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Ele inventou o aplicativo gratuito que localiza até 100 pessoas à sua volta e já serve para facilitar o encontro de 4,5 milhões de gays em 190 países; 130 mil usam no Brasil

Joel Simkhai, fundador do Grindr
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Joel Simkhai, fundador do Grindr

Segundo Joel Simkhai , a fórmula do sucesso do Grindr é que o aplicativo encontrou uma solução simples para um problema complicado. "Um gay quer conhecer outros gays, seja para amizade, para namoro ou encontros casuais", pondera o fundador do aplicativo que já tem 4,5 milhões de usuários cadastrados no mundo - o Brasil está em 8º lugar, com 130 mil usuários. "Nós facilitamos isso."

Usar a internet para conhecer parceiros amorosos ou fazer novas amizades deixou de ser novidade há algum tempo. Segundo pesquisa realizada pelo site americano de relacionamentos Match.com, a cada cinco novos casais, um se conheceu online. Entre os gays esse número é ainda mais impressionante, passando para três a cada cinco casais.

Um dos motivos para o público LGBT recorrer mais à internet para se conhecer é a dificuldade de reconhecer um parceiro no dia a dia. Foi pensando nessa questão que Joel, israelense de 33 anos radicado em NY, desenvolveu em 2009 o Grindr, aplicativo gratuito para smartphones com sistema iOS, Android e Blackberry que funciona a partir da localização via GPS.

O conceito do Grindr é bem simples. O primeiro passo é criar um perfil com foto e algumas informações básicas como idade, altura, etnia e uma pequena descrição. A partir de sua localização, o usuário poderá visualizar o perfil de até 100 pessoas que estiverem à sua volta, fazendo contato com quem lhe interessar. Além da versão gratuita, há a opção de pagar US$ 0,99 pelo Grindr Xtra, que tem navegação mais simples e exibe até 200 perfis.

Em entrevista exclusiva ao iG , o fundador do aplicativo, Joel Simkhai, e o diretor de marketing do Grindr,  Serge Gorjkovich , explicam como foi processo de criação do instrumento que facilitou o modo como os gays têm se conhecido em cerca de 190 países ao redor do mundo.

Layout do Grindr instalado em um iPad
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Layout do Grindr instalado em um iPad

iG: Como surgiu a ideia do aplicativo e por quê você escolheu focar no público gay?
Joel Simkhai:  Como gay, sempre foi um desafio conhecer outros homens. Você olha para alguém e deduz se é gay ou não, mas nunca tem certeza. Procurei uma solução para saber quem era semelhante a mim ao meu redor, utilizando o celular. Quando o iPhone 2 foi lançado, contei a minha ideia para amigos, contratamos um desenvolvedor na Dinamarca e trabalhamos por seis meses. Em março de 2009 nós lançamos o aplicativo ao redor do mundo.

iG: A ideia original sempre foi a de criar um sistema baseado na localização via GPS?
Joel Simkhai:  Sim, a questão mais importante sempre foi a localização. A ideia era bem básica e continua sendo básica, utilizar a sua localização pelo GPS do seu smartphone, mostrar os usuários à sua volta como em um álbum de fotografia e conversar com eles de graça.

iG: Um ano e meio após o lançamento do Grindr, você criou o Blendr, a versão para heterossexuais. Por que o Blendr não foi tão bem aceito?
Joel Simkhai : Acredito que é questão de necessidade. Conhecer alguém novo é sempre um problema, tanto para um gay quanto para um hétero, mas para nós esse problema tem dimensões muito maiores. O homem heterossexual pode começar uma conversa com uma mulher a qualquer momento na rua sem antes se preocupar em saber se ela é hétero. Um homossexual, ao abordar alguém, corre mais riscos além de levar um simples 'não'.

iG: Em 2012, o Grindr atingiu a marca de 4 milhões de usuários e atualmente são criados 10 mil novos perfis todos os dias. Você esperava tamanho sucesso?
Joel Simkhai:  Um gay naturalmente quer conhecer outros gays, seja para amizade, para namoro ou encontros casuais e nós facilitamos isso. A combinação de um grande problema e de uma solução simples fez do Grindr um sucesso. O crescimento foi orgânico.

