Tamanho do texto

Veja o relato de dois homens gays que passaram por essa situação. Especialistas dizem que pressionar o namorado a se assumir não é a melhor saída

Há cinco anos, o arquiteto Elias Bastos , 25, passou por um Dia dos Namorados nada agradável. Mesmo estando comprometido com um colega de cursinho, ele passou o 12 de junho sozinho. O que impediu que os dois comemorassem a data foi o fato de que o parceiro dele não tinha se assumido gay para família e amigos.

CURTA A PÁGINA DO IGAY NO FACEBOOK 

Elias Bastos:
Arquivo pessoal
Elias Bastos: "Ficamos juntos por quase nove meses, no Dia dos Namorados ele passou com ela e não comigo"

“Quando começamos a ficar, ele ainda namorava uma menina. Ninguém sabia que tinha um relacionamento gay. Ficamos juntos por quase nove meses, mas o Dia dos namorados ele passou com ela e não comigo”, lembra Elias, que obviamente sofreu com a situação, mas não terminou o relação.

Mesmo estando fora do armário, Elias teve de viver um relacionamento às escondidas. “Como sou assumido, ele não falava comigo pessoalmente, para não ser alvo de comentários. Só conversávamos por SMS”, conta o arquiteto, que passou por uma situação constrangedora quando o namorado terminou o ensino médio. “Na formatura dele, ele chegou a beijar uma menina para disfarçar”, relata.

O designer gráfico Andre Vitor Martins , 28, viveu a mesma situação, só que ao contrário: ele namorava um gay assumido, apesar de ainda estar no armário.

“É muito complicado, envolve muitos sentimentos, você vive assustado, com medo de ser visto, não consegue demonstrar para a pessoa o que sente direito com receio de ser julgado”, recorda Andre, que aos 20 anos também passou um Dia dos Namorados insatisfatório, num restaurante de São Paulo.

“Eu queria me soltar, curtir mais o momento. Mas a sensação de que as pessoas no restaurante estavam nos julgando e que poderiam nos expulsar de lá a qualquer momento não saia da minha cabeça”, explica o designer. “Na volta para casa, ainda tiver que dar um desculpa barata para os meus pais, dizendo que tinha ganhado o presente de uma amiga”, completa.

Para a psicóloga Janaina Leslão Garcia, numa situação como as protagonizadas por Elias e André, forçar a saída do armário do parceiro não é a atitude mais recomendada. “As relações têm que ser baseadas, acima de tudo, em respeito. Cada um sabe o momento certo de se assumir, tudo tem seus prós e contras, é muito particular”, pondera a especialista, que trabalha com questões de gênero e sexualidade.

“O que a pessoa pode fazer é contar como foi se assumir, e a importância disso para ela. Ser aberto em relação à necessidade da relação ser pública, usar as suar próprias referências para deixar o outro confortável”, aconselha Garcia.

Elias confessa que não teve toda essa tranquilidade de esperar o então namorado se assumir em seu próprio tempo, fazendo muito pressão para que ele saísse logo do armário. Mas, lentamente, o parceiro foi conseguindo lidar melhor com a própria sexualidade, tornando pública a sua orientação sexual.

A pressão incessante para que um namorado saia do armário pode acabar tendo efeito contrário do pretendido, deixando quem é pressionado culpado e infeliz. “A culpa não ajuda em nada. Porque a pessoa até gostaria de dividir sua condição com a família, mas não se sente preparada para fazer isso. Ela tem medo, tem fantasias negativas sobre o que pode acontecer”, observa Klecius Borges, psicólogo especialista em terapia homoafetiva.

André Vitor Martins:
Arquivo Pessoal
André Vitor Martins: "Você vive assustado, com medo de ser visto, não consegue demonstrar para a pessoa o que sente direito com receio de ser julgado”

De acordo com Borges, nos casos em que a pessoa tem algum bloqueio que a impede de se assumir, a terapia pode ser necessária para resolver o problema. Participar de algum grupo de apoio também pode ajudar. O psicólogo acrescenta ainda que quem aceita ter um encontro discreto no Dia dos Namorados deve fazer isso por generosidade e não por pena do outro.

“Se o lado assumido escolher generosamente um encontro mais discreto, vai fazer muito bem para a relação, afinal é uma celebração. Mas não vale a pena, se o outro jogar isso na cara do parceiro em uma briga posterior”, pondera Borges.

Garcia aconselha que o parceiro assumido se coloque no lugar do outro que não é, compreendendo que este é um processo que leva tempo. “Ninguém está fora do armário 100% do tempo. Quando você chega a um bar, ao cinema ou ao trabalho, as pessoas pressupõem que você seja hétero. Nestes casos, assumidos ou não, todos têm de sair do armário mais uma vez, pesando a cada momento os custos e benefícios de se assumir”, conclui.

Mais maduros e solteiros no momento, Elias e André dizem que hoje não aceitariam viver uma relação com alguém que não se assumiu, mesmo que isso implicasse passar o Dia dos Namorados sem companhia.

E você, já viveu alguma situação parecida? Comente abaixo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.