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Walério Araújo completa 43 anos. Estilista de Ana Maria Braga, Sabrina Santo e Maria Rita, ele fala em entrevista como era ser gay no interior do Nordeste, dos primeiros anos difíceis em São Paulo e de seus amores

Parece até que ele é candidato a prefeito ou mesmo a muso do Copan, o famoso edifício em forma de onda no centro de São Paulo, que leva a assinatura de Oscar Niemeyer . Nas três horas em passou ao lado da reportagem do iGay , o estilista Walério Araújo foi abordado constantemente pelos vizinhos, visitantes e funcionários do prédio onde mora há 17 anos e trabalha há sete.

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“O que a menina vai aprontar hoje?”, brinca um funcionário, quando vê Walério passar com um manequim nas mãos. O estilista não se abala com a provocação, dá uma bela gargalhada e explica que vai posar para o ensaio que ilustra está reportagem.

“Antes isso aqui era um lixão. Comecei a atrair muita mídia, ajudei na revalorização dos imóveis”, conta sem modéstia o estilista, que tem a loja da sua grife de roupas no Copan. “Mudei para cá numa quitinete porque era mais barato. Hoje é caro, e bem difícil de arrumar um apartamento aqui. Fui me apaixonando, me acostumando, e ficando, pois aqui tem tudo. Tem restaurantes, podólogo, pizzaria, e é perto da Rua 25 de Março, que é o meu comércio, onde eu compro a maioria da minha matéria prima”, completa Walério, que mora atualmente num apartamento bem maior que o primeiro.

Walério apaga velinhas e completa 43 aniversários nesta sexta-feira (12). Na entrevista que você lê a seguir, o estilista fala dos momentos importantes que viveu nessas mais de quatro décadas de vida.

Momentos como a infância de um jovem gay no interior de Pernambuco e os difíceis primeiros anos em São Paulo, quando pegava um ônibus lotadíssimo, saindo de casa às 5h da manhã, no longínquo bairro Grajaú, extremo sul da cidade.

Ele fala também das travestis - suas amigas desde sempre -, e seus amores, como um namorado crossdresser, que ele flagrou usando sua roupas.

iG: Você nasceu em 1970, no interior do Pernambuco, em Lajedo? Era difícil ser gay numa cidade do interior?
Walério Araújo: Mais ou menos. Minha mãe teve 16 filhos, se criaram nove: cinco homens e quatro mulheres. Mas eu acho que eu consegui fazer eles se reeducarem, muito pela minha questão profissional. Dos homens, eu sempre fui excêntrico. Aliás, eu era muito mais excêntrico. Hoje eu uso salto, que muitas vezes nem aparece, e só uso preto. Tinha época em que pintava o cabelo e usava roupa de todas as cores. Anos 90, ombreiras, cores flúor, tudo isso eu usei. A forma de reeducar eles foi porque eu ganhava meu dinheiro. Meu pai chegava em casa e se deparava comigo desenhando para a high society, que era a doutora, a primeira-dama, a dona das escolas particulares. Então não tinha como ele reclamar.

Walério Araújo:
André Giorgi
Walério Araújo: "Nunca me preocupei com meu salto alto, meus cabelos coloridos e meu moicano"

iG: Mas você chegou a sofrer algum tipo de preconceito?
Walério: Não tinha preconceito só porque eu desenhava florzinha ou roupinha. “Ah, ele vai ser gay.” Não existia isso. Já comprava as minhas coisas, já ganhava meu dinheiro, que não era muito, mas que para o custo de vida de lá, era ótimo. Tinha uns namoradinhos, às vezes platônicos. Meus amigos heteros eram meus melhores amigos, e eles dormiam lá em casa. Essa mesma cliente que eu atendia era mãe do meu amigo, e eu frequentava a casa deles. Eu tinha um namoradinho que era amigo dos meus irmãos. Como meus irmãos tinham liberdade de levar para casa uma namorada depois de um rodeio ou de uma vaquejada, por que eu não podia levar o meu depois da balada?

iG: Eles deixavam você levar seus namorados para casa numa boa?
Walério : Eu levava sim um namoradinho para dormir em casa, era uma forma de eu ter meu espaço, mas não precisava ser explícito, e eu não era flagrado beijando. Mas ficava claro para os meus irmãos, e eu nunca os desrespeitei. Eu sabia que era difícil para uma família nordestina, e se isso acontecesse seria muito forte. Sempre me assumi, mas não vejo a necessidade de rotular, e não foi preciso falar: ‘Sou gay’. Também eles nunca me perguntaram (risos).