Conhecer alguém novo sempre é um problema, tanto para gays como para héteros, mas para nós esse problema tem dimensões muito maiores. Um homossexual, ao abordar alguém, corre mais riscos além de levar um simples 'não'

iG: Depois do Grindr, vários aplicativos com o mesmo sistema foram criados para o público gay, como o Scruff, Gaydar ou o Manhunt. Qual a principal diferença entre eles?
Joel Simkhai:  Por ter sido o primeiro, o Grindr tem mais perfis para você olhar. Quando você está em uma rede social é importante que existam usuários perto de você. Se a pessoa mais próxima está a 30 quilômetros de distância, a rede não fica tão interessante. A interface simples e o fato de ser gratuito também ajudam.

iG: Existem alguns aplicativos voltados para lésbicas, mas nenhum com uma adesão comparável à do Grindr. Vocês pensam em desenvolver um aplicativo para elas?
Serge Gorjkovich:  Na verdade o Grindr pode ser utilizado por lésbicas também. O aplicativo não é fechado apenas para homens gays, ele também pode ser utilizado por mulheres gays, então temos planos de apenas continuar aprimorando o Grindr.

Serge Gojkovich, diretor de marketing do Grindr
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Serge Gojkovich, diretor de marketing do Grindr

iG: Qual foi o investimento inicial?
Joel Simkhai : O investimento inicial foi de aproximadamente US$ 5 mil. Com o tempo nós fomos investindo mais, mas nunca tivemos nenhum tipo de investimento externo.

iG: O lucro vem apenas da venda de espaços publicitários e da versão paga?
Joel Simkhai:  Cerca de 70% do lucro vem da versão paga e 30% dos anunciantes. Nossos anunciantes são bares, casas noturnas ou qualquer negócio que queira atingir diretamente o público gay. Nossos usuários gastam em média uma hora e meia por dia conectados ao Grindr e isso é um grande chamariz.

iG: Em janeiro de 2012, o Brasil ocupava a 9ª posição no ranking de países com o maior número de usuários do Grindr, com 67 mil pessoas. Quantos usuários são hoje no Brasil?
Joel Simkhai:  O Brasil pulou uma posição e atualmente é o 8º na lista. Mais de 130 mil pessoas já usam o aplicativo no país, sendo São Paulo a cidade com o maior número de usuários, seguida pelo Rio de Janeiro. O número de brasileiros no Grindr dobrou em um ano e continua crescendo. O fato de cada vez mais brasileiros possuírem smartphones influencia muito o crescimento.

iG: Vocês fazem ações de marketing específicas para o Brasil?
Serge Gorjkovich:  O Brasil é um país líder na América do Sul e estamos felizes que o aplicativo tenha sido tão bem recebido aí, pois nos ajuda a crescer nos países vizinhos. Nosso plano de marketing é voltado para os mercados em crescimento e o Brasil com certeza é um deles. Estamos à procura de anunciantes e parceiros.

O público gay é mais fácil de ser alcançado. Apesar de terem gostos diferentes entre si, eles frequentam um número limitado de lugares. Vão aos mesmos bares, aos mesmos clubes. É mais fácil atingir um nicho do que um público não tão específico.

iG: Vocês sentem alguma diferença entre planejar campanhas de marketing para o público hétero e LGBT?
Serge Gorjkovich:  O publico gay é mais fácil de ser alcançado. Apesar de terem gostos diferentes entre si, eles continuam frequentando um número limitado de lugares. Eles vão aos mesmo bares, aos mesmo clubes. É sempre mais fácil você atingir um nicho do que um público não tão específico quanto o heterossexual.

iG: Os usuários podem esperar alguma inovação no aplicativo ainda este ano?
Joel Simkhai:  Nós acreditamos que a simplicidade fez o Grindr dar certo e vamos continuar com essa filosofia, mas ainda neste ano lançaremos uma nova versão, que será mais rápida e ainda mais fácil de ser utilizada, mas não temos uma data de lançamento definida.

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