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Claudia Guimarães é um nome conhecido do mundo da moda e do underground paulistano, que ela retratou além da pose em coluna que abriu uma janela para a noite nos anos 90

Ela fotografou a noite, seus personagens e todo um universo underground que não só virou moda, mas também revelou uma outra cara de São Paulo, no começo dos anos 90.

Gays, travestis, drag queens, transexuais, modelos, estilistas, famosos e simpatizantes, ninguém escapou das lentes de Claudia Guimarães , a fotógrafa que hoje é referência quando o assunto é bas-fond.

Ex-assistente da veterana Vania Toledo , a dama dos retratos, Claudia criou asas no jornal "Folha De S. Paulo", quando foi convidada a fotografar personagens para a então recém-criada coluna “Noite Ilustrada”, de Erika Palomino , em 1992. “Erika queria um olhar novo sobre a noite, sobre a cena gay, mas não queria fazer mais uma coluna social. O jornal buscava alguém que topasse o trabalho, já que não havia interesse por parte de nenhum dos fotógrafos da casa.”

A fotógrafa Claudia Guimarães, em auto-retrato
Claudia Guimarães
A fotógrafa Claudia Guimarães, em auto-retrato

Vendedora na loja do estilista Reinaldo Lourenço, nos Jardins, Claudia frequentava o curso de fotografia do artista gráfico Eduardo Brandão, que na época era editor de fotografia da “Revista da Folha”: “Ele pedia para que cada um fotografasse o seu ambiente. Como não tinha tempo, eu saía para fotografar à noite.”

A primeira festa foi a famosa Enterro dos Ossos, que acontecia na extinta boate Gent’s. ''O mais divertido da festa rolava na rua. As drags se montavam, ficavam do lado de fora conversando e gargalhando, tinha música, DJs”.

A alegria de um universo peculiar

Muitas festas vieram. Claudia usou a sua experiência para revelar de forma natural o universo gay. “Eu era muito tímida, e fotografar foi uma maneira de me entrosar com as pessoas.”

Os dois anos que ficou na coluna marcaram uma época. Claudia havia criado um jeito novo de fotografar esse universo undergound, de forma mais real e mais contundente. Suas fotos eram expressivas e profundas, poéticas e divertidas. Iam além da pose: “As pessoas se abriam para mim e eu conseguia pinçar algo profundamente íntimo, mesmo de quem eu não conhecia. A intenção não era degradar as pessoas, ao contrário, era mostrar a alegria desse universo. Quando você está inserida nesse contexto, existe um respeito. Aquela pessoa não é simplesmente um personagem. Você capta sua intimidade. É outra visão, um olhar muito próximo.”

Fotografar o lado B da noite tinha seu glamour. "Não queria fazer fotos políticas no estilo da Nan Golding (conhecida por retratar o mesmo universo com crueza, sem apuro técnico, como uma crônica de costumes). Minhas fotos tentavam mostrar a alegria por trás de cada uma dessas pessoas, que eram muito estigmatizadas.”

Em todos os anos que fotografou travestis e transexuais, Claudia não encontrou ninguém que não quisesse ser fotografado. "O que me encanta na hora de fotografar travestis e transexuais é que eles têm uma feminilidade mais feroz. Eles têm tudo para soar falsos, mas não são. São simplesmente homens que têm uma feminilidade exagerada, coisa que nenhuma mulher tem. Você tem que ser solidária. É isso que faz a diferença toda na hora fotografar travestis e mulheres", explica.

Da noite para a moda

Não demorou muito e Claudia foi fisgada pela moda. Um dos seus primeiros editoriais, para a revista Vogue, mostrava duas modelos, Beth Prado e Virgina Punko, vivendo as aventuras de duas mulheres na noite.

"A intenção era retratar duas mulheres independentes e não falar sobre mulheres gays, o que podia ser sugestivo ou não", conta.

Para ela, existe uma diferença no jeito que homens e mulheres fotografam: “Uma mulher fotografando a sensualidade de outra mulher é mais sutil. O olhar é ao mesmo tempo mais sexy e delicado”.

No mundo da moda e do universo feminino, as fotos de Claudia exalam frescor e um tipo diferente de sensualidade. O que ela tenta captar não é o elemento sexual, mas uma intenção. "Uma mulher nem sempre está a fim de sexo quando sai à noite. Ela vai para casa satisfeita com um beijo, pode ter fantasias apenas por ser olhada. O dom do fotógrafo é saber captar essa sutileza. O resultado não fica escancarado, fica lá atrás, quase imperceptível.”

Uma mulher nem sempre está a fim de sexo quando sai à noite. Ela vai para casa satisfeita com um beijo, pode ter fantasias apenas por ser olhada. O dom do fotógrafo é captar essa sutileza.

Em um universo tão íntimo, ela afirma que o profissionalismo é essencial: "Dentro do estúdio, não tem clima, não tem jogo. Tento deixar as modelos à vontade, criar um ambiente descontraído e capturar uma certa sensualidade não tão óbvia, que vem do olhar de quem vê e não do fato da modelo estar pelada”.

Fugindo do óbvio, Claudia consegue mostrar o que não se vê. E para que isso aconteça, basta um olhar para que as duas partes se entendam e se revelem.

Cada vez menos noturna

Claudia ainda sai com a sua Leica para fotografar os personagens da noite, unicamente para seus projetos pessoais. Conta que sai cada vez menos: "Acho que a noite deu o que tinha que dar".

Sua última empreitada, atuando como DJ, foram as festas Batom, no Clube Gloria, com noites dedicada às meninas, tocando ao lado de Geanine Marques e de Vanessa Monteiro. "Depois de três anos, cada uma resolveu seguir em frente e tocar projetos pessoais. Eu fui para a publicidade". É dela a campanha da operadora Oi com o jogador Ronaldinho.

Recentemente, se empolgou em fazer filmes publicitários, onde também é responsável pela direção de fotografia. "É uma forma de trabalho na publicidade mais desafiadora, menos careta e com mais liberdade", diz, com a mesma convicção que sempre a leva para novos desafios.

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