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Sem que os pais saibam do seu trabalho, três jovens do Trio Milano brilham na noite paulistana como drag queens. Conheça Penelopy Jean, Tiffany Bradshaw e Amanda Sparks

Depois da geração das estrelas da ‘montação’ Silvetty Montilla e Salete Campari , a noite paulistana andava carente de figuras performáticas de sucesso. Mas três jovens gays prometem acabar com essa ‘seca’ de divas. Eles formam o Trio Milano, composto pelas drag queens e DJs Penelopy Jean, Tiffany Bradshaw e Amanda Sparks .

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“Nosso diferencial, de tocar e performar ao mesmo tempo, aconteceu pelo fato de não conseguirmos tocar uma música deliciosa sem dublar junto, fazer um carão e jogar um cabelo pro lado, é mais forte do que a gente”, resume Tiffany, que durante o dia é estudante de moda paulista de 25 anos

Os dois rapazes que encarnam Amanda e Penelopy durante a noite também têm ocupações bem menos agitadas quando estão à paisana. O primeiro é um ilustrador carioca de 30 anos, filho de militar. O segundo é um designer gráfico mineiro de 25.

Não conseguirmos tocar uma música deliciosa sem dublar junto, fazer um carão e jogar um cabelo pro lado, é mais forte do que a gente (Tiffany Bradshaw)

Como os pais deles não sabem do trabalho como drag queen, os três preferem não revelar os seus nomes de batismo. “Da minha família, apenas uma prima sabe. Eu prefiro não contar, porque o próprio mundo gay não entende direito o que meus pais que foram criados no interior iriam pensar, caso soubessem. Um dia eu irei contar, mas eu prefiro esperar mais um pouquinho até me sentir preparado pra consequências que podem vir junto”, conta Tiffany.

O início do que hoje é uma profissão foi na brincadeira. “Eu comecei de zoeira com alguns amigos na minha cidade, Poços de Caldas (MG). Depois, tomou proporções maiores quando eu vim para São Paulo”, lembra Penelopy.

“Desde que comecei a frequentar baladas GLS, o show das drags sempre me fascinava. Enquanto vários amigos nem queriam saber de vê-las, eu ficava na frente do palco com os olhinhos brilhando”, relata Tiffany, contando como foi o seu 'chamado' para o mundo do salto quinze, do cabelão e das camadas espessas de maquiagem. “Sempre que podia, pegava uma pecinha de roupa de mamãe pra dar um close ao som de Britney (Spears)”, completa. 

A poderosa drag americana Ru Paul é uma grande inspiração para o Trio Milano
Divulgação
A poderosa drag americana Ru Paul é uma grande inspiração para o Trio Milano

Comandado pela icônica performer Ru Paul , o reality show “RuPaul’s Drag Race”, exibido no Brasil pelo canal VH1, é uma inspiração confessa das três. Como o próprio nome sugere, o programa é uma competição que revela a melhor drag queen dos Estados Unidos.

Entre outras referencias do trio, estão a drag brasileira Alexia Twister , a espanhola La Prohibida e personagens do cinema, como a personagem de Jane Fonda no filme “Barbarella” (1968). Games e desenhos animados também entram nesse caldeirão de influências.

Produzir essas personas cheias de glamour não sai barato. “Acho que se juntar tudo o que eu já gastei para ser drag daria pra comprar um carro. São coisas muito caras, principalmente perucas de cabelos naturais e a maquiagem importada”, contabiliza Penelopy. “O investimento inicial é grande, durante um ano e pouco, eu comprei sem parar”, revela Tifanny.

Calcinha ou cueca 

Separar a persona noturna de diva da ‘vida de menino’ é bem fácil, segundo Amanda. “Se eu estiver de cueca eu sou ele, se estiver de calcinha - ou sem - eu sou a Amanda”, brinca ela. “Não tem como não separar uma coisa da outra. De dia, eu estudo, faço coisas cotidianas, tenho uma vida comum. A drag aparece apenas quando é chamada”, explica Tiffany.

Se eu estiver de cueca eu sou ele, se estiver de calcinha - ou sem - eu sou a Amanda

O desejo de viver o feminino não é que os motiva a ser drag, como muita gente pode pensar. “Um homem que trabalha como drag queen, na maioria das vezes não quer ser mulher, ele quer vivenciar aquele momento de glamour apenas”, analisa Tiffany.

“Mas tem muita gay que se monta porque na verdade quer virar travesti, ou então porque é feia e não consegue pegar boy na boate. Principalmente aqui no Brasil, onde eu vejo muito essa cultura”, provoca Penelopy.

Essa mistura de gêneros acaba interferindo nos relacionamentos amorosos dos três. “Não sei se as pessoas ficam comigo por eu ser drag ou se não ficam comigo por eu ser drag. No final das contas, eu acabo fazendo mais sucesso como Amanda do que como eu mesmo”, revela a drag. Esse lado drag deles muitas vezes afugenta possíveis pretendentes.

“Tem muita gente que não aceita isso, não quer pegar alguém que se monta, por conta do lado feminino envolvido na montação. Mas as pessoas precisam saber separar as coisas”, defende Tiffany.

Nada de tocar no rosto

A relação com o público é celebrada pelas três. “As mulheres nos elogiam muito, a maquiagem, a roupa. Dizem que somos perfeitas. Na verdade, nós nos inspiramos nas mulheres mais fortes, mais lindas e mais divas que existem e acabamos servindo de inspiração para elas também”, pontua Penelopy.

Mas para essa relação com o público não azedar é preciso seguir uma regra básica de convivência. “Nunca toquem nossos rostos”, decreta Amanda, deixando claro o que faz qualquer drag perder a linha.

Mas tem muita gay que se monta porque na verdade quer virar travesti, ou então porque é feia e não consegue pegar boy na boate (Penelopy Jean)

Elas creditam seu sucesso a uma reinvenção do papel da drag. “Nós somos uma nova geração, que vai além. Temos referência, sabemos performar, tocar, ser bonitas, simpáticas e tudo isso com humor”, elenca Penelopy, acrescentando ainda que o fato delas atuarem com DJs é outro diferencial importante.

“De drag me sinto poderosa, glamurosa, gata” , conclui Tiffany, resumindo o pensamento das três sobre o que é ser uma diva da ‘montação’.

Para saber mais sobre apresentações acompanhe o perfil do Trio Milano no Facebook .  

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