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Já no seu primeiro curta, "Ontem", ela conta história baseada em sua adolescência: uma garota foge de casa para passar a noite com a namorada

Desde criança, enquanto o pai filmava reuniões familiares, Patricia mostrava curiosidade pelas câmeras. Seus primeiros passos na vida profissional, no entanto, foram em cima do palco. Chegou a se formar na Escola Wolf Maya de Atores em 2007, mas algo não a satisfazia no ofício de atriz. “Uma hora percebi que minha identificação com o cinema tinha muito mais a ver com a câmera que eu pegava nas festinhas de família do que com a atuação.”

Já no teatro, a vontade de Patricia era se envolver na direção, mas ela logo compreendeu que era com a linguagem cinematográfica que ela queria se expressar. Aos 19 anos, entrou para a Academia Internacional de Cinema (AIC), em São Paulo, onde concluiu o curso de Técnico em Direção Cinematográfica em 2011. Em 2012, se formou também em Rádio e TV na Faculdade Casper Líbero.

Sobre "Ontem": "Esqueci que meus pais também iam assitir ao filme"

A cineasta reconheceu a sua homossexualidade aos 15 anos, e seu curta-metragem de estreia foi inspirado na própria adolescência. Em “Ontem”, primeiro trabalho como roteirista, editora e diretora, conta um episódio na vida de Helena, uma menina que foge de casa para viver uma história de amor - com duração de uma noite - com outra garota.

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O filme era realmente pessoal e conquistou quatro prêmios no Filmworks Festival, promovido pela AIC: Melhor Atriz para Gabriela Vergani, Júri Popular, Melhor Diretor para Patricia Galucci e Melhor Filme. “Escrever ‘Ontem’ foi instintivo, uma forma de colocar aquilo que era meu para fora”, conta Patricia. “Mas eu não tinha refletido sobre isso por completo: os meus pais também iriam assistir ao filme”.

Escrever ´Ontem´ foi instintivo, uma forma de colocar aquilo que era meu para fora. Esqueci que meus pais também iam assitir ao filme.

Segundo ela conta, ser aceita pelos pais como uma garota homossexual não foi fácil – mas com o tempo eles perceberam que era algo que deveria ser respeitado. Mesmo assim, eles questionaram a necessidade de expor sua sexualidade ao mundo. Assim que a mãe soube que “Ontem” era sobre duas mulheres, indagou: “Mas precisa mostrar isso para todo mundo, filha?” Precisava.

Para Patricia, seu primeiro curta-metragem, de baixíssimo orçamento, pode não ser perfeito, mas é verdadeiro. Com os prêmios e a anuência da mãe, as portas para a arte se abriram um pouco mais. “Minha mãe ainda se surpreende, mas não fica mais cheia de barreiras”.

Maria João Filmes

“Ontem” foi filmado em 2010 com a colaboração de Victor Nascimento, amigo e cineasta. Com a criação de outros dois curtas em que ambos se auxiliam e intercalam papéis, “Menos Sós”, projeto de Victor, e “Irene”, filme em que assinam juntos a direção e o roteiro, a dupla decidiu iniciar uma sociedade despretensiosa, já que precisavam registrar os primeiros filmes para inscrevê-los em festivais. Assim, em 2011, surgiu a Maria João Filmes . “Eu brinco que sou o João e o Victor é a Maria: a cabeça dele é mais feminina e a minha é mais masculina”. O logotipo da empresa representa uma flor e um moço de bigode – que são vistos da mesma maneira se a imagem estiver de ponta cabeça.

Eu brinco que sou o João e o Victor (sócio) é a Maria: a cabeça dele é mais feminina e a minha mais masculina.

Com a Maria João surgiu a possibilidade de produzir vídeos institucionais e campanhas publicitárias, e explorar mercados geralmente mais rentáveis. Enquanto isso, o polêmico “Irene” já caía na boca do povo com elogios e discussões: “Não imaginávamos que fosse fazer tanto sucesso, só havíamos sentido a necessidade de contar esta história”.

Irene: dramas e desejos da terceira idade

Irene é uma senhora que vive reclusa e, ao receber a visita da neta e uma amiga, tem a memória e os sentimentos reavivados – inclusive a sexualidade. Com a atriz Iná de Carvalho e toda a equipe de filmagem, a produção ganhou mais de dez prêmios nacionais e internacionais, como o de Melhor Filme do Barcelona G&L Film Festival 2012 e o de Melhor Diretor Estreante do Entretodos – Festival de Curtas de Direitos Humanos.

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Patricia acredita que o sucesso do filme surgiu pelo ineditismo: não é comum ver um filme sobre a terceira idade, possíveis dramas e desejos. “Nunca pensamos em fazer filmes gays e militantes, nosso objetivo sempre foi dizer a verdade”, comenta ela.

Cinema em construção

Com a observação do meio social homossexual, a experiência dentro dele, com seus rompimentos e vínculos, e as projeções do próprio futuro, Patricia considera que seria improvável seus filmes tomarem outro rumo. Porém, coloca claramente que, quando concebeu o roteiro de “Ontem” e de “Irene”, não pensou, ao lado de Victor, que queria fazer um filme sobre “duas meninas gays” ou sobre “uma senhora que redescobre a sexualidade”.

“A gente gosta de falar sobre amor, solidão, sentimentos universais”, comenta. Afinal, não há a necessidade de definir um filme como “gay” ou “lésbico” desde o início: um filme pode ser unicamente uma história de amor, mas que acaba sendo também homossexual. “O plano de classificação fica para o final”, conta.

Para ela, o mais importante na hora de começar um roteiro é o envolvimento com a história. “Irene, por exemplo, é como eu posso ser no futuro, como a solidão pode vir para mim no futuro”, diz. E nessa vontade de descobrir e redescobrir o que faz parte do próprio universo, Patricia vai se construindo como cineasta: longe de estereótipos.

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