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"O futuro chegou e é melhor, mais justo, sem ódio", afirma o ativista argentino Bruno Bimbi, um dos coordenadores da campanha pelo casamento civil igualitário no Brasil. Ele relembra os acontecimentos que levaram à legalização desde a primeira vez que ouviu falar do assunto

Bruno Bimbi, ativista argentino, um dos coordenadores da campanha do casamento igualitário no Brasil
Arquivo pessoal
Bruno Bimbi, ativista argentino, um dos coordenadores da campanha do casamento igualitário no Brasil

Em Porto Alegre, em 2005, ouvi pela primeira vez um ativista gay falando em casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Achei lindo, mas utópico. Quem falava era Pedro Zerolo , então assessor do ex presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero . Ele dizia que o seu seria "o primeiro país latinoamericano" a conseguir — porque Pedro, nascido na Venezuela, criado em Tenerife e radicado em Madri, referia-se à Espanha como "o mais latino-americano dos países da Europa", definição que desde então adotei.

Parecia utópico, sim. Apenas a Holanda, a Bélgica e o estado norte-americano de Massachussets reconheciam a gays e lésbicas o direito a se casar. E não se tratava, justamente, de estados que marcassem a agenda do planeta, menos ainda dos subúrbios. Mas Pedro conseguia transmitir esperança: "Na Argentina também vão conseguir", ele me disse, e eu sorri.

— Quem me dera, Pedro, mas lá isso é impossível. Faltam, no mínimo, vinte anos — eu disse.

Seis anos depois, fui convidado para falar com ativistas do Rio de Janeiro, para contar como conseguíramos na Argentina. Não haviam se passado vinte anos, mas apenas cinco. Embora cético, eu tinha voltado de Porto Alegre empolgado e com vontade de fazer alguma coisa. Entrei na Federação Argentina LGBT e, junto a um pequeníssimo grupo de malucos liderado por Maria Rachid , lançamos em 2007 uma campanha nacional pelo casamento civil igualitário, com o apoio das deputadas Silvia Augsburger e Vilma Ibarra e o deputado Eduardo Di Pollina . As pessoas diziam que era impossível, com os mesmos argumentos que eu tinha usado com Pedro — mas agora eu acreditava que conseguiríamos. E assim foi.

Bruno Bimbi com Ney Matogrosso durante a campanha pelo casamento igualitário no Brasil
Arquivo pessoal
Bruno Bimbi com Ney Matogrosso durante a campanha pelo casamento igualitário no Brasil

Eu escrevi um livro contando como conseguimos. Queria que fosse, além de registro histórico e crônica política, um manual, um guia para ativistas de outros países. Escrevi no Brasil, e pouco tempo depois estaria revivendo essa história no país que me recebeu como estudante de pós-graduação. Acaso ou destino, tive essa sorte.

Naquela primeira palestra sobre casamento igualitário que eu dei no Rio de Janeiro, tive que responder a alguém que falou a mesma coisa que eu tinha falado seis anos atrás:

— Quem me dera, Bruno, mas isso, no Brasil, é impossível. Faltam, no mínimo, vinte anos — ele disse.

Eu respondi o mesmo que o Pedro tinha respondido para mim. Ninguém acreditou.

Mas a história se repetiu, só que mais rápido.

SIM, VOCÊ JÁ PODE SE CASAR!

O Brasil demorou dois anos em conseguir. A decisão 175/2013 do Conselho Nacional de Justiça acabou com a discriminação sofrida pelos casais do mesmo sexo, que agora poderão casar com os mesmos requisitos e efeitos que os casais heterossexuais. Sim, você já pode se casar! E o Brasil entrou, no número 15, à lista de países que reconhecem os mesmos direitos a todas as familias, na qual a Espanha é terceira e a Argentina, décima. E aí vem a Grã-Bretanha, que será a número 16.

