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“Ser agredido mudou tudo”, diz uma das vítimas. "Viado tem que morrer, vocês passam doenças", ouviu outro. No Dia Internacional contra a Homofobia, o iGay conversou com gays que sofreram violência por conta de sua sexualidade

“Não parei de viver. Mas todos os dias, quando vou escovar os dentes, vejo a mancha na minha testa e lembro do que aconteceu. Ser agredido mudou tudo”. Essa é a marca que não se apaga da lembrança do estudante de direito André Cardoso Gomes Baliera , 28, desde o dia 2 de dezembro de 2012, quando ele sofreu um ataque homofóbico na avenida Henrique Schaumann, endereço agitado da Zona Oeste de São Paulo.

O estudante André Baliera: 'Ser agredido mudou tudo'
Futura Press
O estudante André Baliera: 'Ser agredido mudou tudo'


Nesta sexta-feira (17), Dia Internacional Contra a Homofobia, fomos investigar os casos de Baliera e outros semelhantes ao dele, para saber como fica a vida de quem sofre um ataque homofóbico. 

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Mesmo sem deixar que as agressões paralisassem sua vida, Baliera admite que, entre outras precauções, não sai mais de casa com a mesma tranquilidade de antes. Mas isso nem é o pior de tudo.

“Ver como isso afetou a minha família foi a parte mais grave. Pelo sofrimento da minha mãe, do meu pai, que era preconceituoso, mas depois foi aceitando”, revela ele. “Tenho irmãos de oito e quatro anos, que não entendiam o que estava acontecendo, mas me viram machucado na TV”.

Em sua memória ainda está registrado o acontecimento que interrompeu o que parecia ser apenas mais uma segunda-feira. Caminhando pela calçada, ele ouviu uma agressão ofensiva  de uma voz vinda de dentro de um carro. Essa situação, tão desagradavelmente comum para os gays de muitas cidades brasileiras, se agravou quando o estudante Bruno Paulossi Portieri desceu do veículo pronto para agredi-lo.

Ver como isso afetou a minha família foi a pior parte. Pelo sofrimento da minha mãe, do meu pai (André Baliera)

Em seguida, o personal trainer Diego Mosca Lorena de Souza , que estava com Bruno no automóvel, virou o carro na contramão, e saiu também para espancar Balieira. “Ele só parou quando a policia chegou e o prendeu em flagrante”, lembra o estudante.

Depois de ser levado ao hospital para tratar os ferimentos, Baliera e mais duas testemunhas fizeram um boletim de ocorrência na 14ª delegacia, no bairro de Pinheiros, denunciando os agressores. “O delegado que registrou o B.O. tratou o caso como tentativa de homicídio. Isso é extremamente relevante, a maioria dos casos de homofobia são lavrados como agressão, que são punidos com penas mais brandas, como pagamento de cesta básica, por exemplo”, explica Paulo Iotti , advogado de Balieira, especializado em casos LGBT. 

Atualmente, o caso do estudante de direito está em andamento em três esferas. No próximo dia 28 de maio, uma audiência determinará se os agressores serão multados de acordo com a lei estadual 10948/01, relativa à prática de discriminação em razão da orientação sexual.

Eles nos xingavam, falando que ‘veado’ tinha que morrer, que a gente passava doença (Marco Villa)

“Obviamente, eu quero que eles sejam punidos nas esferas civil e penal, mas essa lei administrativa vai atingir o bolso dos agressores.O valor pago pela multa será direcionado ao Estado, que usará o dinheiro em questões de direitos humanos. Isso é mais importante para mim do que vê-los presos”, observa Balieira.

Os processos estão neste momento sendo conduzidos pelo Ministério Público. Enquanto isso, Portieri e Souza, que ficaram dois meses presos depois da agressão, aguardam o julgamento em liberdade.

Traumatismo craniano e cadeira de rodas

Marcos Villa , 34 anos, estava com o namorado quando ambos foram espancados num posto de gasolina na região da Avenida Paulista, em setembro de 2011. “Eles nos xingavam, falando que ‘veado’ tinha que morrer, que a gente passava doença”, recorda Villa, sobre os agressores William Cardoso Lima e Daniel Vieira . Como não foram presos em flagrante, os acusados estão em liberdade. Para não viver para sempre perseguido pelas recordações daquela noite, Vila e seu parceiro foram embora do Brasil - hoje moram na Irlanda. "Aqui me sinto gente", desabafa Vila.

