A portuguesa Patrícia Ribeiro chega radiante para a entrevista. O sorriso não dá sinal do sofrimento por que ela passou. Teve o rosto deformado por silicone indevido e foi das primeiras trans a fazer mudança de sexo e de nome em Portugal

Em sua terceira visita ao Brasil, Patrícia Ribeiro, 33 anos, está trabalhando na divulgação de seu segundo disco, "Loteria do amor", o maior sucesso de sua carreira. As duas primeira viagens, no ano passado, foram para resolver questões de saúde.

Por indicação de outra transexual que conheceu em Portugal, procurou o cirugião plástico Luiz Paulo de Azevedo Barbosa, com consultório em São Paulo, para consertar o rosto e as nádegas, que segundo ela estavam completamente deformados pelo uso indevido de silicone industrial. De acordo com ela, o rosto caíra pela ação do silicone, que formou um volume desproporcional em suas bochechas.

A cantora Patrícia Ribeiro no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro
Divulgação
A cantora Patrícia Ribeiro no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro


O médico, que já atendeu outros vários casos como o dela, deixou Patrícia sem sinal dos problemas estéticos que a afligiam. Ela está em ótima forma e bem feliz com a sua aparência. "Agora estou assim", diz ela, apontando para o próprio rosto.

Patrícia nasceu em Cova da Piedade, nos arredores de Lisboa, e desde cedo notou que alguma coisa não encaixava. "Sempre senti que era uma criança diferente. Não gostava de jogar bola e era fascinada pelas barbies", conta. Os pais de Patrícia se separaram quando ela tinha 3 anos de idade. A mãe e o padrasto de Patrícia não aceitavam suas particularidades. "Assim que meus cabelos começavam a crescer, minha mãe me mandava cortá-los."

Minha família gastou muito dinheiro com psicólogos. Eu negava tudo nas consultas com medo de ser castigada

Ela dava um jeito de se expressar, vestindo roupas femininas e se maquiando. "Eu juntava as moedinhas que minha mãe me dava para o lanche na escola e comprava vestidos e maquiagem", lembra ela. Os meninos achavam que ela era uma menina com traços masculinos. A mãe teve certeza de que havia algo "estranho" acontecendo em sua casa quando Patrícia tinha 11 anos e os meninos começaram a ligar perguntando por Ana Rita. "Tive vários namoricos - só beijo na boca, aquela coisa de criança - com esse nome".

Os pais não aceitaram: "Minha família gastou muito dinheiro com psicólogos. Eu negava tudo nas consultas com medo de ser castigada". Na escola, Patrícia sofria bullying. "A música era meu refúgio, uma fuga da dor".

Outras possibilidades

Patrícia saiu de casa aos 17 anos, adotou o nome Ricky e gravou músicas com esse codinome durante dois anos. "A música era o que de fato me preenchia, mas Ricky foi um cantor que não vingou, teve carreira muito curta". Aos 19 anos, Patrícia conheceu duas mulheres trans e, pela primeira vez, viu que havia outras possibilidades. "Quando olhava para o espelho, me sentia mal. Havia algo no meu corpo que não correspondia à minha pessoa", lembra. Deu início, então, a um tratamento hormonal sem orientação médica, "tudo com aquela febre de ser feminina o mais rápido possível. Até os 22 anos fiz essas loucuras, me automedicava."

Acho que a cirurgia é a verdadeira cura da transexualidade, é quando a pessoa se cura de um corpo 'errado', é o completar da felicidade

Entre 2004 e 2005, passou por diversas consultas. Foi atendida por psicólogos e por endocrinologistas, que tiraram suas dúvidas e orientaram o tratamento hormonal correto. Foi aí que a cantora procurou um médico para realizar a cirurgia de mudança de sexo. Na época, três hospitais públicos faziam a cirurgia em Portugal. A data da operação ela lembra com exatidão: 4 de novembro de 2008. Ela tinha 28 anos. Foram dez horas de cirurgia e um processo doloroso de adaptação, mas ela afirma que valeu a pena. "Acho que essa é a verdadeira cura da transexualidade, é quando a pessoa se cura de um corpo 'errado', é o completar da felicidade".

Processo humilhante

Depois do novo corpo, era preciso oficializar a identidade feminina. O nome escolhido foi Patrícia. "Era uma das meninas dos Jovens Cantores e eu queria ser como ela na infância", diz ela, se lembrando do primeiro grupo em que atuou como cantora, dos 11 aos 16 anos. No entanto, não havia regulamentação sobre identidade de gênero em Portugal. "Tive de abrir um processo judicial contra o mesmo Estado que possibilitou a minha cirurgia. Foi ridículo". Patrícia conta que o processo exigido para comprovar a nova identidade era humilhante, envolvendo até mesmo medição do clitóris e dos lábios vaginais para que ficasse provado que ela tinha um corpo feminino.

Faltando uma semana para Patrícia ir ao tribunal, Portugal aprovou, em 2011, a lei de identidade de gênero. Patrícia não precisou provar mais nada, nem mostrar seu corpo para médicos desconhecidos para que seu país a reconhecesse como mulher. A lei permite a alteração da identidade sexual mesmo para quem não passou pela redesignação sexual. Patrícia confessa que se sentiu injustiçada no começo, pois o processo foi muito mais complicado para ela. Hoje, entretanto, ela comemora essa lei.

Sua história foi parar no livro "Ontem homem, hoje mulher", biografia publicada pela editora portuguesa Chiado em 2013. "Contei minha história pensando nos pais que poderiam estar na mesma situação pela qual os meus passaram. Através do meu discurso, conquistei o carinho das pessoas. Hoje sou vista como a cantora Patrícia Ribeiro e não como ‘aquela transexual’. Demorou, mas consegui conquistar respeito".

A música

Logo que conseguiu oficializar o nome Patrícia Ribeiro, a cantora gravou o CD "É real". O segundo, "Loteria do Amor", foi lançado em 2013. Há um mês, saiu o trabalho mais recente: "Beat Sexy". No último domingo (12), em São Paulo, a cantora gravou um clipe com a participação da modelo trans Thalita Zampirolli. As duas se conheceram pela internet e se identificaram imediatamente, com muitas histórias em comum. 

Assista ao clipe oficial da música "Loteria do Amor", hit de Patricia Ribeiro que ganhou versão nacional.


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