Pesquisa da Universidade de Stanford, na Califórnia, revela que curso de medicina é mais homofóbico que os de administração e direito. No Brasil, a situação não parece ser diferente

30% dos estudantes LGBTs de medicina decidem esconder sua sexualidade durante o período universitário, segundo pesquisa realizada nos EUA e no Canadá pela Universidade de Stanford e divulgada no último dia 18. O estudo ouviu 912 alunos que se indentificaram como 'não-heterossexuais', e cerca de um terço deles optou por não se assumir para os colegas e professores com medo de discriminação.

30% dos estudantes LGBTs de medicina decidem esconder sua sexualidade durante o período universitário, segundo pesquisa realizada nos EUA e no Canadá pela Universidade de Stanford
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30% dos estudantes LGBTs de medicina decidem esconder sua sexualidade durante o período universitário, segundo pesquisa realizada nos EUA e no Canadá pela Universidade de Stanford

De acordo com a pesquisa, 40% dos alunos de medicina dos dois países sofrem diariamente o medo de ser vítimas de homofobia. Alguns entrevistados relataram que o próprio desenvolvimento acadêmico foi prejudicado após se assumirem gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transgêneros, pois os professores passaram a dar notas mais baixas para eles. O estudo apontou ainda que o curso de medicina, nestes países, é mais discriminatório em relação às minorias sexuais e de gênero que outros cursos convencionais como administração e direito.

Nossa área deveria ser tolerante com as pessoas e cuidar delas independente das diferenças, e ainda assim nós não conseguimos fazer isso nem mesmo com quem faz parte da nossa própria comunidade (Mitchell Lunn)

"Ainda há um grande percentual de alunos de medicina que tem medo de discriminação na universidade e de como isso pode afetar o resto de suas carreiras", conta o co-autor do estudo, Mitchell Lunn, na nota de divulgação dos resultados da pesquisa. "Nossa área deveria ser tolerante com as pessoas e cuidar delas independente das diferenças, e ainda assim nós não conseguimos fazer isso nem mesmo com nossa própria comunidade."

No Brasil, a situação não parece ser diferente. Em setembro de 2014, um inquérito para apurar denúncias de estupros e homofobia na Fmusp (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) teve de ser aberto pelo Ministério Público. Em um dos casos, o estudante de direito Bernardo Dantas levou um soco de um segurança ao tentar entrar na festa Carecas do Bosque, organizada por estudantes de medicina da universidade e reservada para casais heterossexuais.

A questão do ser gay pesa bastante, não excluindo o preconceito às lésbicas e a bissexuais. Travestis e transexuais são tratados como doença (Felipe de Medeiros)

Felipe de Medeiros, estudante de 22 anos da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), concorda que o estudo reflete bastante a realidade que vive no seu curso. Gay assumido, ele contou aos colegas sobre sua sexualidade logo no primeiro de aula e diz já ter sofrido discriminação na universidade.

"Ser gay te leva a presenciar atitudes físicas e virtuais que você nunca imaginaria. O curso de medicina é bem intolerante, em sua maioria. O ambiente é muitas vezes hostil quanto à sexualidade, principalmente do homem. A questão do ser gay pesa bastante, não excluindo o preconceito às lésbicas e a bissexuais. Com relação a travestis e transexuais, o assunto é bem pior, são tratados como doença", conta.

Apesar disso, ele diz nunca ter se sentido injustiçado em relação à avaliação dos professores e também nunca foi aconselhado a não se assumir dentro da universidade. Pelo contrário, Felipe faz questão de compartilhar sua sexualidade com os colegas, justamente por não ter conseguido se expressar enquanto cursava o ensino fundamental e médio, onde sofria bullying constantemente. Nos anos em que compôs a chapa do centro acadêmico da faculdade, Felipe travou uma batalha para incluir a pauta LGBT nas discussões, e diz que isso foi importante para a visibilidade da causa na instituição.

Médico modelo

No entanto, ele sabe que muitos estudantes não têm tanta disposição para enfrentar as consequências e que por isso boa parte dos LGBTs ainda vive dentro do armário. O medo é ser excluído pelos outros alunos ao não se encaixar no "modelo de médico ideal veiculado e disseminado pelos próprios colegas de categoria" - ou seja, um médico heterossexual. O estudante lembra, porém, que esse ideal não parece ser compartilhado pelos seus pacientes, que nunca o discriminaram.

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"Dá certo alívio, porque meu compromisso é com eles e o que mais me alegra é a gratidão que eles têm por qualquer profissional, independente de etnia, sexualidade, credo, riqueza ou pobreza", diz. "Acho que precisamos de uma movimentação promovida pelos acadêmicos que compactuam com a causa LGBT e estejam dispostos a organizar debates e palestras nas semanas de recepção, e não achar que esse tema é algo apenas para gays e lésbicas. Primeiro porque LGBT não se resume apenas a isso, e segundo porque todos devem ser levados a essa discussão, independente da sua sexualidade”.

Para o médico recém-formado Leandro César, sexualidade não deveria ser parâmetro para medir a competência profissional de ninguém
Arquivo pessoal
Para o médico recém-formado Leandro César, sexualidade não deveria ser parâmetro para medir a competência profissional de ninguém

Ambiente mais tolerante, melhores profissionais

No caso de Leandro César da Silva, médico recém-formado pela USFJ (Universidade Federal de São João del-Rei) e primeiro gay assumido do campus, a tolerância dos seus colegas de turma e professores colaborou para que seu desempenho acadêmico fosse ainda melhor.

Incentivado pelos docentes, além de fazer parte de um grupo de pesquisa sobre saúde e sexualidade, Leandro desenvolveu pesquisas ligadas ao vírus HIV e Hepatite que lhe renderam o prêmio de Cidadania LGBT do Movimento Gay de Divinópolis (MG) em 2013.

Fui o primeiro gay assumido do campus da Federal de São João del-Rey, mas logo depois muitos já assumiram (Leandro César da Silva)

“É claro que existem alunos LGBTs no armário, mas o clima na faculdade de saúde é amigável. Fui o primeiro gay assumido do campus, mas logo depois muitos já assumiram”, conta ele, que lembra que sexualidade não deveria ser parâmetro para medir a competência profissional de ninguém.

Ser LGBT não deveria ser problema na medicina, tanto para os pacientes quanto para os alunos. Se conseguirem aprimorar o ambiente acadêmico abraçando a diversidade, no sentido amplo da palavra, isso vai levar a um melhor cuidado dos pacientes – que é o objetivo final de tudo isso.

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