Winston Giacaman Terraza, 34, formado em desenho industrial, e Fabio Bogdanic Molina, 32, estudante de Direito, são chilenos e namoram há mais de cinco anos. O casal deu depoimento ao iG sobre a lei que reconheceu a união civil para casais do mesmo sexo no país. Leia o texto


A promulgação do Acordo de União Civil (AUC), neste mês de abril, é importante para toda a sociedade, já que a lei dá visibilidade não somente a homossexuais, mas também àqueles que não desejam se casar, mas precisam de um instrumento para sejam reconhecidos legalmente como casais.

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Para a comunidade gay, é importante destacar que essa lei nos dá visibilidade pela primeira vez no que diz respeito a temas de união familiar ante o Estado, promovendo a inclusão.

Haverá uma mudança, ainda que gradual, na sociedade chilena. Para a comunidade homossexual do Chile será uma grande mudança, não somente pelo feito de o Estado legalizar nossa união e nos reconhecer como casal, mas também porque nos coloca um degrau acima para conquistar a igualdade de direitos.

Deve-se deixar claro que ainda estamos longe do que buscamos em termos de união. A meta é que possamos celebrar um matrimônio igualitário, sem diferenças, e, dessa forma, poder ter os mesmos direitos e deveres que os casais heterossexuais.

Devemos lembrar que o Chile, por mais globalizado que seja, ainda é um país onde existe um setor bastante conservador que, com base em seus princípios, tem valores que dividem as pessoas em categorias de "pessoas melhores" e "pessoas piores". É neste âmbito que entra a Lei de Acordo de União Civil (AUC), que visa a uma sociedade igualitária ante os direitos e deveres das pessoas.

Ser gay no Chile

Nós dois nunca tivemos problemas por sermos homossexuais. Nossas famílias, amigos e conhecidos sabem que somos um casal e em nenhum momento tivemos problemas. Mas isso se deve ao fato de que sempre nos apresentamos como casal gay e nunca deixamos espaço para a discriminação. Acreditamos que fazer valer seus direitos é uma opção do casal. Homossexuais nunca devem se deixar levar por pessoas que os consideram pessoas "de segunda classe".

Existe uma coisa que sempre nos chama muito a atenção: que ainda existam gays dentro do armário. São eles mesmos que vão se segregando, mentindo e se ocultando. Mas concordamos que cada um sabe a hora de sair do armário.

A homofobia está perdendo terreno - e isso é bom - mas ainda está presente. A homofobia se enraíza no machismo endossado por muitos no Chile, tanto homens quanto mulheres, incluindo homossexuais. A "norma hétero", tanto na forma de se vestir quanto na forma de se comportar, é desculpa para a discriminação.

Vemos e ouvimos diariamente a agressão que as pessoas transexuais sofrem e a discriminação entre os gêneros que diferentes leis chilenas promovem. Isso é muito preocupante se pensarmos que nem sequer os atores reconhecidos pela sociedade - homens e mulheres heterossexuais - conquistaram a igualdade.

A principal coisa que precisa mudar no Chile é separar religião de política. É um caminho difícil, mas não impossível. As religiões, principalmente as de pensamento mais extremo, são importantes focos de homofobia.

O problema é que a religião move as massas, impondo suas leis próprias que não influenciam somente os devotos, mas toda a sociedade. Em vez de promover a compreensão, a religião impede as pessoas de enxergarem a diversidade e o fato de que nem todos pensam da mesma forma.

O machismo, por sua vez, é responsável por uma discriminação que afeta vários setores da sociedade, incluindo mulheres, homossexuais ou transexuais.

É necessário que seja criado um órgão público que dê visibilidade e eduque para a diversidade, não somente sexual, mas diversidade em todos os sentidos. Toda intolerância, discriminação e ódio ao diferente se combate com educação e políticas públicas eficazes."

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