Os hormônios ajudam a mudar o corpo para o gênero com o qual a pessoa se identifica, mas é preciso acompanhamento de perto para evitar complicações

Ela nasceu menina, mas na verdade se identifica como um menino. Ou a situação pode ser inversa, de um homem se identificar como mulher. São casos de pessoas que passam por transição de gênero. Elas podem mudar o visual, adotando roupas e cortes de cabelo do gênero com o qual se identificam, mas há também a opção de fazer tratamento com hormônios e até cirurgia de resignação sexual. 

Leia também: A importância de discutir o tema os transgêneros em "A Força do Querer” 

Ivana e Ivan: Carol Duarte vive uma personagem que faz uso de hormônios e passa pela transição de gênero na novela da Rede Globo 'A Força do Querer'
Divulgação/TV Globo
Ivana e Ivan: Carol Duarte vive uma personagem que faz uso de hormônios e passa pela transição de gênero na novela da Rede Globo 'A Força do Querer'


A ideia de tomar hormônios está sendo bastante discutida no momento graças à personagem Ivana, vivida por Carol Duarte, na novela global "A Força do Querer". Ivana nasceu menina, mas se descobre um homem trans e, durante a transição, faz uso de hormônios. Na trama, a personagem já apresenta os primeiros fios de barba e uma notável diferença na voz.

Mas afinal, o que essa substância faz com o corpo? Quais os riscos de aplicar testosterona? Quem deseja passar por uma transição, o que deve fazer? É possível reverter os efeitos no futuro? São muitas as dúvidas que surgem a respeito do tema e, por isso, o iGay conversou com a Médica de Família e Comunidade Ana Amorim para entender o assunto. 

Quais os hormônios utilizados e se efeitos?

Ivana, personagem da trama de Gloria Perez, passou a tomar testosterona quando começou a transição para o gênero masculino. Segundo Ana, esse hormônio provoca alterações no corpo como tornar a voz mais grossa e a pilificação, que é o aumento dos pêlos. O uso também pode causar a escassez da menstruação ou fazer com que ela pare por completo. 

Ele atua também diminuindo a gordura acumulada na região das mamas e da barriga. “O rosto também costuma mudar e tende a ficar mais ‘quadrado’”, diz Ana. “A testosterona também pode fazer crescer o gogó, aquela saliência no pescoço que homens cisgêneros têm”, completa.

Um dos desejos de Ivan, personagem de 'A Força do Querer', é fazer a barba. Com os hormônios, ele já apresenta pelos no rosto
Divulgação/TV Globo
Um dos desejos de Ivan, personagem de 'A Força do Querer', é fazer a barba. Com os hormônios, ele já apresenta pelos no rosto

O hormônio ainda causa mudanças na pele, como uma produção maior de oleosidade e que, em algumas situações, é preciso um tratamento para corrigir. “É muito semelhante com os que adolescentes passam durante a puberdade”, explica a médica. “Também ocorre uma diminuição da pele da vagina, o que pode causar uma maior sensibilidade na região”.

Quando se trata de um homem fazendo a transição para o gênero feminino, o hormônio usado é o estrogênio . Também há medicamentos que bloqueiam a testostorona. E os efeitos disso são os opostos aos do hormônio masculino. “A pele fica mais fina e a pessoa pode perceber uma melhora nas acnes, principalmente se ela toma medicamentos que bloqueiam a testosterona”, afirma Ana. “A gordura do corpo fica diferente: as mamas crescem e a gordura se acumula nos quadris e nas coxas. Também é possível que se diminua a quantidade de músculos”, detalha a endocronilogista.

É muito comum ter uma diminuição da líbido e, se a pessoa tiver pênis, também há diminuição da ereção. A produção de espermatozóides é reduzida, o que faz diminuir o testículo. Isso pode causar uma infertilidade que pode ser transitória ou até mesmo permanente.

Os pêlos do corpo podem diminuir tanto em tamanho quanto em quantidade. Mas, apesar disso, quem tem tendência a ter calvície ainda pode se tornar calvo. 

Quais os riscos do tratamento hormonal na transição de gênero?

É importante ressaltar que todo processo de transicão deve ser acompanhado por médicos e profissionais. Assim como em todo tipo de medicamento, existem efeitos colaterais e riscos de doenças com o uso inadequado de hormônios. 

“Podem acontecer problemas no fígado, na coagulação do sangue e nos rins. Dependendo do tipo de hormônio usado, os riscos de trombose, infarto e derrame aumentam ”, explica a médica. Ainda é preciso cuidado com a interação do hormônio com outros medicamentos que a pessoa já faz uso. 

