No início do ano, 100 travestis e transexuais ganharam bolsas do projeto Transcidadania: R$ 827,40 mensais para voltar para a escola. Nesta segunda (6), a primeira-dama da cidade, Ana Estela Haddad, conversou com 10 delas


A prefeitura de São Paulo recebeu na segunda (6) a visita de um grupo empolgado. Animadas, 10 transexuais e travestis que fazem parte do projeto Transcidadania chegaram ao prédio, no centro da cidade, achando tudo lindo e aproveitando a oportunidade para tirar muitas fotos. "Tira pra mim, tira pra mim", elas pediam umas às outras.

Lá dentro, no gabinete da primeira-dama, Ana Estela Haddad, elas estavam sendo aguardadas para contar como está sendo a experiência de voltar para a escola. O projeto, que beneficia 100 trans e travestis, a maioria absoluta vivendo da prostituição, foi lançado em janeiro de 2015 em São Paulo pelo prefeito Fernando Haddad. Cada uma delas vai receber R$ 827,40 mensais durante dois anos. As aulas tiveram início no dia 4 de fevereiro. O modelo serviu de inspiração a um programa semelhante em João Pessoa, na Paraíba.

A reportagem do iGay quis saber de antemão alguma história sobre a chance de mudar de vida que o projeto ofereceu para elas, e Aline Marques disse: "Você não quer esperar a gente entrar primeiro? Vai ter muito choro!"

Diante da primeira-dama, emocionadas, todas foram unânimes em agradecer a oportunidade de voltar a estudar. Todas elas deixaram a escola em circunstâncias parecidas e agora aproveitam a chance de retomar os estudos de onde pararam. A maioria está completando o ensino fundamental.

Entre as histórias, há desistências da escola na juventude por motivo de bullying, de perseguição, de agressão dos colegas e até casos de tráfico de pessoas. “É muito importante romper com essa experiência negativa e construir outra no lugar”, afirma Ana Estela. “Quando a gente tem uma oportunidade, a gente agarra com unhas e dentes. Tenho certeza de que vocês vão ser bem sucedidas nos estudos”, disse ela.

Não desistam de nós. As travestis não escolheram estar nas ruas. Se desistirem de nós, vamos acabar na rua novamente (Aline Marques)

As alunas manifestaram seu desejo de que o projeto continue e avance. “Tem muitas outras precisando. Não desistam de nós. Porque, se desistirem de nós, vamos acabar na rua novamente. As travestis não escolheram estar nas ruas”, apelou Aline Marques.

A estudante Mabi Lee lembrou que muitas presentes na reunião deixaram a escola por volta dos 15 anos e fez um apelo para que a Prefeitura acolha menores de idade na mesma situação. “O que precisamos é aumentar as vagas nas escolas e aumentar as escolas participantes”, diz Aline Marques. Atualmente, as alunas do Transcidadania frequentam duas escolas públicas no Cambuci, região central de São Paulo.

Segundo Alexandre Melchior, coordenador de políticas públicas para LGBTs da prefeitura, a coordenação vai fazer a avaliação semestral do programa e apresentar os resultados parciais ao prefeito Fernando Haddad no final de maio ou meados de junho. A partir deste primeiro balanço, a prefeitura vai analisar a possibilidade de ampliar o projeto para abranger mais alunas. 

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Mudança de vida

“O projeto salvou a minha vida. Eu vi por 26 anos a escuridão da noite. Hoje eu vejo o dia”, diz Aline Marques. Como ela, todas as presentes tinham uma história de sofrimento para contar e concordaram que o Transcidadania foi uma transformação em suas vidas.

Antes eu não tinha perspectiva. Hoje eu quero terminar meus estudos e daqui a alguns anos quero ser psicóloga (Valéria)

Valeryah Rodriguez conta que, quando soube do Transcidadania, “achava que era só conversa”. Ela conseguia seu sustento fazendo “bicos” como cabeleireira. “Antes eu não tinha perspectiva. Pensava: ok, faço uma escova aqui, ganho 30 reais, faço outra ali. Hoje eu quero terminar meus estudos e daqui a alguns anos quero ser psicóloga”.

Eu deixei a escola porque não aguentava mais o bullying. Mas hoje as meninas estão sendo muito iludidas, com promessa de ir para a Europa, de fazer dinheiro (Joyce Mendes)

Joyce Mendes diz que, diferentemente de muitas meninas, inclusive uma ali presente, que foi traficada para a Europa e depois deportada de volta para o Brasil, ela não foi enganada. “Eu deixei a escola porque não aguentava mais o bullying. Mas hoje as meninas estão sendo muito iludidas, com promessa de ir para a Europa, de fazer dinheiro”. Em breve, ela receberá seus novos documentos, com o nome que escolheu para si e não o de batismo.

Alessandro Melchior, coordenador-geral de Políticas para LGBT da prefeitura, explica que há dois advogados prestando auxílio às participantes do projeto. A ideia é que eles ajudem também com questões como obtenção de documentos que estejam de acordo com a identidade de gênero de cada uma.

Carreiras

Aline Marques estava ganhando a vida na rua, como prostituta, depois de tentar sem sucesso arrumar empregos convencionais. Ela diz que foi rejeitada e que as pessoas a olharam de forma preconceituosa.

Se eu puder dar um conselho para vocês é: não desistam (Ana Estela Haddad)

“Sabemos respeitar as normas de uma empresa. O que falta nas nossas vidas é a oportunidade”, diz Marques. A intenção da prefeitura é, passados os dois anos que a bolsa do Transcidadania prevê, encaminhar as meninas para o mercado de trabalho. "A gente vê muitas meninas [no projeto] que são formadas, são assistentes sociais, têm uma profissão. Então a gente também pode”, diz Joyce Mendes.

Ana Estela lembrou o início do Prouni (Programa Universidade para Todos), programa do governo federal no qual teve participação quando trabalhou no Ministério da Educação. Muitos dos beneficiados pelo programa viam o sonho de cursar uma faculdade como algo distante, mas conseguiram. A primeira-dama espera que o mesmo ocorra com o Transcidadania, auxiliando as participantes a conquistar uma carreira. “Se eu puder dar um conselho para vocês é: não desistam”.

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