“Eu estava me descobrindo como pessoa transgênero, começando a fazer experiências como travesti. A morte dele foi um breque”, contou a cartunista sobre a perda do filho Diogo em 2005, aos 22 anos, de acidente de carro

A edição mais recente do programa "Drauzio Entrevista" reuniu audiência em torno da cartunista Laerte na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, zona oeste de São Paulo. Gravado às segundas-feiras, o programa é exibido no site drauziovarella.com.br e traz conversas com autores. Na noite de segunda (2), a entrevistada foi a autora de livros como "Overman", "Seis Mãos Bobas" (com Angeli e Glauco) e "Muchacha". Ela falou de seu trabalho, sua trajetória, da morte do filho e da descoberta da transexualidade. "Eu me entendo dentro da transgeneridade de uma maneira tão intensa quanto o que o meu trabalho representa”, disse ela.

Desenhos e formação universitária

“Percebi muito cedo que sabia desenhar”. Laerte conta que em sua casa sempre houve papéis, tintas e outros materiais de papelaria em abundância. “Em algum momento da minha vida eu percebi que aquilo tinha um sentido especial para mim”.

Aos poucos, Laerte foi constatando que podia usar o desenho para se comunicar com as pessoas, contando pequenas narrativas. “Essa descoberta deve ter sido por volta dos dez anos. Não fazia a menor ideia do que fazer com aquelas histórias”.

Mais tarde, Laerte passou pelo teatro amador na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), fez aulas de música e chegou a iniciar o curso de jornalismo, que não concluiu. “Eu desenhava a aula inteira. Aí um professor meu me convenceu a fazer o curso de desenho”.

Laerte entrou na faculdade em 1969, mas seu envolvimento com a militância de esquerda começou em 1963. Em 1975, ano da morte do jornalista Vladimir Herzog, a maioria de seus amigos encontravam-se presos. “Só não fui presa porque fugi. Espalhei para todo mundo que ia para o Rio de Janeiro e fui para o Espírito Santo, onde tinha uma namorada”, diz.

"Chutar o balde"

Em 2005, a perda do filho Diogo aos 22 anos, de acidente de carro, teve impacto na vida e na produção artística de Laerte. “Eu estava me descobrindo como pessoa transgênero, começando a fazer experiências como travesti. A morte dele foi um breque”, conta.

No entanto, Laerte afirma que na área profissional o efeito foi oposto: “A morte do Diogo me ajudou a chutar o balde”. Ela conta que teve vontade de largar tudo e, após esse primeiro momento, resolveu que queria continuar trabalhando, mas de modo diferente do que vinha fazendo até então. “E eu acho que cheguei a um modo de trabalhar que me satisfaz bastante. Cheguei a um monte de histórias”, conta.

Eu tentei fingir que (a transgeneridade) não era comigo durante esses anos e, em 2009, vi que era mais forte do que eu estava pensando

Levou quatro anos para Laerte completar esse processo de se entender enquanto transgênero. “Eu tentei fingir que não era comigo durante esses anos e, em 2009, vi que era mais forte do que eu estava pensando”, conta.

Essa descoberta para Laerte foi aos 58 anos. “Eu comecei a comprar calcinha no Extra. A maioria dos homens que se descobrem trans começam usando calcinha. Alguns ficam nisso. Eu não”, brinca.

Comecei a comprar calcinha no Extra. A maioria dos homens que se descobrem trans começam usando calcinha. Alguns ficam nisso. Eu não

Laerte diz achar natural que muitas das entrevistas com ela acabem chegando ao assunto de gênero, pois afirma que isso está muito ligado à sua carreira: “Eu me entendo dentro da transgeneridade de uma maneira tão intensa quanto o que o meu trabalho representa”.

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