Outra característica que pode ser afetada é o humor. “É muito comum pessoas que usam doses altas e inadequadas sentirem muita tristeza ou ficarem muito irritadas, o que pode acarretar ou agravar problemas emocionais”, fala Ana.

Sem acompanhamento, ainda há o risco de a pessoa que está passando pela transição se decepcionar com a transformação do corpo graças a um efeito não esperado ou não conhecido do hormônio. 

Quem faz o acompanhamento no processo de transição?

Segundo a endocronogista, uma série de profissionais deve ser envolvida neste momento para que tudo ocorra de maneira segura. O primeiro passo, de acordo Ana, é sempre consultar um médico para conhecer os riscos e os efeitos dos hormônios. A automedicação é altamente repreendida. 

Ao se optar de fato pela transição com processo hormonal, diversos profissionais acompanham o paciente, como médicos, psicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas,  educadores físicos e assistentes sociais. Eles irão avaliar e cuidar de aspectos físicos e emocionais da pessoa em tratamento.

E um dilema que ainda existe na área médica é sobre o momento de começar a transição. Alguns países já reconhecem direitos plenos aos transexuais e oferecerem até dentro do sistema público de saúde o bloqueio da puberdade das crianças que se reconhecem como transexuais, mas o Brasil ainda não tem isso tão claro dentro das suas áreas técnicas de profissionais de saúde.

Os hormônios provocam mudanças corporais e ainda há discussão sobre o momento adequado para começar a fazer uso deles
shutterstock
Os hormônios provocam mudanças corporais e ainda há discussão sobre o momento adequado para começar a fazer uso deles

“Ainda há uma disputa muito grande de algumas categorias, embora a melhor recomendação que temos no momento é que, se a criança realmente não se identificar com as transformações corporais que vão acontecer com ela, que esse puberdade seja bloqueada para esperar até que a criança possa refletir e, na pior das hipóteses, retardar o desenvolvimento corporal”, explica Ana.

Entretanto, não há uma idade definida para a puberdade, portanto, ainda cabe o bom senso do profissional e até da família e do paciente. "Alguns profissionais só estabelecem o tratamento com hormônios a partir dos 18 anos”, afirma a médica.

O que não é recomendado é começar o tratamento ainda na infância, até porque, de acordo com Ana, "se os hormônios forem oferecidos muito cedo pode prejudicar o desenvolvimento ósseo da pessoa e ela acaba não crescendo o suficiente".

Leia também: Garota transgênero faz transição com apenas 10 anos; veja detalhes do processo

Quero parar de tomar hormônios. E agora?           

Ainda há casos de as pessoas desistirem da transição - seja porque estão insatisfeitas com o resultado do hormônio ou por qualquer outra questão. Ana diz que alguns efeitos dos medicamentos, como pelos pelo corpo, podem diminuir em um ou dois anos, mas que isso depende de paciente para paciente. “O corpo não é um campo de ciência exata e isso não acontece com todo mundo nas mesmas proporções”, comenta a médica. 

Alguns efeitos, entretanto, são irreversíveis, como os relacionados a calvice. Se a pessoa já tem uma tendência genética para isso, o uso de testosterona só irá agravar a situação. 

Gravidez de transgênero

Outro assunto que chama a atenção na mídia e pode causar repercussão na novela "A Força do Querer" é a gravidez de homens trans. Segundo o roteiro da novela, Ivana/Ivan vai engravidar. Recentemente, casos como o Trystan Reese, um homem transgênero que gerou o filho com o marido, ganharam destaque em jornais de todo o mundo. 

Leia também: Homem transgênero apresenta o primeiro filho biológico e dá detalhes da gravidez

Trystan Reese posa ao lado do marido durante a gravidez
Reprodução/Facebook/Biff and I
Trystan Reese posa ao lado do marido durante a gravidez

A médica explica que o fato de a pessoa não se identificar com o gênero de nascimento não a faz deixar de ter desejo de ser pai ou mãe. E se o homem trans quer gerar uma criança, ele pode, já que o tratamento com os hormônios não o tornará infertil. É preciso interromper a transição e dar o tempo para o corpo voltar a agir como feminino. "O fato de a pessoa parar de tomar testosterona já faz com que os ovários voltem a produzir ovócitos e o útero volte a produzir o endométrio. Então, na maioria dos casos, logo a pessoa volta a ser fértil e pode engravidar", diz Ana. 

Apesar de alguns efeitos serem revertidos e ser até possível uma gravidez no futuro, vale ressaltar que não se deve tomar hormônios por conta própria e que toda a transição, ou mesmo a transição e uma gestação, devem ser acompanhadas por profissionais. 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.