Marcos Villa, que mudou de pais após agressão, lamenta ficar longe da família
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Marcos Villa, que mudou de pais após agressão, lamenta ficar longe da família


O parceiro de Villa, que preferiu não se pronunciar, teve que ficar quatro meses em uma cadeira de rodas por conta de um traumatismo craniano provocado pelas agressões. “Na época, larguei meu emprego para cuidar dele. E também porque tiraram sarro de mim quando cheguei para trabalhar e contei que tinha apanhado, conta Vila. Registrado no DECRADI (2ª Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância), o caso foi relatado ao Tribunal de Justiça e o processo corre em segredo. 

“No final das contas, não deu em nada. Comuniquei a delegacia, mas nunca me dão resposta sobre o andamento do processo. Minha relação como Brasil acabou, perdi muita coisa, não vejo minha mãe tem um ano. É triste, mas não consigo mais viver aí.”

Agressões em série

O casal Eros Sester Prado Guimarães , 21, e Thiago Clemente do Amaral , 29, tem sua história dramaticamente marcada por uma série de agressões, tanto físicas quanto verbais. Numa delas, foram ofendidos por policiais quando estavam se beijando num parque do bairro do Tatuapé, em 2012. A acusação é de que eles estariam praticando um “ato libidinoso”.

“Ficamos completamente desmotivados de ir à delegacia, Corregedoria, DECRADI (Delegacia de Polícia de Repreensão aos Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância). Porque seria a palavra de seis policiais contra a nossa”, explica Guimarães. “Quando apanhamos de skinheads no encontro gay do Tatuapé, levamos o caso para o DECRADI e o delegado me dissuadiu de preencher um boletim de ocorrência, falando que não havia muitas provas e que o sujeito da ação não havia sido individualizado", prossegue ele.

O casal Eros e Thiago, relacionamento pontuado por agressões homofobicas
Arquivo pessoal
O casal Eros e Thiago, relacionamento pontuado por agressões homofobicas

Em junho de 2012, eles tentaram fazer um ato de protesto no Tatuapé, mas apenas 30 pessoas apareceram no local. “Parte desse insucesso se deve ao fato de que a manifestação era fora do gueto. O ato competiu com o estigma da violência na Zona Leste, ao contrário da região da Paulista, onde as manifestações encontraram um lugar confortável e protegido para acontecer”, observa Guimarães.

Números de agressões crescendo

Os ataques homofóbicos citados acima não são isolados. Segundo a DECRADI, foi registrada em São Paulo uma média de 163 boletins de ocorrência por ano desde 2010, ano de criação orgão. O número vem crescendo e até abril deste ano já foram computados 57 boletins, um aumento de 10% em relação ao ano anterior.

Maria Berenice Dias , ex-desembargadora e advogada especializada em direitos LGBT, tem uma pista para o aumento de ataques. “Tenho muitos relatos de aumento de casos. Conforme temos avanços exponenciais na causa, como a legalização do casamento, gera ainda mais desconforto nos homofóbicos”, analisa Maria Berenice.

No entanto, a jurista aponta um avanço nessa questão. “Tem se falado muito sobre o tema, a mídia expôs os ataques e as leis estão avançando. Isso dá força para que os agredidos denunciem”, pondera Marica Berenice.

Estamos tendo avanços exponenciais na causa. Isso gera ainda mais desconforto nos homofóbicos (Maria Berenice Dias)

“É preciso de uma lei federal, que não puna as agressões só com multa. Isso não tem natureza penal, apenas afeta no bolso. Se a homofobia for julgada como um crime com qualificação especial, existe um aumento de pena”, aponta a advogada, sobre uma medida que poderia combater mais efetivamente as agressões. “A prova de que é preciso punição para uma maior conscientização foi a instituição da lei antirracismo, que diminuiu bastante os casos de agressão e ofensas”, acrescenta o advogado Paulo Iotti.

Procurada pela reportagem e informada dos relatos de agressão ouvidos pelo iGay , a Polícia Militar de São Paulo informou que adota procedimentos de combate aos atos homofóbicos, dizendo em nota que é uma instituição orientada por princípios de Direitos Humanos.

Veja vídeo que André Cardoso Gomes Baliera gravou após ser agredido




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