Em 2014, a doutoranda em Teoria Literária pela Unicamp foi passar o feriado de 1º de maio em São Paulo e pela primeira vez levou unicamente roupas femininas na mala. Voltou para casa vestida assim e se apresentou à família como mulher

Quando tinha 15 anos, Amara Moira, 30, conheceu outras travestis, mas sentiu que para ela ainda era cedo demais. Apesar da vontade que nutria de vestir roupas femininas, tinha medo. "Não daria conta daquilo, de lidar com as consequências de me assumir". Aos 18, a mãe dela chegou a perguntar se ela era travesti e a resposta foi 'não'. "Ela viu antes de mim o que estava acontecendo, uma visionária", brinca. "Eu sabia que depois da primeira vez que me vestisse de mulher eu não poderia mais controlar".

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Minha ideia era assumir depois que eu terminasse o doutorado e fosse professora universitária. Mas veio antes do que eu esperava

O desejo ficou insuportável no carnaval de 2014. "Minha ideia era assumir depois que eu terminasse o doutorado e fosse professora universitária. Mas veio antes do que eu esperava", diz. Como sabia que travestis e transexuais travam uma batalha dura para conquistar o respeito das pessoas, seu plano era ser uma professora conceituada antes de se assumir. Mas os fatos atropelaram a sua razão.

Eu sei o que você fez no carnaval passado

O que começou com uma brincadeira no primeiro dia de carnaval repetiu-se nos outros dias de festa. Depois, vestiu-se com roupas femininas na festa de aniversário de um primo e novamente em um ato pelo Dia da Mulher - e foi ficando cada vez mais à vontade. A namorada não conseguiu lidar com a situação e terminou o relacionamento. A transição teve início logo depois. No começo, vestia saia e, para as pessoas, usava a desculpa de que estava "combatendo o sexismo".

No dia 1º de maio de 2014, Moira viajou de Campinas, cidade onde nasceu e mora até hoje, para São Paulo, onde acompanharia uma feira LGBT. Foi a primeira vez em que colocou somente roupas femininas na mala. Até então, ela ainda não se vestia como mulher frequentemente e nem pedia para amigos e família a chamarem pelo nome feminino.

Moira chegou a São Paulo usando peruca e suas novas roupas, que havia comprado em um crediário no dia anterior. "Comecei a pedir para as pessoas que estava conhecendo naquele momento que se pudessem me chamar de Amara, eu preferiria."

Ela se lembra do momento em que estava andando pela rua e uma idosa a parou para dizer que alguma coisa estava errada com a sua roupa. "Gelei. Imaginei que ela ia me criticar, mas ela disse: 'A etiqueta está para fora'. Foi um alívio, eu estava tão insegura sobre o que as pessoas estavam pensando de mim e a etiqueta era a única coisa que estava fora do lugar".

Dois nomes e dois gêneros

Depois dos dias que passou em São Paulo, Moira voltou para Campinas vestida de mulher. Era o aniversário de 92 anos da sua avó e a família a esperava na rodoviária. Suas roupas novas e a maquiagem foram motivo de choro para os familiares.

Minha mãe entrou numa fase bipolar, em um dia chorava e no outro me ajudava com a maquiagem

A tensão continuou nos dias seguintes. "Minha mãe entrou numa fase bipolar, em um dia chorava e no outro me ajudava com a maquiagem", conta. Os pais não conseguiam tratá-la no feminino, mas em momento algum pediram que ela saísse de casa. Ainda assim, ela optou por sair e procurar um lugar onde fosse plenamente aceita. "Ter dois nomes e dois gêneros por dia estava me deixando louca."

Em junho de 2014, Moira mudou-se para uma república. Logo depois, procurou suas amigas travestis em Itatinga, bairro de Campinas conhecido pela prostituição. Foi então que veio a pergunta que deu nome ao blog  que ela mantém até hoje: "E se eu fosse puta?".

O simples questionamento fez com que uma amiga rompesse relações com ela. Moira começou a escrever sobre essa questão para tentar entender melhor as coisas. Em seu blog, foi tocando até mesmo em assuntos de que ela tinha evitado falar até então.

Cada homem que passa e escolhe outra faz você se sentir um lixo e querer gastar mais ainda para ficar bonita

Cinquenta reais o programa completo no quarto, 30 reais se o programa for no estacionamento e 20 reais se for somente sexo oral: esse é o preço da rua. Subtraindo-se cerca de 30 reais com gastos na região e passagem de ida e volta de ônibus, é preciso fazer pelo menos um programa completo para cobrir as despesas da noite. "Cada homem que passa e escolhe outra faz você se sentir um lixo e querer gastar mais ainda para ficar bonita", diz.

Sua primeira noite como prostituta foi em novembro de 2014. "Fiz três programas e fiquei muito excitada nos três", conta. Depois da estreia, Moira foi descobrindo que era uma vida difícil. Os homens desrespeitavam, tentavam fazer sexo à força ou sem preservativo. As amigas da rua diziam que isso era "normal" e que ela deveria se acostumar.

A sociedade acha que é um combo: se você é travesti, é obrigada a se prostituir e ficar em silêncio. Eu fiz o caminho contrário. Quis me prostituir e falar sobre isso

Moira começou a contar sobre os programas no blog. "Teve uma repercussão gigante, as pessoas enlouqueceram. A sociedade acha que é um combo: se você é travesti, é obrigada a se prostituir e ficar em silêncio. Eu fiz o caminho contrário. Quis me prostituir e quis falar sobre isso."

Moira continua fazendo programas esporadicamente, pois a vida acadêmica ocupa bastante de seu tempo. Ela conta que tem tentado levar noções de feminismo e empoderamento às prostitutas, além de estimulá-las a retomar seus estudos e prestar vestibular.

E conseguiu levar o debate sobre prostituição à Unicamp, onde houve discussões e uma palestra com a presença de amigas que contaram suas experiências. Moira explica que continua se prostituindo principalmente para fazer a ponte entre a rua e a universidade, legitimando o debate. "Se tivesse alguém para fazer isso no meu lugar, eu pararia, mas não tem".

Que banheiro usar?

"É sempre uma experiência de medo para uma mulher travesti ou transexual usar o banheiro masculino. E o feminino também não é uma experiência agradável, as mulheres ficam encarando". Moira conta que já foi vítima de discriminação por dois guardas na rodoviária de Campinas após usar o banheiro feminino.

É sempre uma experiência de medo para uma mulher travesti ou transexual usar o banheiro masculino. E o feminino também não é uma experiência agradável, as mulheres ficam encarando

O momento de maior violência e medo que já sofreu, segundo ela, foi durante um dos protestos contra a Copa do Mundo, em São Paulo, em 2014. Policiais militares separaram um grupo de manifestantes e dividiram mulheres e homens para revista. Uma policial militar se recusou a revistar Moira e chamou um homem da corporação, que a obrigou a falar o nome que consta em seu RG em voz alta. Depois disso, ele disse que ela seria presa se não se deixasse revistar e ela acabou permitindo.

Presente de Natal

No Natal de 2014, seu pai a chamou de Amara pela primeira vez. Além disso, fez um reconhecimento público ante os familiares, demonstrando sua admiração pela forma como a filha se assumiu e ignorou os preconceitos da sociedade. Para a filha, foi uma surpresa: "Eu não sabia disso, porque meses antes ele tinha falado que estava sendo muito difícil para ele". Mãe e avó ainda não conseguiram tratá-la pelo nome feminino, mas aprenderam a respeitá-la.

Assista ao video da participação de Amara para a campanha  Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito :

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