Localizado no centro religioso da cidade, o estabelecimento existe desde a década de 60 e exibe filmes pornográficos até hoje. Frequentado pelo público LGBT, o local inspirou a criação de um documentário

O Cine Ópera começou como cinema de arte em 1960 e hoje exibe filmes pornográficos em Belém, no Pará. Ironicamente, fica no quadrilátero por onde passa o Círio de Nazaré, procissão católica tradicional na região. As inúmeras histórias que o local abrigava despertaram a curiosidade do artista multimídia Victor de La Rocque, 29. "Frequentei o lugar durante um tempo e sempre tive inquietação de fazer alguma coisa sobre o cinema, mas não sabia exatamente o quê", conta.

Assista ao trailer do filme:


Para o artista, havia a necessidade de documentar o Cine Ópera. "Eu o considero um espaço de resistência na cidade. Há uma geração que viveu experimentou a liberdade sexual através do Ópera. É um local marginalizado, mesmo estando no centro, e contar essa história é legitimar o espaço", diz.

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Com uma bolsa de experimentação artística que obteve junto ao Instituto de Artes do Pará, vinculado ao Governo do Estado, em 2012, conseguiu colocar a ideia no documentário "Opéra: o Bonzão Bonitão", que ele considera um "romance da formação gay na Amazônia". A frase é de um dos entrevistados para o filme, Ernani Chaves, filósofo e professor da Universidade Federal do Pará, e De La Rocque assina embaixo.

"Meu trabalho é dentro das artes visuais, nunca tinha trabalhado com cinema na minha vida. O projeto foi um desafio, eu não tinha conhecimento nenhum", diz De La Rocque. Ele é formado em Artes Visuais pela Universidade da Amazônia e mestrando em Arte Contemporânea pela Universidade de Brasília.

Financiamento

Com a verba, foi possível gravar o filme e até organizar uma preestreia no próprio Cine Ópera, em 2013. No entanto, De La Rocque calcula que ainda faltam 15 mil reais para que o filme possa ser finalizado e, por isso, colocou o projeto em um site para arrecadações. Para contribuir, basta acessar o site .

Veja imagens da produção do filme:


Sagrado x profano

O Cine Ópera nem sempre conviveu em paz com toda a religiosidade que marca a cidade e o nome "Bonzão Bonitão" é a prova disso. A entrada recebia os nomes dos filmes pornográficos, frequentemente contendo termos relacionados ao sexo. Isso incomodou igrejas locais e, após reclamações, o cinema mudou a fachada.

Recentemente, uma igreja evangélica manifestou interesse em adquirir o terreno, mas o acordo foi recusado. "Graças a deus isso não aconteceu", brinca La Rocque. Ele diz que o Cine Ópera é um dos únicos cinemas de rua - ou quase de rua, fica dentro de uma galeria - que a cidade ainda tem.

Durante o Círio de Nazaré, que ocorre em outubro, o cinema não deixa de funcionar. Profano e sagrado dividem o mesmo espaço e algumas pessoas que chegam à cidade para o evento religioso até entram no cinema, por curiosidade.

Tabu

Os filmes costumam mostrar sexo heterossexual. Mas quem frequenta o cinema é o público LGBT. Antes de começar a gravar, De La Rocque frequentou o cinema durante seis meses para conhecer a história do local e do público que o frequentava.

"É um espaço de convivência, de amizade, tem toda uma rede de acessos dentro daquele cinema e quem passa de fora não vê. As pessoas de Belém não têm coragem de entrar lá. Quando entram, fazem isso escondidas".

A ideia era entrevistar somente pessoas que concordassem em mostrar seus rostos, mas logo de início o artista percebeu que isso não seria possível. Entre os frequentadores, ele encontrou garotos de programa e homens casados, que não quiseram revelar sua identidade.

O artista encontrou também a travesti Raíssa Gorbachoff, que sonhava ser famosa e participar do programa do Silvio Santos, mas acabou tomando outros rumos e sendo presa. De volta à liberdade, deu início a um trabalho social com travestis que frequentavam o Cine Ópera. De La Rocque conta que a travesti foi uma das principais entrevistadas do filme e foi com pesar que ele recebeu a notícia de que ela havia morrido. "Foi muito triste", conta.

O público é diverso e abrange todas as classes sociais. "É um espaço democrático. Quando você entra no escuro daquele cinema, faz parte de uma coletividade", diz.

Sobre o artista

De La Rocque nasceu em Belém e começou sua trajetória como artista em 2007 e já realizou exposições pelo Brasil e pelo mundo. Em Portugal, expôs recentemente na Galeria FBAUL, em Lisboa. Em Porto, sua exposição "Brasil" tem previsão para começar no próximo dia 25. Não é a primeira vez que Portugal recebe o artista: em 2012, esteve em cartaz a exposição "Epipiderme", em Lisboa.

O artista também já passou pela França, Suécia (durante a mostra Landscape Bodies) e expôs duas vezes na Colômbia: em 2010, no Trampolim Itinerante e Encontro de Artes Relacionas na Academia Superior de Belas Artes de Bogotá, e em 2014, no Encuentro de Arte en Vivo e Diferido, também em Bogotá. 

Em 2014, participou de uma residência artística e expôs no México, no Museo Exteresa de Arte Actual. O artista tem exposição agendada para junho durante um festival  na Defibrillator Gallery, em Chicago, nos Estados Unidos.

La Rocque trabalha artes visuais, fotografias e performances. O documentário é sua estreia no cinema. "Eu me considero um artista multimídia, não tenho uma linguagem estabelecida". Saiba mais sobre o artista no site .

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