Eu levava sim um namoradinho para dormir em casa, era uma forma de eu ter meu espaço, mas não precisava ser explícito, e eu não era flagrado beijando

iG: Você chegou a dizer que era gay ou eles perceberam sozinhos?
Walério: Pelo visual, pela profissão e pelo comportamento. Já ficava claro, eles não eram bobos. Mas eu nunca deixei acontecer nada que os chocasse. Eu nunca assumi diretamente. Meu pai, mesmo depois que eu saí de casa, e já estava em São Paulo, isso vinte anos atrás, me perguntava: ‘E aí, não namora ninguém?’. Não sei se era um jeito inocente, ou uma forma de ele ter certeza. Eu falava: ‘Não, namorar pra quê? Só dá trabalho’. Respondia assim, e não tenho frustração nenhuma de não ter contado para ele antes de ele morrer. Acho que quando ele morreu, a gente estava super de bem. Minha mãe é muito puxa-saco, que lá se chama cuviteira, sempre me pergunta quando eu vou lá: ‘E ele? E o rapaz vai vir?’. E quando eu vou, o quarto está arrumado, a cama de casal feita. E meus amigos não acreditam, pois eles vêm de onde eu vim: de uma cidade bem pacata com 50 mil habitantes.

Vim para São Paulo em 1988 de excursão e fiquei. Pegava um ônibus lotadíssimo, saia de casa às 5h da manhã, do Grajaú, e atravessava a cidade até o Bom Retiro

iG: Como foi a sua chegada a cidade grande? Foi difícil?
Walério: Vim para São Paulo em 1988 de excursão e fiquei. Pegava um ônibus lotadíssimo, saia de casa às 5h da manhã, do Grajaú, e atravessava a cidade até o Bom Retiro. Lá trabalhava meio período, e depois ia para uma loja de decoração de festa em Santo Amaro. Já estava sempre tudo muito ligado à moda: desenho, vitrine, etc. Depois voltei para Pernambuco, e até então não conhecia tecido. Trabalhei um ano em Paulo Afonso, no interior da Bahia, e depois comecei a trabalhar em uma loja mais sofisticada em Salvador. Fiquei mais um ano lá, e voltei de novo para casa. Tinha saudade da família, dos amigos, eu tinha essa coisa do interior, onde todo mundo se conhece.

iG: O que fez você se estabelecer definitivamente em São Paulo? Quando foi isso?
Walério: Em 1992, e desta vez foi uma mudança radical. Não sabia muito ao certo o que eu queria, então voltei a trabalhar com decoração de festas infantis, eu era vitrinista. Foi quando eu encontrei na boate um amigo que trabalhou comigo em Salvador. Ele perguntou o que eu estava fazendo, e como gostava do meu trabalho, disse que me conseguiria um trabalho como estilista. Aí fui trabalhar na chamada Rua das Noivas, a Rua São Caetano. Fiquei três meses e cheguei a pensar a voltar, pois tinha muita dificuldade de moradia. Morava na loja e depois das 20h a região da Luz (região central) ficava um deserto.

iG: A sua carreira começou a deslanchar nesse momento?
Walério: Foi lá que tudo começou a vingar. Passei a ter clientes mais sofisticadas, tinha liberdade para fazer a roupa. Mas eu, como bom ariano, queria mais. Daí eu saí da 25 e fui para o Mercado Mundo Mix (feira de moda dos anos 90). Na época eu já conhecia a Elke Maravilha, dos concursos de drag queen, em que ela era jurada. Através dela eu conheci muita gente, artistas. Porque em todos os programas que ela era entrevistada, ela falava de mim. Aí comecei a fazer os biquínis de Joana Prado, fiz Sandy, Ana Maria Braga. Todo domingo a Elke usava uma roupa minha no show de calouros.