As crianças vão crescer e se educar num país em que gays e lésbicas têm os mesmos direitos civis que os heterossexuais. O futuro chegou e é melhor, mais justo, sem ódio e sem preconceito. Assim vai ser, mais tarde ou mais cedo, no mundo inteiro."

A decisão do CNJ, porém, não caiu do céu. Ela foi fruto do trabalho de muita gente e, principalmente, da liderança do deputado federal Jean Wyllys , que decidiu dedicar seu mandato à luta pelos direitos civis das minorias e, em particular, da população LGBT. Em 2011, pouco depois de publicar meu livro contando os bastidores da luta pelo casamento igualitário na Argentina (cuja edição brasileira sai em julho pela Garamond), o Jean me chamou para coordenar uma campanha, organizada pelo seu mandato, com o objetivo de conseguir o casamento civil igualitário no Brasil, tarefa que dividi com o ativista brasileiro João Junior, também assessor do deputado e querido amigo. Eu estava voltando para Buenos Aires, mas o Jean me disse: "Você me dá o livro e vai embora? Nada disso, você fica e me ajuda!". Eu adorei. Ele apresentou um projeto de lei e outro de emenda constitucional no Congresso e percorreu o país levando essa campanha, de maneira suprapartidária e multissetorial, e defendendo a causa em cada espaço que ele conseguia — e com a capacidade que ele tem para convencer as pessoas, foi fácil. Tivemos o apoio de uma grande quantidade de artistas, que gravaram vídeos, vestiram a camisa da campanha, participaram de atos e comícios e assinaram declarações de apoio. No site www.casamentociviligualitario.com.br estão todos.

Daniela Mercury e sua mulher, Malu Verçosa, fazem campanha pelo casamento igualitário no Brasil
Reprodução
Daniela Mercury e sua mulher, Malu Verçosa, fazem campanha pelo casamento igualitário no Brasil

A única coisa que eu lamento da nossa vitória é que os depoimentos que já gravamos com Wagner Moura, Marcos Bagno, Idelber Avelar, o rabino Nilton Bonder e outros já não serão necessários. Mas vamos editar e publicar, mesmo que seja para registro da história.

No Brasil, como na Argentina, não sabíamos, no início, se a vitória chegaria pelo Legislativo ou pelo Judiciário. Eram as duas hipóteses.

Após a sentença do STF de maio de 2011, que reconheceu o direito à união estável aos casais do mesmo sexo, com os mesmos requisitos e efeitos, abriu-se uma brecha, como já tinha acontecido em outros países. Como a Constituição diz, no artigo 226, que a união estável pode ser convertida em casamento, vários casais pleitaram essa possibilidade na Justiça e venceram. Logo os juízes começaram a admitir que, se os casais do mesmo sexo podem registrar a união estável e convertê-la em casamento, não há razão para que eles não possam se casar de forma direta. E as corregedorias estaduais começaram a regulamentar essa possibilidade em até treze estados, mais o Distrito Federal. O gabinete do deputado acompanhou cada caso, falando com corregedores, procurando o apoio das entidades profissionais e impulsionando decisões favoráveis nos estados. Até que achamos que era o momento para buscar uma solução federal através do Judiciário, já que o Legislativo, refém do fundamentalismo religioso, atrasava um século.

Foi então que o Jean decidiu entrar com um pedido ao CNJ, junto com a associação dos cartórios do Rio de Janeiro (a ARPEN-RJ), onde o casamento civil igualitário ainda não estava regulamentado e o juiz da capital rechaçava todos os pedidos, deixando em evidência o absurdo de ter direitos diferentes dependendo do CEP. A ação, também assinada pelo PSOL, foi obra do brilhante advogado Paulo Iotti, o mesmo que defendeu a união estável no STF. E, poucas semanas depois, chegou a decisão que o mundo inteiro aplaude, impulsionada pelo corajoso Joaquim Barbosa.

