Há três meses, Renata Santos retomou os estudos que tinha abandonado em 2002, na 8ª série. A oportunidade surgiu com o projeto Transcidadania, que ofereceu bolsas de estudo para 100 pessoas trans. Para ela, é a chance de recuperar o tempo perdido, descobrir que é boa de matemática - e mudar de vida

São 14h30 de um dia da semana e Renata Santos, 30, quase não tem tempo para conversar com a reportagem do iGay. Ela está atrasada para as aulas no Cieja (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos) Cambuci. Vai tomar um ônibus de sua casa, no centro de São Paulo, até lá. Durante o trajeto, que dura cerca de 20 minutos, a aluna do projeto Transcidadania conta sobre sua nova vida. "Estou muito feliz em retomar a rotina de estudos. Fico até triste quando não tem aula", diz.

Em frente ao Cieja, quem vai chegando para o período da tarde sorri e cumprimenta Renata rapidamente: a aula das 15h já vai começar. Para as trans e travestis que estão nesta turma, participar do Transcidadania foi uma transformação. As aulas começaram no dia 4 de fevereiro de 2015 e são a primeira experiência do projeto, que ofereceu bolsas de estudos de R$ 827,40 mensais para incentivar 100 trans e travestis a abandonar a prostituição.

No fim do mês, a coordenação de políticas LGBTs da prefeitura vai mostrar para o prefeito Fernando Haddad a primeira avaliação do programa e propor sua ampliação para o próximo semestre. "Já tem uma lista de 150 pessoas inscritas para o Transcidadania", diz o coordenador Alessandro Melchior. "Todo dia tem alguém lá no Centro de Cidadania LGBT buscando informação." No Centro de Cidadania, no Arouche, é feita a primeira triagem e seleção das participantes.   

"O dinheiro ajuda muito, dá para viver uma vida simples sem deixar de estudar", diz Renata, que faz sua parte para aumentar a lista de espera: recomenda o Transcidadania a todas que encontra ainda ganhando a vida na rua. 

Renata largou a prostituição em janeiro, pouco antes de sair o resultado do projeto, ainda sem mesmo saber como ia conseguir seu sustento. Hoje, além da escola, atua na ONG Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD) distribuindo preservativos para as mulheres nas ruas e as incentivando a participar das oficinas de cabeleireiro e maquiagem que a ONG oferece.

Tudo menos matemática

A vida de Renata Santos tem início em Fortaleza, capital do Ceará. Ela já fez de tudo: foi monitora de lan house, trabalhou ajudando a tia a confeccionar e vender roupas, deu aulas de reforço a alunos da 1ª à 4ª série. "Menos de matemática, nunca me dei bem com essa matéria", explica.

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Também trabalhou vendendo cartões de poesia no projeto Amigos da Alegria. "Não levava muito jeito porque tinha de ser meio humorista para fazer isso e eu não era nada engraçada", conta. Fez também um curso de office boy, mas não conseguiu o emprego.

Vim para ser livre, viver do jeito que eu gosto. São Paulo foi só um cenário

Oito anos atrás, Renata se mudou para São Paulo. "Vim para ser livre, viver do jeito que eu gosto. São Paulo foi só um cenário". Ela conta que as amigas que haviam migrado para a capital paulista a incentivavam a vir também. "Um dia coloquei a mochilinha nas costas e vim".

Ela chegou sabendo que ia trabalhar com prostituição, mas relata que foi um choque assim mesmo. "Fiquei muito triste em São Paulo, chorei muito. Mas não tinha como voltar, estava cheia de dívidas". Trabalhando em cinemas de sexo e quase nunca nas ruas, Renata conseguiu juntar dinheiro para colocar silicone.

Em seu primeiro ano em São Paulo, morou na pensão de uma cafetina. "Era uma realidade da qual eu não gostava. Sempre fui meio 'velhinha'. Gosto de dormir cedo, tenho uma rotina meio enfadonha". Ela conta que fazia seus programas pela manhã e dormia à noite, diferente das cerca de dez mulheres que moravam com ela e acabavam atrapalhando seu sono.

Depois da pensão, morou um ano em hotéis e foi fazendo amigas. Hoje ela divide um apartamento com uma amiga na região central de São Paulo e diz que a vida está bem melhor.

"Todo mundo olha torto"

A vida mudou bastante, estou me sentindo feliz e acho que a tendência é melhorar

Renata conta que tinha vontade de largar a prostituição e voltar a estudar desde 2011. Em janeiro de 2015, resolveu parar antes mesmo de saber se seria selecionada para o Transcidadania. "A vida mudou bastante, estou me sentindo feliz e acho que a tendência é melhorar".

Seu sonho para o curto prazo é conquistar um emprego formal, na administração ou em serviços como recepcionista, que envolvam contato com outras pessoas. Futuramente, ela diz que pretende retomar um sonho antigo: fazer graduação em Letras.

Quando você é 'gayzinho', todo mundo aceita, mas quando começa a se ‘travestilizar’, o povo olha torto

"Eu era bem estudiosa na época da escola. Até ganhei prêmio em um concurso de redação e isso foi um marco para mim. Foi quando eu pensei em fazer Letras, mas o destino foi mudando as coisas", diz. "Nem eu sei porque larguei os estudos. Acho que foi um pouco devido ao bullying. Quando você é 'gayzinho', todo mundo aceita, mas quando começa a se ‘travestilizar’, o povo olha torto".

Ela conta que sentiu falta da rotina escolar, interrompida em 2002, na 8ª série. "Estou amando retomar, sempre gostei de estudar. E a escola é perfeita. Desde as alunas até as funcionárias, todo mundo me trata bem. Todas se ajudam".

Estou amando retomar, sempre gostei de estudar. E a escola é perfeita. Desde as alunas até as funcionárias, todo mundo me trata bem. Todas se ajudam

Suas disciplinas favoritas são história, português e artes, mas não gosta das aulas de Informática, que considera "sem graça". E uma surpresa: descobriu que é boa em matemática. "Achava que era ruim, mas estou me dando muito bem". Renata tem pela frente uma jornada de dois anos, em que concluirá o supletivo e passará por um curso técnico, que deve ter início em breve.

Se for se basear no exemplo de Renata, o projeto Transcidadania tem tudo para crescer e se multiplicar. A primeira turma, da qual Renata faz parte, terá a bolsa de estudos por dois anos e assistência para se inserir no mercado de trabalho.

Centro de Cidadania LGBT - Rua do Arouche, 23, 4º andar - República
Horário de funcionamento: de segunda à sexta-feira, das 9h às 21h



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