André Pomba comanda a coluna do Pomba no iGay e, nesta semana, bate um papo exclusivo com esse polêmico escritor. Confira os detalhes

Santiago Nazarian, polêmico escritor gay, volta ao mercado com uma nova obra, o livro "Neve Negra". A obra é um misto de terror psicológico e drama familiar com uma história que se passa no sul do Brasil. 

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O escritor gay Santiago Nazarian
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O escritor gay Santiago Nazarian


Em um bate papo exclusivo, Santiago Nazarian fala detalhes do livro e da literatura LGBT. Confira: 

André Pomba: Como você venderia e descreveria "Neve Negra" para um potencial leitor?

Santiago Nazarian: É um livro de terror... ou pós-terror, para usar um termo bem atual que denota um terror com melhores intenções, ou piores intenções, um terror mais denso que traz questões além da montanha-russa do susto passageiro. No caso desse, é um romance sobre os piores pesadelos da paternidade: “O filho é meu? O que há de mim em meu filho? Há algo de errado com ele?”

André Pomba: Por ser seu nono romance, você se cobrou para não se repetir?

Nazarian: Não. Deveria, na verdade... Mas foi uma encomenda. A RT Features, que é a produtora por trás de filmes como a “A Bruxa”, do Robert Eggers; “Love”, do Gaspar Noé; desse novo “Call me By Your Name” e um monte de filmes brasileiros, me pediu uma história de terror (ou pós-terror) que pudesse gerar um livro denso para a Companhia das Letras e um filme para a produtora. Era apenas essa a encomenda, não havia um tema mais restrito, nada. Terror é meu gênero, é algo que consumo desde criança, já exercitei em diversos livros, mas nunca havia mergulhado explicitamente. Então ele se parece com outros livros meus mais próximos ao thriller, como "BIOFOBIA" e "Feriado de Mim Mesmo", mas é meu livro mais assumidamente de gênero. Se não tivessem me encomendado, talvez eu tivesse ido para uma direção diferente...

André Pomba: Qual foi a inspiração?

Capa do livro 'Neve Negra'
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Capa do livro 'Neve Negra'

Nazarian: Dipnlik e cocaína... Haha. Não, foi-se o tempo. Eu acabei de fazer 40, então estava com esses pensamentos típicos da idade, se teria filhos ou não, até que ponto um homem (não) se completa como pai , como uma mãe (não) se completa como mãe. Até que ponto a paternidade é uma utopia. E resolvi fazer um livro sobre isso, sobre o lado negro da paternidade, talvez para convencer a mim mesmo a (ou me consolar por) não ter filhos. Funcionou. Outra coisa que surgiu no processo foi a ideia da neve no Brasil, que é pouco vista. Um cenário raro, que é menos retratado ainda. Achei que casava bem com essa história de horror. 

André Pomba: Você é assíduo palestrante em encontros literários. O que te estimula esse tipo de aproximação com leitores?

Nazarian: Os cachês. Antigamente ainda havia um desejo mais carnal de aproximação, mas hoje em dia estou casado, cansado... E sempre é bom poder discutir não só a própria obra, mas a literatura como um todo. É um ofício muito solitário, esses encontros são uma forma de comprovar que não estamos sós, não estamos loucos. Ou não estamos loucos sozinhos. 

André Pomba: Como é namorar alguém também conhecido como Murilo de Oliveira (ex-Masterchef). Como vocês moram juntos, você criou uma certa polêmica ao criticar a oficialização civil ou religiosa de um casamento. Pode explicar?