LEIA A COLUNA DE JEAN WYLLYS NO IGAY

A decisão do CNJ é irreversível. Os fundamentalistas podem fazer o que quiserem, mas não tem jeito. O futuro chegou e é melhor, mais justo, sem ódio e sem preconceito. Assim vai ser, mais tarde ou mais cedo, no mundo inteiro.

A melhor coisa que os casais brasileiros que quiserem se casar podem fazer é marcar a data no cartório. Milhares de casamentos farão com que a irreversibilidade da decisão seja ainda mais sólida. E ajudarão a transformar essa vitória jurídica e política numa mudança social e cultural. Eu já vivi isso na Argentina e posso garantir a vocês que as coisas acontecem muito mais rápido do que imaginamos.

A melhor coisa que os casais brasileiros podem fazer é marcar a data no cartório. Milhares de casamentos farão com que a irreversibilidade da decisão seja ainda mais sólida. E ajudarão a transformar essa vitória numa mudança social e cultural."

As crianças vão crescer e se educar num país em que gays e lésbicas têm os mesmos direitos civis que os heterossexuais e as famílias que constróem valem o mesmo para o Estado, têm o mesmo reconhecimento e o mesmo estatus jurídico. As pessoas vão começar a sair do armário para se casar e os vizinhos vão acabar assistindo à festa junto com os colegas do trabalho e a família. Isso educa e combate o preconceito muito mais do que a necessária criminalização da homofobia, porque muda a cabeça das pessoas. Daqui a pouco, vai ter crianças perguntando:

— Mãe, verdade que na sua época os gays não podiam casar? Por quê?

Estou na Argentina desde quinta-feira passada. Viajei convidado pela Prefeitura de Buenos Aires para falar, num auditório lotado, sobre jornalismo e diversidade sexual. Falei sobre a nossa vitória no Brasil e lembrei o debate sobre o casamento igualitário na Argentina, que já parece velho. O prefeito é um cara de direita, uma espécie de Rodrigo Maia argentino. A vice-prefeita, que esteve na minha palestra, é católica e conservadora. Mas o país mudou tanto, graças ao debate social que a lei de casamento igualitário provocou, que eles também acreditam, hoje, que está certo. Da mesma maneira que todos nós acreditamos que está certo que as mulheres possam votar e que não exista mais a segregação entre brancos e negros.

João Junior, co-coordenador da campanha, com a cantora Preta Gil, que gravou um vídeo de apoio ao casamento igualitário
Divulgação
João Junior, co-coordenador da campanha, com a cantora Preta Gil, que gravou um vídeo de apoio ao casamento igualitário

“Deus Todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha, e as colocou em continentes separados. O fato de que Ele separasse as raças demonstra que Ele não tinha a intenção de que as raças se misturassem”, escreveu um juíz de Virgínia em 1966, para justificar a proibição do casamento entre pessoas brancas e negras. Hoje, o texto parece bizarro, mas naquela época, tinha Malafaias que defendiam e gente que achava certo.

Os argumentos contra o casamento igualitário vão soar bizarros no futuro.

Falta pouco para que isso aconteça no Brasil. É inevitável, como era inevitável que conquistássemos o direito ao casamento, como era inevitável que as mulheres conquistassem o direito ao voto. Era uma questão de tempo.

Eu sinto muito orgulho de ter acompanhado o Jean Wyllys nessa luta vitoriosa. E sinto, também, uma felicidade enorme, porque tive o privilégio de festejar duas vezes a vitória da igualdade sobre o obscurantismo.

É uma vitória de todos, inclusive daqueles que ainda não se deram conta.

Bruno Bimbi — 34anos, argentino, jornalista, mestre em Letras e doutorando em Estudos da Linguagem na PUC-Rio. Autor do livro "Matrimonio igualitario: intrigas, tensiones y secretos en el camino hacia la ley" (Planeta, 2010), que sai em julho no Brasil sob o título "Casamento igualitário" (Garamond). Assessor do deputado federal Jean Wyllys, coordenou junto ao ativista brasileiro João Junior a campanha pelo casamento civil igualitário no Brasil.


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