Até os 16 anos, ele beijava meninas, mas não sentia nada além de incômodo. Até a tarde em que foi ao cinema com o amigo da amiga que conhecera numa festa. Willian se lembra daquela quinta-feira e da experiência como a "que mais mexeu comigo"

Meu nome é Willian, tenho 20 anos, sou professor de inglês e estudante de jornalismo. E além de todas essas coisas, sou gay. Saí do armário aos 15 anos e fui muito bem aceito pela minha família. Tive sorte. Em meu depoimento pessoal não quero me concentrar nas tristezas, pois são inúmeras. Prefiro me voltar para as alegrias (também inúmeras).

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Embora tenha fama de liberal, o Brasil é um país extremamente conservador. Ser diferente faz você se destacar em meio à multidão e tornar-se alvo de todo tipo de ofensas e desrespeito. Se você é homossexual, terá de enfrentar chacotas no colégio, bancadas evangélicas no Congresso tentando lhe cercear os direitos e lâmpadas fluorescentes que adquirem outras funções além de iluminar. 


Mas, como eu disse, prefiro me lembrar das alegrias. Primeiras experiências são uma das coisas que mais me fazem sentir vivo e feliz. E a que mais mexeu comigo foi o primeiro beijo. Ele aconteceu quando eu tinha 16 anos. Já havia beijado garotas até então, mas não contava. Era como beijar uma parede. O único sentimento que tinha era de que aquilo estava errado, muito errado.

Um belo dia, uma de minhas melhores amigas, J., me convidou para seu aniversário na hamburgueria Joaquin’s. Ela criou uma conversa em grupo no Facebook para acertar os detalhes e foi lá que o “plum” do chat me apresentou o B., um garoto alto, branquelo, de cabelos loiros e sardinhas no rosto que me desestabilizaram consideravelmente.

Trocamos olhares e sorrisos a festa inteira. Aquilo era tão estranho. Flertar com um garoto (eu não sabia nem fazer isso com meninas).

Resolvi adicioná-lo e começamos a conversar, falando sobre como seria legal o aniversário e blá blá blá. Eu e ele tínhamos outros interesses, claro, mas a desculpa da festa estava funcionando muito bem para os dois. Eis que o dia da festa chegou e não trocamos uma palavra. Ele estava com o grupo de amigos dele e eu com o meu. Os dois envergonhados demais para dizer alguma coisa. Mas falar sequer foi necessário. Trocamos olhares e sorrisos a festa inteira. Aquilo era tão estranho. Flertar com um garoto (eu não sabia nem fazer isso com meninas).

Fui embora e a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi falar com ele. Conversamos durante algumas semanas e decidimos sair juntos. Ir ao cinema depois do colégio. Lembro que fiquei preocupadíssimo no dia porque meu cabelo estava com personalidade demais e o uniforme do colégio não ajudava em nada.

Conversamos por semanas e decidimos sair juntos. Ir ao cinema depois do colégio. Lembro que fiquei preocupadíssimo porque meu cabelo estava com personalidade demais e o uniforme do colégio não ajudava em nada.

Encontrei-o na porta do colégio dele e fomos ao shopping. Ele estava tão bonito... Jeans preto, camiseta vinho e um casaco listrado. Foi aqui que quase desmaiei a primeira vez. Quando estávamos a caminho, eu tomei coragem e segurei a mão dele. Tão quente e suave que quase desmaiei pela segunda vez de nervosismo e felicidade por ele ter retribuído em igual intensidade.

Era uma quinta-feira e fomos assistir “Meia Noite em Paris”. A sala de cinema estava vazia e sentamos na fileira do meio. Logo que nos instalamos, ele passou os braços ao meu redor e falou: “Eu não disse que ia te apertar o filme todo?”. Então reuni toda a coragem que tinha e fiz a única coisa que poderia ter feito. Pousei minhas mãos em seu pescoço e depositei-lhe um beijo nos lábios. O tempo parou. Senti como se meu peito estivesse em chamas e como se todo o mundo ao redor não significasse nada. A única coisa que existia naquele momento era eu e ele. O resto era insignificante. Nunca me senti tão feliz como naquele instante. Pensei "cara, estou beijando um garoto... e não tem nada de errado nisso".

A vida é uma só e a única coisa que temos obrigação de ser é feliz. Se dois garotos ficarem juntos é errado, eu serei errado minha vida inteira e não sentirei o menor remorso. No final, vou me lembrar de todas as felicidades e de quanto tudo valeu a pena. Se fosse possível escolher minha orientação sexual, optaria por ser exatamente quem sou. Eu sou gay e amo ser gay. Vivam com isso.

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