Tamanho do texto

“É melhor não ser transgênero na Rússia", garante Maya Demidova, 28 anos

Maya Demidova tem 28 anos e é uma mulher transgênero que vive em Moscou, capital da Rússia , onde recentemente um casal de homens precisou fugir de casa após ameaças de moradores locais apenas por conta da oficialização de seu casamento

Maya Demidova durante a entrevista que concedeu para o site
Facebook/Maya Demidova/Reprodução
Maya Demidova durante a entrevista que concedeu para o site "Attitude" sobre como é ser mulher transgênero na Rússia

Em entrevista ao site “Attitude”, Maya, que trabalha na única organização russa de tratamento de HIV especializado na comunidade LGBT , conta como é ser uma mulher transgênero em um país que não aceita pessoas como ela.

“Eu já apanhei algumas vezes. A primeira vez foi na rua, três caras grandes vieram e me acertaram na cabeça, me derrubando no chão, onde me chutaram na cabeça. A segunda vez foi no metrô, na hora do pico. O vagão estava lotado, estava de salto e com um cabelo muito bonito. Um homem bem-afeiçoado se aproximou e disso ‘você é uma mulher ou um homem?’. Eu disse ‘se você quiser que eu seja um homem, eu serei um homem’. Ele me acertou no rosto. Como eu já fiz Taekwondo, usei minhas pernas e salto para acertá-lo e ele ficou pior do que eu”, conta a jovem, que contou com a ajuda de outros passageiros posteriormente. 

Maya também já foi estuprada. Isso aconteceu há dois meses, quando ela conheceu um homem em um bar. Ela acredita que ele a drogou, já que após uma bebida começou a perder o controle de si mesma. Ela acordou em casa, espancada e com o nariz quase quebrado. “Eu sabia que havia sido estuprada porque podia sentir. Eu tive de ver um médico porque sabia que o homem havia ejaculado em mim.”

Leia também: Nome social: como escolher um nome de acordo com seu gênero

Mas apesar da jovem ter pedido ajuda médica – Maya ainda aguarda o resultado dos exames para saber se foi contaminada com o vírus HIV –, ela nem mesmo pensou em denunciar o caso. “Se eu fosse em uma delegacia de polícia denunciar o estupro eles iriam rir da minha cara e não fariam nada. Uma vez, eu fui presa e passei algumas horas na delegacia. Eu ouvi tantos insultos sobre pessoas transgênero enquanto estava sentada lá. A polícia odeia pessoas como eu. Eles acham que se eu fui estuprada a culpa é minha.”

Transição, família e amigos

A russa passou pela transição há dez anos, e o tratamento foi feito inicialmente sem acompanhamento médico ou qualquer prescrição de hormônio. “Não há nenhuma chance de cirurgia aqui na Rússia, ninguém faz ou nem mesmo sabe como fazer, a não ser os seios ou nariz. Há apenas algumas clínicas especializadas e uma fundação que oferece a vaginoplastia por um preço baixo para ajudar pessoas trans, mas, na minha opinião, a qualidade da operação é bem baixa.”

Maya conhece mulheres trans que passaram pela cirurgia, mas não conseguem manter uma vida sexual completa por conta da baixa qualidade do procedimento disponível.

Leia também: Festival de Sundance premia drama sobre "cura gay" e celebra cultura LGBT+

Em relação à família, os pais e a avó que tinha mais contato já haviam morrido quando a russa decidiu se assumir como mulher transgênero, entretanto, seu avô ainda estava vivo. “É melhor não ser transgênero na Rússia. A reação dele foi horrível. Ele me humilhava, me abusava e insultava a qualquer momento. Começou a beber muito também. Chegou a me bater e morder algumas vezes. Ele me forçou a deixar minha casa e me expulsou para a rua.”

Foram quatro anos de uma relação problemático, que levou Maya a mais de uma tentativa de suicídio. Felizmente, uma reviravolta, nos últimos seis anos, o relacionamento com o avô tem tido melhoras. “Agora, ele me percebe como mulher e me chama pelo meu nome feminino, mas ele provavelmente não entende o que é ser transgênero.

Por outro lado, todos os amigos viraram as costas para a mulher transgênero. “Mas eu sou uma pessoa forte”, afirma. Já os vizinhos acompanharam toda a transição. Eles viram Maya passar a usar roupas consideradas femininas, e quando qualquer pessoa tentava falar alguma coisa ou desafiar a jovem, ela apenas respondia: “Dirija-se a mim como uma mulher, por favor”. “Eles não esperavam essa reação de mim. Eles achavam que eu me assustaria e iria parar a transição. Eu disse ‘vão se ferrar todos vocês, eu vou fazer o que quero e usar o que quero’. Então, todos os meus vizinhos me tratam como mulher agora, me deixam passar pela porta primeiro e essas coisas.”

Viver na Rússia

Maya conta que vive no país desde que nasceu, então já está acostumada com todos os problemas e a crueldade. “Se você quer sobreviver, tem de ser forte.”

A jovem acredita que a questão do entendimento sobre o HIV no país tem melhorado, entretanto, ela não vê melhorias para a comunidade LGBT. Pelo contrário, ela acredita que as coisas estão piorando, ao menos para quem é transgênero.

Por conta disso, Maya está no processo para alterar seu nome nos documentos oficiais, como o passaporte. “Por dez anos, eu vive bem com meu nome civil, masculino. Mas agora as coisas na Rússia estão mudando, então eu decidi que chegou a hora de mudar porque, talvez, nos próximos meses seja tarde de mais, talvez eu não tenha mais esse direito.”

Leia também: Laverne Cox se torna primeira mulher transgênero a estampar capa de revista

Para Maya, o presidente Vladimir Putin e sua legislação são os culpados pela piora na vida das pessoas trangênero no país. “Espero não ser morta nos próximos quatro anos, enquanto Putin ainda estará no poder", revela. Apesar de tudo isso, Maya não quer deixar o país e deseja lutar com todas as forças que ainda tem para ajudar a todos que não podem deixar o local.