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Para alguns executivos, a diversidade é importante para refletir a base de clientes; outros consideram a inclusão uma vantagem competitiva da empresa

Elias Benavides, funcionário do HSBC há 24 anos:
Arquivo pessoal
Elias Benavides, funcionário do HSBC há 24 anos: "Era outro mundo"

Quando Elias Benavides , 49, entrou no banco HSBC, 24 anos atrás, a instituição ainda se chamava Bamerindus. Naquela época, o debate sobre a inclusão de homossexuais no ambiente de trabalho era praticamente inexistente. Quando muito, os funcionários homossexuais eram motivo de observações maliciosas nos corredores da empresa. 

O fato de ser gay e ativista, recorda, o tornava alvo fácil desses comentários preconceituosos. “Era outro mundo. A empresa era familiar e repleta de preconceitos”, conta Benavides, que é especialista em negócios para canais diretos do HSBC.

Desde 2006, o HSBC decidiu mudar a realidade deixada pelo Bamerindus e passou a promover a diversidade. O primeiro passo foi a inclusão de parceiros do mesmo sexo nos benefícios oferecidos pela empresa, como plano de saúde e previdência privada.

Três anos depois, o HSBC criou um grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) para incentivar a discussão sobre o tema. Entre as conquistas do comitê, coordenado por Benavides, está a de licença casamento para união estável de homossexuais, desde outubro do ano passado. Mediante apresentação do documento que oficializa a união estável do casal, o funcionário homossexual tem direito a uma semana de folga para a lua-de-mel, como acontece com os funcionários hétero que se casam. 

Jackeline Busnello, gerente de diversidade do HSBC
Divulgação
Jackeline Busnello, gerente de diversidade do HSBC

Para Jackeline Busnello , gerente de diversidade do HSBC, dar espaço para que os gays se manifestem e até mudem as políticas internas da empresa traz benefícios não só para os próprios funcionários, como também para a empresa. "É importante para o banco ter um mix de pessoas porque a empresa é global. A diversidade reflete a base de clientes que temos”, argumenta.

Inclusão em benefícios

Pesquisa “Anual de Benefícios/ Saúde de 2012” realizada no Brasil pela consultoria internacional Towers Watson com 198 companhias mostra que as empresas estão avançando nas políticas de diversidade.

Em 2011, 66% das empresas consultadas aceitavam parceiros do mesmo sexo como beneficiários do plano médico. Em 2010, o índice era de 41%.

“O resultado reforça a preocupação das companhias com o bem-estar dos funcionários e com a preocupação na atração e retenção de talentos”, afirma Cesar Lopes , líder da área de benefícios e saúde da consultoria.

A inclusão reforça a preocupação das companhias com o bem-estar dos funcionários e com a atração e retenção de talentos.

Para Maria Cândida de Azevedo , sócia-diretora da consultoria People & Results, a tendência é que a inclusão de homossexuais no mercado de trabalho seja tão normal quanto a inserção de mulheres nas empresas. Incluir parceiros nos benefícios, completa, também se tornou um direito comum.

“O que tenho visto agora são várias empresas criando grandes comitês, alguns até internacionais, para ouvir o que os homossexuais têm a falar sobre as políticas internas da organização onde trabalham”, conta ela.

Banco do Brasil: licença adoção e folga para cuidar do parceiro em caso de doença 

O Banco do Brasil é uma dessas empresas. Após discussão iniciada pelos funcionários, a empresa liberou não só a inclusão de parceiros do mesmo sexo nos benefícios em 2003, como também ofereceu, a partir de 2009, licença de 30 dias para adoção de crianças de até 8 anos de idade para pais solteiros e homossexuais. Desde 2006, vale ainda o direito de afastamento para acompanhar parceiros do mesmo sexo enfermos.

De acordo com Ana Cristina Rosa Garcia , gerente-executiva da área de gestão de pessoas do banco, com a adequação das normas internas, as queixas de profissionais gays pararam de chegar. “Estamos sempre abertos a novas sugestões”, sugere ela.

Até o momento, 369 profissionais do Banco do Brasil indicaram parceiros do mesmo sexo como beneficiários na empresa e 47 têm filhos e enteados registrados.

Há 37 anos no Banco do Brasil, o ouvidor Augusto Andrade, 57, sentiu na pele as mudanças na política da empresa para os funcionários homossexuais.
Arquivo pessoal
Há 37 anos no Banco do Brasil, o ouvidor Augusto Andrade, 57, sentiu na pele as mudanças na política da empresa para os funcionários homossexuais. "Precisa mudar ainda a cultura das pessoas"

O ouvidor Augusto Andrade , 57, está há 37 anos no Banco do Brasil. No início de sua trajetória bancária, chegou a perder uma promoção devido ao preconceito dos gestores. Hoje, comemora a liberdade de ser o que realmente é, mas ressalva a necessidade de mudanças ainda maiores.

“O que precisa ser mudado é a cultura das pessoas. É eu poder ir para uma festa e dançar com meu companheiro sem ver as pessoas olhando para mim. Por mais que a empresa tenha políticas anti-discriminatórias, sei que lá no sertão a realidade deve ser bem diferente”, avalia Andrade.

O que precisa mudar é a cultura das pessoas. É eu poder ir a uma festa e dançar com meu companheiro sem as pessoas ficarem me olhando. (Augusto Andrade)

Na Petrobras, inclusão é vantagem competitiva

De acordo com Eduardo Medrado , gerente setorial de ambiência e diversidade da Petrobras, a inclusão é entendida como vantagem competitiva. Desde 2007, a empresa reconhece o direito de inclusão de parceiros do mesmo sexo nos benefícios. No seu código de ética, consolidado em 2006, prega também o combate a qualquer tipo de descriminação.

“Temos uma subcomissão de diversidade, que é responsável pelas discussões sobre o combate ao preconceito e é composta por representantes das áreas e subsidiárias do sistema. O grupo está ligado à Comissão de Responsabilidade Social da Petrobras”, explica o gerente.

Adesão a programas

Os Correios também caminham na mesma direção dos bancos e da Petrobras. Em 2011, a empresa aderiu ao Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. No mesmo ano, promoveu o 1º Fórum dos Direitos Humanos e da Igualdade de Gênero e Raça.

Em nota, os Correios afirmam aceitar a inclusão de companheiros do mesmo sexo como beneficiário nos planos de saúde e de previdência privada. A contratação dos profissionais, contudo, ocorre por concurso público, não havendo cota para favorecer os homossexuais.

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