O criador de Shanawaara, vulgo Shana, apresentava ao iGay a personagem quando ela tomou conta da entrevista. A cantora e diva queer faz performances, mistura Chico Buarque com Aretha Franklin, samba, rap, forró e mais


Shanawaara fez suas primeiras aparições em dezembro de 2013. Foi concebida inicialmente para ser uma brincadeira, a "musa do tecnobrega", uma "fantasia de carnaval". No entanto, a coisa foi ficando mais séria quando Shanawaara percebeu seu potencial de militância LGBT e de levar as pessoas a pensarem sobre questões de gênero. É um homem? É uma mulher? É uma pessoa homossexual? Transexual? Nada está definido e exatamente pelo incômodo que isso causa nas pessoas é possível iniciar uma série de reflexões a partir da diva.

"Eu não sei se eu sou um alter ego, se sou personagem, se sou persona, se sou um clown, se sou drag queen. E eu acho que, na verdade, tenho aspectos de tudo isso", diz. Shanawaara se apresenta como uma diva queer (termo usado para designar pessoas que não se identificam com as formas convencionais de orientação sexual e identidade de gênero). Ela explica que o fato de se apresentar como diva (uma divindade feminina, uma deusa) aproxima as pessoas.

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Na cama com a Shana

Recentemente, no Periferia Trans , evento realizado em março na Zona Sul de São Paulo, Shanawaara fez seu primeiro show oficial "Assim nasce uma diva - world tour". "Afinal de contas, uma diva que não tem um world tour não é uma diva", brinca. O show tem dez músicas, que passam por rap, samba, forró e outros gêneros. Cainã Vidor faz os arranjos e é o produtor musical do show.

Shanawaara comemora o fato de ter estreado na periferia e o seu próximo show estar programado para ocorrer também na periferia. Será no dia 16 de maio no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte.

O ‘Assim nasce uma diva’ consegue dialogar com muita gente e tem fins didáticos. Vamos partir do samba, do forró, do funk, do rap e falar sobre gênero

No palco, mistura vídeo, música, artes cênicas e performance. Shanawaara diz acreditar no potencial do projeto: "O 'Assim nasce uma diva' consegue dialogar com muita gente e tem fins didáticos. Vamos partir do samba, do forró, do funk, do rap e falar sobre gênero".

Antes disso, Shanawaara já fazia seus "bocket shows" e já tinha apresentado o "Na cama com a Shana", em fevereiro de 2014. Ela colocou uma cama no Largo da Batata e recebeu pessoas para conversar e dar dicas sobre sexo. No mesmo local, puxou a quadrilha da festa junina em junho de 2014, com cerca de 1.500 pessoas.

Na dança, as influências vão do grupo brasileiro Dzi Croquettes ao Voguing, fenômeno que nasceu nos anos 80 em comunidades gays de Nova York que dançavam fazendo movimentos estilizados que lembravam as poses das modelos na passarela. Os movimentos de Shana no palco misturam pagode baiano, frevo e até mesmo o Tai Chi Chuan. "Quero uma dança que tenha força masculina e feminina".

O Homem da Minha Vida

As primeiras músicas de Shanawaara foram "O Berrante" e "Shanatal". "O Berrante" é uma mistura de Chico Buarque, Kelly Key e Aretha Franklin (cantora de soul que virou ícone da música negra nos Estados Unidos). O clipe, gravado no início de 2014, tem imagens do deserto de sal da Bolívia e cenas de Mata Atlântica, gravadas em Ubatuba.

Cantar um samba gay numa roda de samba é muito potente

Depois veio o samba "O homem da minha vida". Das dez músicas presentes no show, é a única que Shanawaara não considera de sua autoria, mas de seu criador. "É o primeiro samba com eu-lírico assumidamente gay. Cantar um samba gay numa roda de samba é muito potente", conta.

"Todim di mim" é um forró um tanto enigmático, pois não se sabe se a personagem da música é feminina ou masculina. "Eu criei um forró totalmente sem gênero. O eu-lírico, que você não sabe se é homem ou mulher, vai forrozeando com todo mundo no salão", explica Shanawaara.

A cumbia (ritmo latino) "Esa noche" é considerada pela compositora uma cumbia bissexual. "Jazz" faz uma homenagem à jovem transexual Jazz Jennings, dos Estados Unidos, que mantém a página Jazz Transgender.

O poder do rap

No Largo da Batata, Shanawaara apresentou um karaokê em 2014. Um grupo presente na praça começou a dar risadas dela. Depois de algumas pessoas pegarem o microfone para cantar rap e outras músicas, Shanawaara disse: "Eu também tenho um rap".

Seu rap ainda não estava pronto, mas começou a cantá-lo assim mesmo: "muito prazer, aqui quem fala é Shanawaara. Que p.... é essa, ela é uma mina ou um cara...". Mais risadas. Ela não se intimidou e continuou seu rap. No final, foi ovacionada pelos rapazes, que até a convidaram para ir cantar seu rap no bairro onde moravam, Cidade Tiradentes, e garantiram que não permitiriam que ninguém risse dela.

"Eu descobri a potência do rap e a minha potência. A partir daí, eu poderia conversar com qualquer público", diz Shanawaara. Ela conta que as pessoas a estranham por ser um misto de homem e mulher. "Quando chega o samba, o forró e o rap, eu consigo me aproximar. Nesses momentos, estamos falando a mesma língua e meu samba pode ser cantado em qualquer roda de samba", diz.

Muitas pessoas já conhecem o trabalho e já decoraram a letra do samba e alguns trechinhos do rap. Shanawaara conta que o funk melódico "Charme de Shana" foi uma surpresa, ela não imaginava tanto sucesso. No Periferia Trans, seu show foi um dos mais esperados.

Em breve, deve ser gravado o primeiro CD de Shanawaara, com as músicas de "Assim nasce uma diva". A previsão é que o álbum seja lançado até junho. "Imagina o povo colocando Shanatal depois da ceia de Natal!", brinca.

Quer conhecer a Shanawaara? Acesse a página da diva no Facebook  e assista aos clipes no  Youtube .

Assista ao clipe de "Homem da Minha Vida" e cante também:


Tô fazendo essa canção
Que é para quando ele chegar
Me encontrar com o sorriso mais bonito
Ele pro samba, eu vou levar

Vou deixar aquele velho amor de lado
Por pra fora toda a dor e a tristeza
Do armário, vou tirar o meu cavaco
Já botei nossas breja pra gelar

Ele vai me roubar um beijo em plena avenida
E vai dizer que sou o homem da sua vida
E juntos pra sempre sambar


"Assim nasce uma diva"

Próximo show: 16 de maio
Horário: 20h
Local: Centro Cultural da Juventude (CCJ)
Endereço: Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641, Vila Nova Cachoeirinha
Gratuito
(Às 15h será realizado o "Na cama com a Shana", em que Shanawaara conversa sobre sexo com fãs em uma cama)

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