Alex Tietre, 37, ator, diretor, estudante de jornalismo e blogueiro rebate neste depoimento o sentimento de superioridade adotado para falar sobre a vida sexual dos gays

"Gays são promíscuos". Esse tipo de pensamento é muito comum e resolvi escrever porque uma colega da faculdade de Jornalismo disse em alto em bom som na sala de aula: "Gays são promíscuos". Eu não podia deixar por isso mesmo, chamei-a de preconceituosa, comecei uma discussão e ela disse que os gays que conhece são, sim, promíscuos. Usei argumentos, me defendi, falei por mim e por meus amigos gays. Felizmente todos os outros alunos ficaram contra ela e resolvi estender a discussão escrevendo este texto.

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Ouvimos essa afirmação com frequência e, ao contrário do que alguns podem achar, não são pensamentos exclusivos de religiosos ou de pessoas sem instrução. Dentro de nossas próprias famílias, na faculdade ou nos depoimentos das celebridades também é comum ouvir essa declaração. Se chamadas de preconceituosas, essas pessoas se ofendem e usam como defesa outro lugar-comum: "Eu tenho amigos gays".

As pessoas podem até basear sua opinião em três ou quatro gays de seu círculo, mas isso não lhes dá o direito de generalizar, dizendo que "gays são promíscuos". Com certeza essas mesmas pessoas também conhecem alguns heterossexuais "promíscuos".

De fetiche a promiscuidade

Em nossa sociedade, é considerado "natural" homens heterossexuais desejarem ter relações sexuais com mais de uma mulher ao mesmo tempo, isso pode simplesmente ser considerado um fetiche. Entre os gays, o nome muda para "promiscuidade".

Um gay comentar que o 'bofe' na praia é gostoso pode ser motivo suficiente para ser tachado de promíscuo. Um hétero dizendo que a mulher tomando sol é gostosa é visto como um cara atento

Um gay comentar que o "bofe" na praia é gostoso pode ser motivo suficiente para que seja tachado de promíscuo. Um hétero dizendo que a mulher tomando sol é gostosa é visto como um comentário comum.

O gay é mais aceito à medida que mantém uma postura mais masculina. Para uma lésbica, o ideal é que não pareça uma "caminhoneira", que seja mais feminina. O fundamental é entendermos que, desde o gay afeminado à "sapatão", ninguém é igual a ninguém, mas somos todos humanos e nossos trejeitos não definem se somos ou não promíscuos. E mesmo que alguns sejam, ninguém tem o direito de julgar as relações sexuais do outro e tomá-las como parâmetro de sua integridade como pessoa.

O fundamental é entendermos que, desde o gay afeminado à sapatão, ninguém é igual a ninguém. Somos todos humanos e trejeitos não definem se somos promíscuos

Fomos e ainda somos colocados à margem da sociedade. Felizmente isso está mudando, mas ainda falta muito. Um simples beijo na TV em rede nacional gera polêmica, homens andando de mãos dadas podem ser assassinados, amigos se abraçando são espancados por estar fazendo propaganda do modo de vida gay. Por essas e outras razões, gays se obrigaram por muito tempo a frequentar guetos para encontrar um parceiro. Até hoje os chamados pontos de pegação existem em várias cidades.

Casais gays também querem ter família, filhos, cachorro e papagaio. Casais héteros também querem se divertir e curtir a liberdade além dos carnavais. Isso é uma prova de que temos os mesmos desejos, mas não os mesmos direitos, e é por isso que lutamos.

Casais gays também querem ter família, filhos, cachorro e papagaio. Casais héteros também querem se divertir e curtir a liberdade. Temos os mesmos desejos, mas não os mesmos direitos, e é por isso que lutamos

O que não podemos admitir é que preconceituosos continuem dizendo em postura de superioridade que gays são "promíscuos", como se héteros fossem "puros". Esse tipo de frase é o que reforça o preconceito e a violência. É esse tipo de ignorância que faz com que jovens cometam suicídio. É esse tipo de pensamento que faz com que gays, travestis, lésbicas e transexuais sejam assassinados todos os dias e até mesmo crianças sejam espancadas até a morte para aprenderem como é "ser homem" ou "ser mulher". Se ser homem é ser agressivo, prefiro não ser chamado de homem. Enquanto sou "bicha", brigo pelos meus direitos e exijo respeito.

* Alex Tietre mantém o blog  Ser Gay é Mara

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