"Ativista visual", Zanele Muholi luta pelos direitos LGBT e pelo respeito à mulher na África do Sul

Zanele Muholi intitula-se uma "ativista visual". A fotógrafa da África do Sul tem retratado lésbicas negras e a identidade LGBT no país. Sua obra traz o erotismo dos corpos femininos, mas também o sofrimento e a dor. "Um dos maiores problemas que mulheres enfrentam são o sexismo e o racismo. Mulheres e até mesmo crianças continuam sofrendo violência de gênero", diz. Ela tem denunciado essas questões em imagens e textos de sua autoria.


O primeiro autorretrato que Zanele Muholi fez foi o de Busi Sigasa (1982-2007). Sigasa era uma amiga de Muholi que morreu após sofrer violência sexual e contrair HIV. Os “estupros corretivos” são comuns no país e são praticados por homens homofóbicos no intuito de “curar” a homossexualidade dessas mulheres.

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"A principal dificuldade para lésbicas negras na África do Sul são os crescentes crimes de ódio, como 'estupros corretivos' e assassinatos brutais", afirma Muholi. Segundo ela, alguns casos são noticiados pela mídia e registrados pela polícia, mas muitos não chegam a ser relatados. "Muitas mulheres foram mortas por expressar o amor entre pessoas do mesmo sexo", conta.

Lidar com a dor da perda, as lutas e o sofrimento das mulheres fez com que Muholi decidisse expandir sua arte e se tornar uma “ativista visual”, denunciando casos como o de Sigasa e outros crimes de ódio.

A série “Faces and Phases” inclui poemas que se tornaram manifestos contra a homofobia e a transfobia. “Eu sinto que tenho de tomar uma atitude reescrevendo a história visual que negou a existência de tantas lésbicas. Eu estou dando a elas o direito à fala. Com essas imagens da cultura das negras lésbicas, eu quero educar e influenciar a política da África do Sul. E inspirar outros a dividir suas histórias”, diz.

Militância

Muholi ajudou a fundar o Fórum para o Empoderamento das Mulheres em 2002. Trata-se de uma organização destinada a promover espaço para mulheres lésbicas se encontrarem e se organizarem.

Em 2009, Muholi fundou Ikanyiso, uma mídia coletiva dedicada ao ativismo visual, informando sobre questões LGBT e incentivando pessoas a contarem suas histórias. "Eu espero que pessoas aprendam mais sobre a nossa cultura negra e LGBTe informem-se sobre a história visual da África do Sul, que inclui pessoas LGBT após a constituição de 1996, que estabeleceu a proteção aos direitos de orientação sexual e expressão de gênero", diz.

O ativismo da fotógrafa nem sempre foi bem-visto. Em 2012, seu apartamento em Cape Town foi invadido e seus arquivos foram roubados. Todo o apartamento foi encontrado intocado, apenas seus trabalhos foram levados. Muitos deles ainda não haviam sido publicados. “O objetivo foi me barrar e me desorganizar. Eu estou sendo uma transgressora, então eu fui punida”, conta.

A ativista não se deixou abalar por este caso, nem por outras manifestações contra seu trabalho. "Espero que qualquer pessoa tenha acesso às minhas fotografias em bibliotecas públicas, escolas, universidades e até mesmo em igrejas", afirma.

Saiba mais sobre a ativista

Zanele Muholi concluiu seu Mestrado em Belas Artes na Universidade Ryerson, em Toronto, no Canadá. Em seu trabalho, Muholi mapeou a história da identidade das mulheres negras lésbicas no pós-apartheid na África do Sul. Ela foi premiada em 2015 entre os alunos que se destacaram na história da universidade.

Além deste, ela recebeu diversos prêmios, como o Casa Africa, como melhor fotógrafa, e o prêmio da Fundação Blachère da Bienal de Fotografia Africana.

Suas fotos e exposições foram compiladas em livros como “Only Half the Picture” (2006) e “Faces and Phases” (2010). Neste último, encontram-se mais de 200 retratos da comunidade lésbica na África do Sul.

O trabalho de Muholi foi exibido na África do Sul e em outros países, como Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha. No Brasil, suas obras foram exibidas na 29ª Bienal de Artes de São Paulo, em 2010.

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