Além dos conflitos internos comuns da adolescência, jovens lésbicas, bissexuais, gays e transexuais têm ainda outro desafio pela frente: se abrir sobre questões relacionadas a sexualidade e gênero com os familiares

Durante a juventude, é muito comum que as pessoas se sintam indecisas a respeito de escolhas da vida em geral (como qual carreira seguir, por exemplo) e tenham medo de que essas vontades não sejam bem aceitas pelos pais ou por parentes próximos. Agora, imagine ter todas essas dúvidas naturais da adolescência e ainda se ver em conflito com o gênero pelo qual as pessoas te designam ou sentir que precisa esconder dos pais algo tão íntimo como a própria sexualidade. Pois é essa a realidade de muitas pessoas da comunidade LGBT pelo Brasil e pelo mundo. 

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Tão comuns, situações desse tipo estão sendo abordadas até pela televisão, como é o caso de “A Força do Querer”, novela das 21h da Rede Globo. Nela, Ivana, uma jovem que nunca se relacionou com aspectos normalmente atrelados ao feminino – como certas roupas, alguns comportamentos e até o próprio corpo – e sempre foi recriminada pela mãe, Joyce, que gostaria de ver a filha sendo mais “feminina”. Eventualmente, Ivana se descobriu transexual, e se assumiu para a família como um menino, sendo recebida com indignação. Apesar de a ficção ter suas divergências com a realidade, são muitos os casos de pessoas LGBT que têm problemas com a família simplesmente por serem quem são.

Na novela
Reprodução/TV Globo
Na novela "A Força do Querer", Ivan mostra o quão difícil pode ser lidar com a família sendo parte da comunidade LGBT

É o caso do jovem Téodoro Azevedo, de 22 anos que, desde os 15, enfrenta a não-aceitação por parte da mãe. O jovem conta que sempre se sentiu desconfortável não só com o próprio corpo, mas com o que era esperado dele por ter nascido em um corpo classificado como o de mulher. “Eu tinha muito conflito comigo mesmo quando era criança pelo fato de não me encaixar em diversas situações que falavam que, quando eu crescesse, teria de fazer por ser mulher. Eu tinha isso na minha cabeça, mas não sabia como dizer sem parecer algo muito doido”, comenta Téo em entrevista ao iGay, explicando que, naquela época, a impressão era a de que ele era a única pessoa a sentir isso no mundo.

Quando pequeno, Téodoro pensava ser a única pessoa a enfrentar desconfortos com a própria imagem
Arquivo pessoal
Quando pequeno, Téodoro pensava ser a única pessoa a enfrentar desconfortos com a própria imagem

Téo conta que, aos 13 anos, se deparou com um livro cujo autor falava a respeito da própria vida como um transexual . Lendo, o jovem se identificou com boa parte do que estava relatado nele, descobrindo que não estava sozinho nessa experiência. “Não era sobre me sentir homem pelo fato de eu gostar de bola ou esse tipo de coisa, era de eu me ver futuramente com uma imagem bem masculina desde sempre”, conta, ressaltando que costumava ser confundido com uma mulher lésbica em razão do visual pendendo para características que a sociedade associa ao masculino, mas estava longe de se sentir como uma.

Aos 15, em meio ao desconforto de lidar com os seios, a menstruação e a opinião alheia, Téo se assumiu transexual para a família, mas, segundo ele, não foi ele quem escolheu se sentar junto da mãe e conversar sobre o assunto. “Eu não cheguei e falei: ‘Mãe, eu sou um homem transexual’. Ela veio até mim e perguntou se eu era uma mulher. Foi uma pergunta muito certeira; ela não perguntou se eu gostava de mulher, se eu gostava de homem, se eu gostava dos dois, ela perguntou se eu era uma mulher e se eu era feliz assim”, explica o rapaz.

Ele afirma também que, apesar de a mãe dar indícios de que entende questões como essa, ela não o aceita. “Fui tachado de maluco, quiseram me internar, esse tipo de coisa. Foi muito pesado e até hoje é muito pesado”, expõe Téo.

