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Personagem do documentário “Olhe Pra Mim de Novo", transexual relata a dificuldade da vida de um homem que nasceu no corpo de mulher no interior do Ceará

Estreando em São Paulo na próxima sexta-feira (24), o documentário “Olhe Pra Mim de Novo", dirigido por Kiko Goifman e Claudia Priscilla , apresenta ao público um personagem impar. O transexual Sillvyo Luccio , 49, já se viu como uma mulher lésbica, mas hoje se identifica como homem. No árido interior do Ceará, Sillvyo tenta fazer sua identidade ser entendida.

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“Muita gente acha que homem é só quem tem pênis e barba, eu não tenho isso, mas sou um homem, isso que importa, e constantemente lembro as pessoas disso”, explica Sillvyo em entrevista ao iGay. “Meu corpo é feminino, só por conta dos peitos e da vagina, mas eu não tenho os traços, o andar”, completa ele, que é funcionário público na cidade de Pacatuba.

A intenção inicial dos dois diretores não era contar a história de Luccio, mas retratar novos modelos familiares. Durante a pré-produção do documentário, a vida do funcionário público ganhou protagonismo. “Ele era ‘o’ personagem, uma figura forte que acabou se tornando o filme”, revela Goifman.

Sillvyo Luccio: “Ou o dinheiro ia para cirurgia ou para fertilização, optamos pela segunda
Divulgação
Sillvyo Luccio: “Ou o dinheiro ia para cirurgia ou para fertilização, optamos pela segunda

Com essa mudança de foco, os documentaristas decidiram colocar o cearense como fio condutor do filme. Além de contar a própria história, Luccio encarna o papel de entrevistador dos outros personagens do documentário, que percorre o Nordeste em busca de modelos diversos de família e sexualidade.

Sem pudores e com clareza, “Olhe Pra Mim de Novo" relata a árida história de vida de Luccio. Filho de pais evangélicos, que não aceitam sua condição, o funcionário público sofreu tentativas de ‘cura’ numa igreja. Procurados pelos documentaristas, o pai e a mãe dele se recusaram a falar.

Protagonista de um dos momentos mais tristes do documentário, a filha foi a única familiar que aceitou falar. “Minha família é minha esposa, o resto é meu parente”, constata Luccio.

Veja o trailer de  “Olhe Pra Mim de Novo"

Além das questões relacionadas à sua condição de transexual, Luccio enfrenta dificuldades cotidianas, como a falta de dinheiro, que impede, por exemplo, que ele faça a cirurgia de mudança de gênero.

“Estou em processo de terapia hormonal, mais que isso não tem o que fazer. Uma cirurgia custa cerca de 40 mil reais”, desabafa Luccio, reclamando que é difícil um transhomem conseguir se operar na rede pública. Desde 2007, o SUS realiza operações de mudança de sexo.

Engajado em lutas sociais, o funcionário público é um defensor dos direitos humanos. “Não sou bonito, não tenho 20 anos, não moro em São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, estou fora do eixo dos movimentos LGBT, já fiz parte do pouco que acontecia por aqui, mas percebi que quero lutar por direitos e não por letras”, afirma.

Sem dinheiro para custear um advogado, Luccio ainda não conseguiu a alterar o seu nome de batismo no RG. O próximo plano dele é ter um filho com a mulher, por meio de inseminação artificial. Por isso, ele abriu mão de uma mastectomia, a cirurgia de retirada dos seios. “Ou o dinheiro ia para cirurgia ou para fertilização, optamos pela segunda. Não estamos ficando mais jovens, quero brincar com meus filhos e não ficar sentado assistindo”, observa.

Depois do filho, Luccio e a mulher pretendem se casar. Atualmente, eles têm um contrato de união estável. O funcionário sente orgulho da sua participação no documentário. “O filme é um reflexo da vida de quem está ali, cada pessoa anônima se encontra refletida naquelas experiências, a minha historia vai se misturar a de muitos brasileiros homossexuais que já passaram por sentimento de constrangimento e exclusão”, conclui.

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Serviço:  “Olhe Pra Mim de Novo" - Mostra do Dia Mundial da Diversidade Cultural - CineSESC 24/05 a 30/05 (sexta a quinta), às 14h30 às 19h10 no CineSesc - R. Augusta, 2075. São Paulo-SP

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