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Aos 63 anos, ele é pai, avô e escolheu ser chamado de João, apesar de ter nascido mulher. Conheça João W. Nery, o primeiro transexual “H” operado no Brasil

João W. Nery está com 63 anos, mas a voz, levemente rouca, ainda fica embargada ao falar da barra mais difícil da vida dele – dos 12 aos 21 anos. Nestes tempos, Joana era a identidade imposta e conhecida por todos. Naquele ser humano, no entanto, não moravam as angústias prosaicas das meninas e meninos da mesma idade. Enquanto os colegas reclamavam da baixa estatura ou da ausência de músculos, o corpo de João despertava para viver, 24 horas por dia, a incoerência entre aquilo que ele acreditava ser e o reflexo que o espelho mostrava.

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João W Nery o primeiro trans homem a ser operado no Brasil
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João W Nery o primeiro trans homem a ser operado no Brasil

“Nos anos 60, ninguém sabia ou falava em transexualidade. Reconheço-me homem desde os 4 anos, mas na adolescência a incoerência que eu vivia era brutal”, relembra.

“Eu dormia e sonhava acordar um garoto completo. Meu ídolo era o Pinóquio, que também desejava ser um menino de carne e osso. Então abria os olhos e nada tinha mudado. Acho que só me mantive vivo porque defini como objetivo buscar uma resposta sobre o que acontecia comigo”.

O que ocorria e ocorre com João hoje é chamado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de transtorno de gênero ou transexualidade.

É uma condição estudada por médicos, sociólogos, antropólogos, sexólogos do mundo todo.

Muitas dúvidas ainda pairam na coleção de estudos realizados sobre o tema, mas na época da adolescência de Joana/João, não havia nem literatura nem interessados em elucidar o que significava e o que implicava ser transexual.

Cirurgia para tirar seios, útero e ovários

João investigou quase tudo sozinho. Em 1977, após conhecer uma equipe médica que engatinhava em pesquisas sobre transexuais, ele decidiu deitar na maca, tirar os seios, o útero e os ovários. A cirurgia – que chegou ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2008 e hoje contempla dois pacientes por dia – era chamada de mutilação e completamente proibida naqueles tempos.

Meu ídolo era o Pinóquio, que também desejava ser um menino de carne e osso. Então abria os olhos e nada tinha mudado

Mesmo assim João decidiu encarar. Entrou para os anuários do País como provável primeiro transexual homem a ser operado no Brasil (aqueles que nascem mulher e se identificam com o gênero masculino. O inverso também existe e é mais comum). Cirurgia feita, João pôde respirar com mais conforto e executar planos simples, como ir à praia sem camisa.

João escolheu
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João escolheu "João" por ser o nome mais comum que existe

Ele escreveu a experiência no livro ‘Viagem Solitária’, recém lançado e o primeiro em que mostra o rosto (e o corpo) sem receio. Apesar de ter feito a cirurgia para a retirada das mamas e do aparelho reprodutor feminino, João não foi submetido à construção de um órgão sexual masculino. No mundo, esta cirurgia já é feita, mas no Brasil ainda é considerada experimental.

João até já quis um “peru para chamar de seu”. Desistiu da ideia e adverte: “não é o pênis que te faz sentir masculino”. “Dizer que você é homem, homossexual ou transexual não quer dizer absolutamente nada”, acredita.

Tranquilo com a chegada do que chama de “sabedoria sexagenária”, João é feliz, ativo, pai e avô. Porém, ainda carrega em um resquício da dolorida incoerência que remonta aos tempos adolescente. Ele estudou, fez faculdade, pós-graduação e lecionou em três universidades. Mas, oficialmente, é considerado analfabeto.

O “analfabetismo oficial” é resultante da história clandestina iniciada aos 27 anos. Até ser operado, em 1977, João estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro, se formou em Psicologia, abriu consultório e deu aula em universidades, vestido de homem, sentindo-se homem, namorando com mulheres que o enxergavam como homem, mas com documento de identidade que estampava nome e gênero feminino.

Cabelos no peito, rouquidão na voz

Após fazer as cirurgias, começou a tomar hormônios, ganhou barba, cabelos no peito, rouquidão na voz. Por conta própria, escolheu ser João, o nome masculino “mais comum e universal que existe”. Sem respaldo judicial, tirou documentos com a identidade que fez para si. A decisão configurava crime de dupla identidade. Por isso, ele foi viver na clandestinidade, se escondeu do mundo e só dava entrevistas em condição de anonimato.

Só consegui me relacionar com mulheres que me enxergavam como homem e não com aquelas que queriam relacionamentos lésbicos

“Perdi, com isso, todo o meu histórico acadêmico e experiência profissional. Para sobreviver, fazia bicos e passei a trabalhar como pedreiro, motorista, vendedor. Fiz de um tudo”, lembra João.

Só quando teve certeza de que revelar a própria história não o levaria à prisão – o crime, caso assim fosse entendido, já estaria prescrito, acredita ele – João decidiu sair para o mundo. Deu um pontapé no armário e a cara à tapa, mas não conseguiu reaver o currículo.

“Aos olhos do mundo e das instituições, permaneço como um analfabeto que nunca frequentou uma sala de aula.”

Ele conta a sua trajetória no livro
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Ele conta a sua trajetória no livro "Viagem Solitária"

Paternidade feminina

No “fiz de um tudo” citado por João, também está a constituição de uma família, em pleno período “subversivo”. Ele já foi casado quatro vezes. “Sempre só consegui me relacionar com mulheres que me enxergavam como homem e não com aquelas que queriam relacionamentos lésbicos. Com a terceira mulher que me casei, tive um filho. Há 25 anos”, conta.

A experiência da paternidade legitimou algo de que João já estava convencido. “Nunca parei de estudar a sexualidade e entendi que esta questão de dois gêneros exclusivos, ou feminino ou masculino, foi criada e imposta pela sociedade. Eu sou exemplo. A minha mulher engravidou de outro homem quando estávamos casados. Eu assumi aquele filho e superei o chifre de uma forma transcendental, o que é uma atitude feminina”, acredita.

“Sou um homem feminista, me permito o que muitos homens heteros não aceitam.”, explica João com a autoridade de quem criou um filho engenheiro que é o oposto do machismo. "[Ele] não consegue ser galinha, adora discutir a relação, bater perna no shopping, usar camisa rosa e é heterossexual”, conta.

Da experiência como pai – “a melhor da minha vida” – João agora divide o êxtase com o papel de ser avô. Segue estudando sexologia, as questões de gênero, escrevendo livros e artigos, trabalhando em uma comissão do Rio de Janeiro e lutando para resgatar o currículo oficial.

Aos finais de semana, fica em casa com a família. No último sábado, com todos os parentes no encalço, comemorou os 70 anos de casados dos pais.

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