Segundo o jovem, a ausência de empatia por parte da mãe se manifesta no fato de que ela simplesmente age como se a questão não existisse. “Minha mãe só me trata no feminino. Às vezes, ela erra porque vê uma figura masculina, mas logo se corrige. É muito complicado chamar meus amigos aqui porque todos me chamam de Téodoro e, quando ela escuta, tem a necessidade de reafirmar o tempo todo o meu nome de registro. É negação total”, conta, e afirma que a atitude o faz se afastar cada vez mais da mãe. “Não é alguém com quem sei que posso contar, não é alguém que vejo como amiga. Se eu dependesse só dela, me sentiria mais sozinho ainda”, explica.

Por outro lado, o pai de Téo é respeitoso com o momento do filho. Entretanto, para a mãe e para o restante da família, isso é simplesmente uma forma dele se posicionar contra a ex-esposa. “Todo mundo sabe, mas ninguém fala nada porque acha que falar sobre isso ou me respeitar é desrespeitar minha mãe. Todo mundo se faz de maluco e quer tapar o sol com a peneira”, expõe o rapaz.

Apesar de já ter se assumido para os pais como transexual, a partir do início deste ano, Téo encontrou mais uma barreira no caminho da transição. Há quase cinco meses, o jovem decidiu iniciar o tratamento hormonal para ter traços físicos cada vez mais masculinos, mas sente que não pode contar para a mãe a respeito disso e teme que as coisas possam terminar de forma bastante desagradável.

“Está ficando cada vez mais visível e ela está vendo algumas mudanças, como costeleta, bigode ficando mais escuro... Sei que uma hora ela vai ver isso e falar: ‘Cara, você está tomando alguma coisa’. E aí eu sei que vou ter de conversar e sei que ela vai me expulsar de casa. É algo de que eu tenho certeza”, afirma, ressaltando que tem planos de ir morar com o pai em razão disso.

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O “L”, o “G” e o “B” do LGBT

Ainda que a causa de pessoas cuja sexualidade não corresponde ao “padrão” imposto pela sociedade (ou seja, os não heterossexuais) seja mais discutida do que questões relacionadas a gênero, a comunidade LGBT em geral segue sendo composta por minorias que sofrem preconceito diariamente, inclusive dentro de casa, por parte da própria família. É o caso de Paula Giulia Sant-Anna, de 22 anos, que, após saber que o namorado virtual era uma mulher e se relacionar com ela pessoalmente, se descobriu lésbica .

Além das questões de gênero, se abrir sobre a própria sexualidade dentro de casa também é uma tarefa complicada
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Além das questões de gênero, se abrir sobre a própria sexualidade dentro de casa também é uma tarefa complicada

Dificuldade de uma mãe em aceitar a filha lésbica

Isso aconteceu em 2014. Giulia é de São Paulo e a namorada era da Bahia. Para se encontrarem, a moça viajava constantemente para o Nordeste e nem tinha a intenção de falar do namoro para a mãe, havia apenas contado para a irmã. Entretanto, em 2015, a mãe descobriu o relacionamento homossexual da filha enquanto ela estava na Bahia. Avisada pela irmã, Giulia decidiu escreveu uma carta para a mãe. “Escrevi contando sobre o meu relacionamento, contando que eu amava muito essa mulher, que ela não me forçou a fazer nada e que eu gostava muito dela por ela ser uma pessoa, não por ela ser uma mulher. Assim que cheguei em São Paulo, entreguei a carta para minha mãe e contei toda a verdade”, explica a moça.

Achava que era falta de vaidade, que eu gostava da única pessoa que me dava bola porque eu era gordinha”

A reação da mãe veio em forma de muito choro e até ofensas. “Ela disse que não achava que era o meu caminho. Achava que era falta de vaidade, que eu gostava da única pessoa que me dava bola porque eu era gordinha”, relembra a Giulia, ressaltando que, mesmo assim, seguiu se relacionando com a então namorada.

Ela conta que chegou até a se mudar para a Bahia e passar seis meses lá, mas o relacionamento chegou ao fim e ela voltou para São Paulo, sendo recebida com questionamentos por parte da mãe. “Ela ficou tipo: ‘E agora, o que você vai fazer? Vai continuar ficando com mulheres?’. Eu falei pra ela que não sabia e que ia tentar ver, mas nunca mais me interessei por homens”, afirma.

A moça diz que o pai (que é separado da mãe) também não aceitou a sexualidade dela nada bem, mas conta que os dois não têm uma relação próxima, então não faz muita diferença. Em compensação, o padrasto, que mora com ela e a mãe, foi de grande ajuda para Giulia. “Ele falou para a minha mãe que eu ia continuar sendo eu mesma, que era para ela me aceitar e tudo mais”, conta. Quanto ao restante da família, Giulia conta que foi recebida de braços abertos.