André Giorgi
"Conheci travestis de todos os níveis: social, profissional, social. As travestis educadas, ignorantes, femininas, as masculinas, as chiques, pobres, bem vestidas, mal vestidas"

iG: Foi aí que você foi começou a consolidar o seu estilo, criar a sua marca?
Walério: Quando fui para o Mundo Mix, parti para o comercial: criava camisetas, corseletes e camisas. Meus amigos vizinhos de stand eram o Alexandre Herchcovitch, Mário Queiroz, João Pimenta. As roupas para travesti eu não fiz por pretensão, fiz por necessidade pessoal, profissional e financeira. Afinal, eu dividia apartamento com elas. Elas foram gostando da roupa, indicando para outras travestis. Aí a minha roupa foi ficando extravagante. Eu já gostava de travesti, e quando apareceu esse público, não tive como parar mais. Esse diferencial foi me trazendo outros artistas, como Claudia Leitte, Sabrina Sato, Fafá de Belém, Maria Rita, Gaby Amarantos, Preta Gil, Ana Cañas. É bem eclética a minha clientela.

iG: Então nessa época que você começou sua longa relação de amizade com as travestis?
Walério: As minhas melhores amigas até hoje são travas, moram na Europa estão super bem estruturadas financeiramente. Elas vêm passear uma ou duas vezes por ano aqui, elas têm casa aqui. Conheci travestis de todos os níveis: social e profissional. As travestis educadas, ignorantes, femininas, as masculinas, as chiques, pobres, bem vestidas, mal vestidas.

iG: Hoje, qual é o conceito que define a marca Walério Araújo?
Walério: A minha clientela é muito eclética. Faço noivas, madrinhas, debutantes, e faço as drags até hoje. Não faço qualquer coisa, hoje posso escolher e sempre opto por algo especial. As minhas costureiras são as mesmas da época da 25 de Março. Tenho uma especializada em couro, outra em elastano, e outra de tecidos planos. Tenho uma visão meio rock’n’roll, uma personalidade visual, meio agressiva. Sempre que alguém quer uma coisa fetiche, sado, ela vem aqui. Tenho essa coisa do ousado, do sexy.

(Namorados) Uns eram horríveis, até psicopatas, que me davam perdido na balada, me traiam na própria festa, junto comigo

iG: Ficar famoso ajudou na vida amorosa?
Walério: Meu primeiro namorado eu tive aqui. No interior a gente falava ‘ meu amigo’. Quando eu já estava dois anos morando em São Paulo, conheci um rapaz, com quem fiquei oito anos. Era tudo muito novo para ele, que teve uma criação hetero total. Era office boy, esqueitista. Era deslumbrado com os universos gay e crossdresser. Descobri depois de quatro anos de namoro que ele era crossdresser. Para mim não fez mal, não fez diferença. Ele tinha um fetiche de me ver de salto alto, ele ficava excitadíssimo. Ele fazia escondido, usava as minhas coisas, mas depois eu entendi, e não me fez mal. Depois dele tive mais oito namorados. Uns eram horríveis, até psicopatas, que me davam perdido na balada, me traiam na própria festa, junto comigo.

iG: Qual o seu status de relacionamento hoje?
Walério: Faz oito meses que estou namorando, mas foi muito intenso. Eu o conheci na boate, trouxe para casa, e ele nunca mais foi embora.

Quando me convidam para programas ou bate-papos sobre o assunto, acho demodê falar de homossexual e religião, não levanto bandeira

iG: Você tem vontade de se casar e ter filhos?
Walério: Hoje essa pergunta é complicada. Casaria com esse namorado que fiquei oito anos e com outros três que namorei no passado. Um era um príncipe, mas surgiu uma oportunidade fora do país e ele se mudou. Mas agora estou mais maduro, mais esperto. Não é que eu esteja endurecido, nunca! E assexuado jamais! Eu nunca me fechei, mesmo tendo ficado com uns loucos. Mas casar vai muito da cumplicidade, tenho que sentir firmeza. Filhos? Não sei, pois tenho muitos sobrinhos. Então não sinto uma carência, nem ausência. Tenho 35 sobrinhos e quatro afilhados.

iG: Qual a sua relação com o movimento LGBT e a luta por mais direitos para a comunidade?
Walério: É muito legal essa reivindicação, sempre fui a favor do compromisso entre um casal. Poder dizer: ‘o meu namorado’, ‘o meu marido’. Antes era: ‘uma passagem para mim e outra para o meu amigo’. Foi importante essa liberalização no sentido de expor o relacionamento. Até porque está mais do que provado que o gay é consumidor, formador de opinião, intelectual. Tem muita hipocrisia ainda, mas o espaço do gay tem crescido muito, e tem que crescer mais. Quando me convidam para programas ou bate-papos sobre o assunto, acho ‘demodê’ (fora de moda) falar de homossexual e religião, não levanto bandeira. Tem que provar, aí vira barraco, eu não gosto. Acho que porque nunca me preocupei com meu salto alto, meus cabelos coloridos e meu moicano.

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