Santiago é casado com o ex-Masterchef Murilo de Oliveira
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Santiago é casado com o ex-Masterchef Murilo de Oliveira

Nazarian: A gente namora há mais de quatro anos, antes de ele entrar no programa. Foi bacana acompanhar esse processo, de ele se tornar conhecido numa área diferente da minha, como cozinheiro. Tenho muito orgulho, porque vi o quanto ele se empenhou, estudou, cresceu na cozinha, e hoje é chef de um hotel de luxo em Maresias. Agora a gente mora junto, não tão junto, temos duas casas basicamente, em São Paulo e Maresias. Porém para mim o que importa é a mentalidade do casamento: eu não planejo mais minha vida sozinho. Antigamente, quando entrava uma bolada de dinheiro, eu pensava no que eu iria fazer, viajava sozinho. Agora já preciso pensar como um casal; não tem sentido por exemplo eu tirar férias sem ele. A gente tem uma coelha, que não é uma filha, mas é como se fosse, é uma responsabilidade conjunta. Essas coisas é que formam o casamento para mim, as contas a pagar. A oficialização tem certa importância, talvez, em planos de saúde, em termos de herança, mas é muito o casal gay querendo brincar de casinha, querendo bancar papai-mamãe. Bem, papai-mamãe em minha casa nunca tiveram papel passado, talvez eu esteja apenas querendo imitá-los. Não preciso que o estado reconheça nossa união, muito menos a religião. Sou tanto a favor do casamento gay quanto sou da dissolução do casamento hétero. Acho que o estado não deveria ter nada a ver com nenhum dos casos. “Proteção à família”? Que se f***. A família tem uns aos outros para se proteger. Quem precisa mesmo de proteção e reconhecimento do estado é quem está sozinho, o adolescente gay, o idoso solteiro e sem filhos.

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André Pomba: Qual dos seus livros você considera o mais gay. E por quê?

Nazarian: Nos meus livros a morte está mais presente do que o amor, por isso a homossexualidade acaba sempre em segundo plano. Talvez meu livro de contos, "Pornofantasma", tenha boas histórias que envolvam esse tema, até porque é um livro sobre morte e sexo. A mini-novela que dá nome ao volume, por exemplo, um conto de 50 páginas, é sobre um pai que enxerga em um ator pornô o filho adolescente morto de overdose, e tenta salvá-lo com certo desejo incestuoso. De qualquer forma, é isso que tenho a oferecer ao “meio”, não posso fazer literatura engajada, porque meu objetivo sempre é mostrar um lado mais perverso das relações, sejam hetero ou homossexuais.

André Pomba: Por fim, "Neve Negra" tem algo que possa atrair quem se interessa por literatura LGBT?

Nazarian: Meus autores favoritos, todos, são gays: Oscar Wilde, João Gilberto Noll, Marcelino Freire, Lúcio Cardoso, Dennis Cooper, João Silvério Trevisan, Caio Fernando Abreu... Nem sempre eles tratam de questões da homossexualidade, mas há sempre uma identificação na forma de olhar o masculino, numa idealização... "Neve Negra" é um romance com um protagonista heterossexual, com um filho que talvez não seja, e acho que por toda a obra permeia um homoerotismo latente que pode interessar a quem se atrai por seres da noite, de traços andróginos, pernas longas e pelos não-aparados. 

Sinopse

Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pai de família volta para casa. Pintor de sucesso, passa boa parte de seu tempo em feiras e exposições no exterior. E na sua cidade natal, na Serra Catarinense, se depara com o inesperado. Enquanto a neve cai lá fora, sua família dorme. Mas quando seu filho de sete anos desperta é que começa um pesadelo que acabará com o aconchego do lar. Neste habilidoso misto de terror psicológico e drama familiar, o leitor se depara com paranoias e dúvidas ancestrais da paternidade. É também um raro registro da neve no Brasil, num romance no qual questões existenciais se mesclam com o humor negro de que só Santiago Nazarian é capaz.

Ficha Técnica

Título original: NEVE NEGRA
Autor: Santiago Nazarian
Capa: Guilherme Xavier
Páginas: 208
Formato: 14.00 x 21.00 cm
Peso: 0.264 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 28/07/2017
ISBN: 9788535929461
Selo: Companhia das Letras
Preço médio: R$ 39,00 (trinta e nove reais). Para saber mais dicas de cultura, acompanhe a coluna do Pomba aqui no iGay

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