O mais velho é escritor e blogueiro, fala inglês, estuda japonês e quer ser coreógrafo. A menina quer ser modelo, bailarina e professora. Seu irmão biológico, o caçula Felipe, quer jogar futebol

Em Curitiba, a alegre e bagunceira casa de Alyson, 14, Jéssica, 11, e Felipe, 9, está em festa. Os meninos comemoram a decisão do STF, que reconheceu legalmente sua família e as Bodas de Prata que "papai" Toni e "daddy" David completam no sábado (21).

O reconhecimento legal da adoção do mais velho Alyson e dos irmãos biológicos Jéssica e Felipe foi mais uma vitória judicial do brasileiro Toni Reis e do britânico David Harrad. A primeira foi a concessão do visto de permanência no Brasil para Harrad, direito conquistado por ser o marido de Toni. 

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"Agora somos uma família de fato e de direito", comemorou Alyson. Ele foi o primeiro a ser adotado, em 2012. A adoção foi efetuada somente sete anos após o casal dar entrada no processo, em 2005. Casais heterossexuais que fizeram o pedido ao mesmo tempo que Toni e David conseguiram adotar em um ano. Para eles, a espera foi um exercício de paciência e de persistência.

Hoje Alyson tem 14 anos e é um orgulho para a família. Já fala inglês, estuda japonês e quer ser coreógrafo. Escreve resenhas no blog " Resenhas do Miguel " e até já publicou um livro. "Jamily, a holandesa negra: a história de uma adoção homoafetiva" foi publicado em 2014 pela editora Appris e é baseado na história do jovem autor.

Jéssica, a única menina, tem 11 anos e muitos sonhos: quer ser bailarina, modelo e professora. Ela foi adotada depois de Alyson pelo casal, que sempre sonhou em ter um menino e uma menina. No entanto, Jéssica tinha um irmão, Felipe, que também entrou para a família. "A gente costuma dizer que o Felipe foi um presente", diz Reis.

Os pais contam que o menino de 9 anos é sempre carinhoso. "Ele pula no meu colo quando eu acabo de chegar e já vem conversar, quer saber como foi o dia", diz Reis. Seu sonho é ser jogador de futebol e também veterinário.

Heróis da resistência

A primeira batalha judicial que o casal travou foi para que David Harrad pudesse ficar no Brasil. O casal se conheceu em Londres em 1990. Em 1996, morando no Brasil, Harrad foi ameaçado de deportação porque àquela época não havia dispositivo legal que permitisse a concessão de visto permanente ao parceiro estrangeiro de brasileiro vivendo em união estável. O caso ganhou destaque, sobretudo quando Dona Maria, falecida mãe de Reis, se dispôs a se casar com Harrad para que ele pudesse permanecer no País. O visto só foi conquistado em 2003.

Superada essa etapa, veio o sonho de adotar e o casal deu entrada em um processo em 2005. Desde o início, a ideia era adotar em conjunto, pois, se adotassem como solteiros, no caso do falecimento de um dos dois, os filhos não necessariamente ficariam com o outro.

O casal cumpriu com todas as obrigações burocráticas e decidiu fazer um curso para pais que desejam adotar. Reis conta que, um ano depois, todos os casais heterossexuais que fizeram o curso com eles já tinham conseguido adotar. Para eles, foram sete anos de luta. "Foi a gravidez mais longa da história", brinca.

Durante o processo, o casal ouviu incontáveis "estamos analisando", sem que informassem o motivo da demora. No entanto, ouviram também "não desistam" de muitos amigos que os motivaram.

Em 2008, o juiz da Vara da Infância e Juventude de Curitiba se posicionou favorável à adoção conjunta, mas colocou duas restrições: as crianças a serem adotadas tinham de ser meninas e ter mais de dez anos de idade. O casal recorreu dessas restrições e o Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná julgou unanimemente pela derrubada das mesmas. 

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