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"Acho que é muito amor para termos continuado juntas até hoje", conta Sônia sobre sua relação com Mag, uma inspiração para a comunidade LGBT

Seja com apenas um ou já com 42 anos de relacionamento, o Dia dos Namorados também é uma data comemorativa para todos os integrantes da comunidade LGBT. Hoje, com 56 anos, a profissional de relações públicas Sônia “Billy” Brantys e sua parceira, a analista financeira Mag Zecchinatti, têm uma longa história de amor juntas e são um grande exemplo para aqueles que querem construir uma vida com o parceiro ou a parceira até chegar a velhice.

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Há 42 anos juntas, Sônia (à esquerda) e Mag (à direita) contam ao iGay sua longa e inspiradora história de amor LGBT
Arquivo pessoal
Há 42 anos juntas, Sônia (à esquerda) e Mag (à direita) contam ao iGay sua longa e inspiradora história de amor LGBT


Em entrevista ao iGay , Sônia e Mag contam que se conheceram aos 14 anos e tiveram uma grande vivência juntas, com episódios que poderiam ter sido retirados dos melhores filmes de romance até situações difíceis de preconceito e violência contra pessoas  LGBT . “Acho que é muito amor para termos continuado juntas até hoje”, afirma Sônia, que explicou também que a relação deixa de ser uma paixão para se tornar um amor mais eterno na velhice.

Em toda essa história, vale lembrar que lá pelos anos 70 e 80, quando elas se conheceram, não existiam artifícios para pessoas LGBT encontrarem alguém da comunidade com quem pudessem desenvolver um relacionamento, como as redes sociais e os diversos aplicativos de namoro que existem hoje, com a internet.

Até então, a comunicação à longa distância era feita por meio de cartas, por exemplo, e algumas técnicas sutis utilizadas para identificar que uma mulher era interessada por mulheres era usar o relógio no pulso direito, segundo Sônia, cujo apelido “Billy” vem de sua semelhança ao surfista de mesmo nome, com aparência “masculina”.

Já dá para imaginar que elas tiveram de fazer um grande esforço para continuarem juntas, em tempos mais difíceis em termos de preconceito e hostilidade do que os tempos atuais, como elas mesmas dizem. As mulheres lésbicas eram chamadas, de forma satírica, de “mulher-macho”, termo repudiado. As parceiras já tiveram experiências muito extremas e impactantes, inclusive no próprio Dia dos Namorados.

Como tudo começou

Mag (à esquerda) e Sônia (à direita) se conheceram aos 14 anos de idade, em uma grande coincidência do destino
Arquivo pessoal
Mag (à esquerda) e Sônia (à direita) se conheceram aos 14 anos de idade, em uma grande coincidência do destino


Mag nasceu e cresceu na região do Bixiga, conhecido como um dos bairros mais tradicionais de São Paulo. Na época, sua irmã acabou casando e mudando com o marido para uma casa na Zona Norte. Foi lá que Mag, no dia de mudança da irmã, viu Sônia pela primeira vez, coincidentemente vestindo as mesmas roupas que ela — um macacão e uma camiseta branca.

As duas trocaram apenas olhares, mas Mag tinha pensado que “Billy”, que sempre teve uma aparência mais “masculinizada”, era um menino. Por sua vez, “Billy” ficou marcada com a imagem da menina: “Nossa, que menina bonita, ela parece a Branca de Neve”, pensou então. Desde aquele dia, “Billy” passou a andar de bicicleta na frente da casa da irmã de Mag, para encontrar sua “Branca de Neve”, mas não a encontrava.

Somente nas férias escolares que ocorreria um reencontro entre as meninas. “Billy” trabalhava numa papelaria, loja do pai, um comerciante muito respeitado no bairro, e, perto do fim do expediente, o estabelecimento estava quase fechando. Com a ajuda de uma escada, ela estava arrumando alguns itens nas prateleiras quando Mag apareceu junto da irmã, e Sônia, em choque, acabou caindo da escada derrubando tudo.

Ciente então de que Mag estava pelas redondezas, a “surfista” voltou a passar de bicicleta na frente da casa e acabou encontrando-a no dia seguinte. Junto de outros amigos do bairro, elas começaram a se aproximar. “Eu sentia uma coisa [por ela], mas não sabia o que era”, diz Mag sobre o fato de elas terem se aproximado mais do que as outras crianças.

Com o fim das férias, ambas as meninas ficaram tristes, pois só se veriam nas próximas. Para preservar o laço criado, elas começaram a trocar cartas, já que o telefone ainda era muito caro no meio dos anos 70.

Depois de um tempo, Mag acabou passando mais tempo na Zona Norte, pois a irmã havia adoecido. Assim, foi possível que elas pudessem se aproximar de novo, e foi nesse meio tempo que finalmente aconteceu o primeiro beijo, ainda inocente. “Ela [Sônia] disse: ‘Eu beijo minhas amigas na boca’, e eu respondi: ‘Então não sou sua amiga’”, explica a “Branca de Neve” sobre o que aconteceu antes do simples beijo.

