoria. “Desejo que minha música ande mais rápido do que eu, seja mais esperta do que eu.”

Ellen é uma presença divertida, expressiva, conversadora, e os 20 minutos que a gravadora Universal tinha nos oferecido com ela foram se estendendo. As frases saem de sua boca como se já estivessem escritas. “Só posso falar a partir desse meu lugar: negra, gorda, lésbica, vegana (ela adotou a dieta que exclui carnes e todos os derivados animais desde que começou a namorar Poliana Martins, poetisa brasiliense de 27 anos). Sinto que não podemos ser resumidos pelo que representamos.”

O amor não tem cura. A gente tem de silenciar essas paradas. Reproduzir o que nos é contrário é afirmar. Interessante agora é aprovar as leis que garantam os nossos direitos."

E a cura gay? “O amor não tem cura”, ela diz. E acha mais, que devemos parar de falar desse assunto, de retuitar cada novo pronunciamento de Marco Feliciano. “A gente tem que silenciar essas paradas. Tem um pessoal ganhando muita mídia de graça. Reproduzir o que nos é contrário é afirmar. Interessante para nós agora é aprovar as leis que garantam o exercício dos nossos direitos.” Ela lembra uma história que a representa. “Perguntaram para Virginia Woolf: ´O que faz uma escritora de verdade?' E ela disse: ´Não posso me dedicar a responder essa pergunta, estou muito ocupada escrevendo.´” Ela acredita que em vez de falar a gente tem de ser. "A vida é curta, acho que a gente pode fazer muito melhor nessa nossa passagem por aqui. Vamos tratar as diferenças com respeito. Tem espaço para todo mundo.”

Não estou apegada aos desentendimentos que tive ao longo da vida. Não quero andar carregando os corpos, sentindo o peso dos fantasmas. Tá todo mundo liberado para ser feliz."


“Fazer sucesso é gostoso e custoso”, define Ellen. Eu provoco: “E não tem um certo prazer em pensar que as pessoas que não acreditaram no seu sucesso estão tendo que te engolir?” Ela não embarca. “Sou escorpiana, mas acho que depois dos 28 estou mais aquariana. Não estou apegada aos desentendimentos que tive ao longo da vida. Não quero andar pela vida carregando os corpos, sentindo o peso dos fantasmas. Está todo mundo liberado para ser feliz.”

Capa do novo trabalho da cantora, que leva seu nome
Divulgação
Capa do novo trabalho da cantora, que leva seu nome


Ellen está apaixonada, mas credita a Poliana o início do namoro de um ano e sete meses. “Eu sou meio mirim”, diz ela sobre seu estilo de conquista. “Se elas não chegarem, eu não chego.” Alguma coisa mais? “Queria agradecer a todos por terem aberto a porta de casa para eu entrar. Quero que esse disco seja um cartão de visita para a gente se encontrar sempre.”

Veja teaser com Ellen Oléria cantando a música "Aqui É o País do Futebol": 


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