“Adolescentes não tomam decisões sobre gênero. Eles são quem eles são”, diz a dra. Lisa Simons, do Hospital Infantil Lurie, em Chicago. A maioria dos transgêneros optam por tratamento hormonal (62%) e 1/3 deles recorre à cirurgia


Pelo lado bom, o Centro de Pesquisas Pew revela que 92% dos adultos LGBT entrevistados dizem que a sociedade está mais apta a aceitá-los do que há dez anos. As leis refletem essas mudanças também: 18 estados e o Distrito de Columbia proíbem discriminação baseada em identidade de gênero. Pelo ruim, a perseguição ainda é uma realidade para a população transgênera adolescente. Dados da Pesquisa Nacional em Discriminação a Transgêneros, de 2011, mostra que 78% dos adolescentes trans disseram ter sido assediados; 35% relataram ter sofrido agressão física; 12% afirmaram ter sofrido violência sexual e 15% enfrentaram perseguição tão intensa que tiveram de deixar a escola.

Os anos de adolescência são um período de transformações. Para os transgêneros, é uma fase que traz especialmente muitas angústias. A Dra. Diane Chen, psicóloga pediatra do Programa de Desenvolvimento de Gênero e Sexo do Hospital Infantil Lurie, em Chicago, confirma. “A puberdade é a fase em que corpos masculinos e femininos se distinguem.”

Chen explica que as mudanças da puberdade relativas ao sexo biológico, como a aparição de pelos no rosto dos meninos ou o desenvolvimento dos seios nos corpos das meninas, são um motivo de sofrimento para adolescentes transgêneros. Outro é o desejo intenso de mudanças da puberdade do sexo biológico oposto.

Alguns adolescentes optam por passar por intervenções médicas. "É importante frisar que nem todo transgênero, jovem ou adulto, tem interesse em fazer uso de medicamentos ou intervenções cirúrgicas”, diz Dra. Lisa Simons, pediatra do Programa de Desenvolvimento de Gênero e Sexo do Lurie. “Tudo precisa ser considerado pelo indivíduo”, diz.

Cirurgia ou tratamento hormonal?

O Instituto Williams, da Escola de Direito da Universidade da Califórnia, estima que havia 700 mil indivíduos transgêneros nos Estados Unidos em 2011, mas o grupo Advogados pela Juventude, voltado à saúde e à sexualidade, relata que é difícil identificar exatamente qual porcentagem da população transgênero é adolescente, porque os dados disponíveis são raramente discriminados por idade.

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É um erro pensar que todas as pessoas transgêneros passam por algum tipo de cirurgia. Artigo da revista “Time”, “The Transgender Tipping Point” ("o ponto de inflexão transgênero", em português), de 2014, relatou que somente cerca de um terço das pessoas transgêneros procuram por cirurgia. A Pesquisa Nacional em Discriminação a Transgêneros apontou que 62% dos participantes transgêneros relataram que fazem tratamento hormonal.

Pacientes em tratamento hormonal geralmente observam mudanças em seus corpos após três a seis meses, mas algumas mudanças levam anos para aparecer. Mulheres transgêneros podem observar desenvolvimento de seios e diferenças na pele e no formato do corpo. Nos homens transgêneros ocorrem mudanças na voz ou crescimento de pelos faciais e corporais. Muitos efeitos dos hormônios são permanentes, como desenvolvimento de seios e mudança na voz.

Quando você trabalha com adolescentes, está sempre trabalhando com suas famílias. Ter os pais por perto para apoiar o jovem ao longo do processo é realmente importante (Dra. Diane Chen)

Tomar decisões sobre intervenções médicas não é o mesmo que fazer uma tatuagem da qual um jovem pode se arrepender depois. Chen diz que o hospital Lurie segue a recomendação de que um paciente deve receber avaliação de saúde mental antes da transição. “É importante notar que adolescentes não tomam decisões sobre gênero. Eles são quem eles são”, diz Simons. A dra. Chen ressalta a importância da participação das famílias, no caso dos transgêneros adolescentes.  “Quando você trabalha com adolescentes, está sempre trabalhando com suas famílias”, diz Chen. “Ter os pais por perto para apoiar o jovem ao longo do processo é realmente importante”.

Bloqueadores de puberdade

Como hormônios e cirurgia têm efeitos permanentes, a medicação para bloqueio de puberdade é uma opção para jovens que ainda estão explorando sua identidade de gênero. De acordo com Simons, remédios bloqueadores pausam o desenvolvimento do adolescente por suprimir hormônios da puberdade. Eles têm o benefício de ser reversíveis, enquanto bloqueiam desenvolvimentos irreversíveis de puberdade.

Discriminação na escola

A discussão sobre vestiários e banheiros é uma grande preocupação dentro da comunidade transgênero. Daniel-McCarter encoraja sistemas, como nas escolas públicas de Chicago, para identificar as causas da violência e desconforto em vez de negar o acesso de estudantes transgêneros a vestiários e banheiros.

John Knight, diretor do Projeto para LGBT e AIDS da União Americana de Liberdades Civis de Illinois, diz que as escolas precisam fazer certas adaptações com relação à lei anti-discriminação para estudantes transgêneros.

Essas adaptações incluem permitir que estudantes transgêneros usem quaisquer facilidades públicas ou privadas, como vestiários e banheiros, onde se sintam confortáveis; chamá-los pelos nomes e pronomes que preferirem, ajustando fichas e registros de acordo; e permitindo que se vistam da forma que julgarem adequada.

Daniel-McCarter diz que as três coisas-chave que as pessoas podem fazer para apoiar os transgêneros são: informar-se sobre a cultura trans, sensibilizar-se com os problemas que estudantes trans podem enfrentar e criar espaços seguros. “É tudo uma questão de aprender como aliarem-se uns aos outros”, diz.


* Do site The Mash. O artigo foi escrito pelos jovens repórteres Laura Bartusiak (Woodlands Academy), James Wendt (Naperville North) e Maddie Mathie (Barrington). O The Mash é uma publicação semanal do Chicago Tribune voltado ao público jovem e escrito, em sua maior parte, por alunos de Ensino Médio. É distribuído gratuitamente nas escolas da região de Chicago.

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