Assim, elas dizem que começaram a se considerar namoradas, ainda de forma inocente, andando de mãos dadas pela rua, indo nos cinemas, “nos embalos de sábado à noite”, mas sem ter um lugar para se encontrar propriamente. No entanto, a irmã de Mag começou a perceber o que estava acontecendo entre as duas e decidiu proibi-las de se ver. Mas elas continuaram a se encontrar por um tempo, pedindo para amigos levarem recados uma para a outra.

Em um episódio complicado, a irmã juntou as mães de cada uma das meninas para ter uma conversa com elas, o que terminou sendo o fim das duas naquele momento. Cada uma seguiu a própria vida, trabalhando e estudando. “A gente não tinha maldade, não tinha sexo, não sabia nem beijar, só queríamos estar juntas”, revela Sônia.

O reencontro, o Dia dos Namorados e o Último Tango em Paris

O casal LGBT passou por muitas situações difíceis juntas nos anos 70, mas conseguiram vencer o preconceito
Arquivo pessoal
O casal LGBT passou por muitas situações difíceis juntas nos anos 70, mas conseguiram vencer o preconceito


Quatro anos se passaram, e Sônia fez uma nova amiga em seu bairro, que também tinha características mais “masculinizadas”, Eliane. A nova amiga serviu de incentivo para levá-la ao "Ferro’s Bar" e ao "Último Tango em Paris", bar e boate frequentados por mulheres lésbicas, próximo ao bairro do Bixiga. Elas decidiram levar alguns amigos para ir à noite ao "Ferro’s Bar", algo que começou a se tornar uma rotina.

Em uma noite no bar, “Billy” teve a ideia de ver Mag, nunca esquecida por ela mesmo após todo esse tempo, e pensou na possibilidade de os amigos levarem a “Branca de Neve” para se reencontrarem. Mag conheceu o lugar, ficou encantada e começou a ir todo o final de semana encontrar com Sônia.

Caindo na graça das “franchonas” e “mulheres-macho” da boate, as namoradas começaram a participar mais da vida noturna – Sônia até cuidava, às vezes, da sonoplastia do estabelecimento. Em uma noite de Dia dos Namorados, porém, estava acontecendo uma festa especial no "Último Tango em Paris" quando o conhecido delegado Richetti, terror na noite LGBT da época, entrou junto de outros oficiais armados.

“Ele entrou e começou a bater nas pessoas, nos meninos, nas meninas, nas travestis. Ele quebrou copos, mesas, lustres, palcos, acabou com tudo”, relembra Sônia. As duas correram e se esconderam em um quarto no fundo do lugar, uma atrás da porta e outra embaixo da pia. Richetti entrou no quartinho, mas não viu nenhuma das duas. “Mas onde a gente ia se encontrar agora? Tudo tinha acabado”, diz Mag.

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Felizes para sempre

Sônia (à esquerda nas fotos) e Mag (à direita) continuam juntas e compareceram à 1° Parada LGBT de São Paulo
Arquivo pessoal
Sônia (à esquerda nas fotos) e Mag (à direita) continuam juntas e compareceram à 1° Parada LGBT de São Paulo


Com o passar do tempo, Richetti foi tirado do cargo por outras razões, e a noite LGBT pôde finalmente voltar a tomar vida. Na época do “rock and roll”, diversas boates começaram a surgir na noite paulistana, e, aos poucos, as duas também começavam a se reerguer psicologicamente.

Mag começou a ter dificuldades financeiras na casa, com o pai adoecido, e, para ajudar, Sônia passou a ajudar a família comprando comida toda semana. A mãe de Mag começou a estranhar o fato de a filha trazer comida frequentemente, e logo foi revelado que quem ajudava era “Billy”. A mãe acabou aceitando as duas, e as amantes perceberam que ela não era homofóbica, apenas a irmã era.

Quando as namoradas estavam finalmente mais próximas do final feliz, Sônia sofreu um acidente de carro, e Mag foi visitá-la no hospital, encontrando com os pais da amada. Foi então que o pai de Sônia resolveu oferecer para as duas uma loja e uma casa própria, para elas começarem a construir a vida juntas.

Além de iniciarem uma vida a duas a partir deste momento, elas passaram a receber e acolher amigos LGBT que não tinham muitos lugares para poderem ser eles mesmos, e aquele se tornou um lar e uma comunidade muito unida e cheia de amor. A loja das duas, uma bomboniere, começou a ganhar popularidade no bairro, e todas as pessoas da região começaram a conhecê-las e amá-las.

“Nós revolucionamos o bairro”, comenta Mag. O lar das duas virou um lugar de hospitalidade, de carinho e de cuidados. Hoje, cerca de 20 anos depois, elas ainda conhecem algumas pessoas que passaram pela casa.

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Finalmente vivendo o próprio "felizes para sempre", elas contam que participaram da 1° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que teve a participação de pouquíssimas pessoas, mas “foi crescendo, foi para Campinas e outros lugares do Brasil, e agora é com vocês”, brinca Sônia. Agora, ela só pensa em fundar um “retiro do arco-íris”, para poder envelhecer com Mag. Mas essa é uma história para uma próxima reportagem. 

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