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Rejeitados em igrejas evangélicas tradicionais, gays criam própria congregação religiosa e tentam atrair novos fiéis

“Sempre fui cristão. Mas a partir do momento em que a sua orientação sexual é descoberta, você é excluído”, é assim que o enfermeiro Silvio Souza , 28 anos, resume a trajetória dos gays que frequentam as igrejas evangélicas tradicionais, mesmo não sendo bem-vindos em algumas delas.

Desejando manter a sua fé e não querendo mais passar por esse tipo de rejeição, o casal Fábio Inácio de Souza , 33, e Marcos Gladstone , 37, decidiu criar a sua própria congregação evangélica, a Igreja Cristã Contemporânea, há sete anos, no Rio de Janeiro. “A religião veio da fé, da minha necessidade de estar numa igreja, meu sonho era ser pastor”, explica Gladstone, religioso desde os 14 anos.

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Atualmente, a Cristã Contemporânea conta com nove sedes, nos estados do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, com mais de 1.800 membros, sendo 90% deles gays. No último sábado (27), o casal de pastores inaugurou a primeira unidade na cidade de São Paulo da igreja, no bairro  do Tatuapé.

Neste dia, gays como Silvio experimentaram a sensação de estar numa igreja sem medo de ser rejeitados por causa de sua orientação sexual.

A pedagoga Simone Queiroz Peixoto , 46, e a secretária Aline Peixoto , 36, estavam entre essas pessoas. Evangélicas de longa data, as duas parceiras também passaram pelo trauma de serem excluídas por conta de sua sexualidade.

“Foi durante o culto mesmo, o pastor falou para nós que não podíamos participar”, relata Simone, relembrando a exclusão que ela e Aline sofreram quando os fiéis de uma igreja evangélica descobriram que as duas formavam um casal.

A situação, obviamente constrangedora, fez o casal ficar 12 anos afastado da religião. Mas tudo mudou quando elas ouviram falar da Cristã Contemporânea num programa de rádio, no Rio. “É esse o lugar que Jesus preparou para mim”, conta Simone, recordando o que pensou naquele momento.

Mãe de Aline, a costureira faccionista  Vilma Pereira de Oliveira , 64, também estava na inauguração da unidade paulistana da igreja. “Ela ia às festinhas, bebia, agora não. Ela está diferente. É uma pessoa diferente, mais amiga. O comportamento dela mudou 100% assim que ela voltou para Jesus”, comemora Vilma, descrevendo a mudança no comportamento da filha, que frequenta a unidade carioca da Cristã Contemporânea.

A partir do momento em que a sua orientação sexual é descoberta, você é excluído (Silvio Souza)

Diferentemente da história de Vilma e Aline, a mãe de Anderson Cosmo ,33, ainda não aceitou a homossexualidade do filho. Nascido numa família católica, ele decidiu se converter a igreja evangélica LGBT do Tatuapé. “Estou num lugar que posso adorar a Deus e chegar com meu companheiro sem problema”, afirma o farmacêutico, que está noivo.

“Nós estamos aqui porque encontramos Deus aqui dentro. Fidelidade, dízimo, oferta, é tudo igualzinho. Não existe diferença. As pregações não tem nenhuma relação com a bandeira do arco-íris”, explica Cosmo, um dos fiéis mais entusiasmados durante o culto inaugural da Comunidade Cristã.

“Nós estamos aqui porque encontramos Deus aqui dentro. Fidelidade, dízimo, oferta, é tudo igualzinho. Não existe diferença. As pregações não tem nenhuma relação com a bandeira do arco-íris” (Anderson Cosmo)

“A gente sai à noite, vamos à porta de boate, de sauna, distribuir panfletos e dizer: ‘Jesus te ama’”, revela Cosmo, que diz não se abater quando sua pregação é rejeitada nestes lugares.

A julgar pelo lotação completa da igreja no dia da inauguração, as pregações noturnas têm obtido resultado. De acordo com os organizadores, 540 pessoas compareceram ao culto.

O assistente de auditoria Taiguara Nascimento , 26, resume a sensação dele e das outras pessoas presentes na igreja naquele sábado. “Aqui, você consegue ser quem é sem máscaras”.

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