Mais recentemente, no final de 2016, a moça iniciou outro relacionamento com uma mulher que namora até hoje. Esta foi a primeira pessoa que Giulia levou para casa e, apesar de a mãe até hoje se mostrar um tanto homofóbica , tornou-se amiga da nova namorada da moça. “Ela não aceita 100%, digamos que aceita 90%, o que é muito bom para mim”, conclui.

Dilema de uma bissexual diante dos pais

Para quem pensa que as coisas são mais fáceis para quem é bissexual, há muitos que provam o contrário. Helena (nome fictício), por exemplo, sabe que é bi desde os 13 anos e, nessa idade, uma pessoa contou aos pais dela que ela gostava de mulheres. Dos 13 aos 22 anos (idade atual), ela viveu sob a desconfiança dos pais, que controlavam tudo o que podiam da vida dela enquanto ela se sentia obrigada a mentir sobre a sexualidade para não desagradá-los.

Helena chegou a ter mais de um relacionamento com mulher, sempre escondida dos pais. Recentemente, porém, a desconfiança da mãe se transformou em um interrogatório que culminou na moça precisando assumir a sexualidade para os pais. “Meu pai gritava que não ia financiar aquilo, chorou e disse que não tinha me criado para isso e os dois passaram semanas sem olhar na minha cara direito”, relembra.

Meu pai gritava que não ia financiar aquilo, chorou e disse que não tinha me criado para isso e os dois passaram semanas sem olhar na minha cara direito”

Helena conta que, hoje, os pais parecem esquecer que ela é bissexual e, de vez em quando, se lembram que ela tem uma namorada e ficam irritados novamente. Ainda assim, a jovem encontrou apoio no restante da família, incluindo avós, primos, a irmã e alguns tios. Um deles inclusive é gay e ficou bastante emocionado quando a sobrinha saiu do armário, apoiando incondicionalmente.

E quando os pais descobrem que o filho é gay?

Há, porém, casos que dão alguma esperança em quem tem medo de se assumir LGBT para a família. Rodrigo, 20, por exemplo, se abriu sobre a sexualidade para os pais durante uma briga com o irmão, que já sabia do fato. “Ele começou a falar que eu poderia ser gay, mas não devia ter trejeitos porque as pessoas zoavam. Nisso, a gente começou a discutir, se empurrar e se socar. Minha mãe e meu pai acordaram, vieram até a cozinha e perguntaram o que estava acontecendo. Eu já estava muito irritado e falei: ‘Seu filho não aguenta o fato de que eu sou gay ’”, relembra o rapaz.

Hoje em dia a gente conversa sobre tudo e minha mãe até me manda fotos de homens"

Rodrigo conta que, de início, os pais ficaram estranhos com ele, mas hoje está tudo bem. “Hoje em dia a gente conversa sobre tudo e minha mãe até me manda fotos de homens, e eu mando fotos de homens para ela”, diz o jovem, ressaltando que os pais já desconfiavam que o filho era LGBT e estavam apenas aguardando uma confirmação. Segundo ele, com o tempo, o irmão também percebeu que o próprio modo de pensar estava errado e, hoje, o aceita como ele é.

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Existe um caminho "correto"?

De acordo com a psicóloga Sarah Lopes, não há uma fórmula que facilite a vida de pessoas LGBT na hora de elas se assumirem para os pais. Ela afirma que pessoas de mais idade não costumam estar habituadas com esse tipo de “mudança”, gerando, muitas vezes, uma reação ruim. No entanto, há algumas atitudes que podem amenizar um pouco o impacto. “O ideal é procurar saber dentro do contexto familiar quem poderá ser mais aberto a esta informação, se a mãe, o pai ou até um irmão. Isto vai servir como uma rede de apoio”, explica Sarah. Esse aspecto se mostra verdadeiro tanto na história de Téo, com o pai, quanto na de Giulia, Helena e Rodrigo, com irmãos e tios.

Segundo a psicóloga, normalmente há uma tendência de que as coisas voltem ao lugar em algum momento, e incentiva pessoas LGBT a se assumirem. “Mesmo diante de tudo o que pode ocorrer, é importante ter em mente que a verdade é libertadora”, finaliza.

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