Trabalhando em revistas vizinhas na Editora Abril, eles se sentavam lado a lado. Assim mesmo, em tempos pré-internet, ele vivia achando motivo para escrever cartas e bilhetes para ela, e assinava "Para sempre teu, Caio F.". A assinatura virou o título do livro que ela escreveu sobre o amigo

As cartas foram o ponto de partida para a biografia que Paula Dip escreveu de Caio Fernando Abreu, lançada pela editora Record em 2009. O livro virou filme, que estreou ano passado no Festival de Cinema do Rio e foi premiado no festival Mix Brasil. Ela está organizando uma exposição sobre a obra do escritor gaúcho para ocupar em 2016 o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, quando completam 20 anos de sua morte. A seguir, a entrevista que Paula Dip deu para o iGay para lembrar o aniversário da morte dele, nesta quarta (25).  

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iGay: Você partiu de material que tinha guardado em casa, sua correspondência com o Caio Fernando Abreu, para escrever o livro. Por que e quando surgiu essa vontade? Quanto tempo levou o processo de escrita?

Ele pedia aos amigos que guardassem para futura publicação as cartas que ele enviava, “são minha herança para você”, dizia, como se soubesse que seria famoso um dia.

Paula Dip:  Em 1983, Caio ainda era vivo e saudável, fizemos um pacto de um escrever a biografia do outro. Parecia meio que uma brincadeira, mas ele falava sério, pedia aos amigos que guardassem para futura publicação as cartas que ele enviava, “são minha herança para você”, ele dizia, como se soubesse que seria famoso um dia. Quando ele morreu em 1996 eu não morava no Brasil e nossas cartas ficaram guardadas por muito tempo num baú. De luto, tinha pudor de publicá-las logo depois da morte dele. Em 2002 o Ítalo Moriconi, professor de literatura, organizou um compêndio com muitas cartas de Caio em sua tese de mestrado na UFRJ e a Aeroplano, editora carioca, publicou. Foi um enorme sucesso, é um grande livro. Achei que seria um bom momento para eu começar a rever a nossa correspondência e eventualmente publicar nossas cartas num livro sobre o meu amigo. Comecei a transcrever as cartas e a entrevistar pessoas, visitei Porto Alegre, conversei com a família Abreu e o livro nasceu. Foram 5 ou 6 anos de trabalho, e finalmente o livro "Para sempre teu Caio F." foi publicado em 2009 pela editora Record, e já estamos na quarta edição. Ano passado fizemos um filme baseado no livro, dirigido por Candé Salles, que estreou no festival do Rio e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de cinema Mix Brasil, em São Paulo. Deverá ser exibido no Canal Brasil e estamos negociando a exibição nos cinemas.

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iGay: Já faz quase 20 anos que ele morreu e seus escritos continuam vivos, num movimento incontrolável e espontâneo. Como você acha que o Caio ia se sentir se soubesse que tem um público muito jovem que o cita sem parar nas redes sociais? Ele achava graça de gente mais jovem, de adolescentes, ou ia ser uma adaptação para ele se acostumar com esse público que nasceu ao mesmo tempo em que ele morria?

Caio era eclético, sem preconceitos. Escreveu para todas as idades e as novas gerações o adoram. Ele deve estar adorando o auê que fazem pra ele nas redes sociais.

Paula Dip: Caio era eclético, sem preconceitos. Escreveu para todas as idades e as novas gerações o adoram. Ele deve estar adorando o auê que fazem pra ele nas redes sociais. É evidente que na época, nós, os seus contemporâneos, não tínhamos noção de que ele seria tão conhecido e cultuado. Ele era um grande amigo, um cara que adorava escrever e escrevia muito bem, publicava seus livros, tinha fãs, mas nunca chegou a ser muito reconhecido em vida. Pedia sempre: “Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”, e como ele era um mago e acreditava na energia cósmica, seus pedidos sempre foram atendidos. Ele desejava ser um grande escritor. E é. Tem um léxico próprio, se joga em temas humanos de uma profundidade incrível. Foi um profeta. Ele amava e odiava São Paulo, dizia que era um balão de ensaio de todos os horrores do século 21.

iGay: Você é muito procurada por estudantes que estão fazendo trabalhos sobre o Caio Fernando? Seu livro deve servir de referência para todos eles.

Paula Dip: Sim, procuro atender a todos com alegria. Nem sempre o resultado me alegra, mas vale a pena. Espero que meu livro seja referência sim, estou até pensando numa reedição dele, pois é um livro caro, queria que houvesse uma edição mais acessível. Meu objetivo é manter viva a memória do Caio. Ele me ensinou muito, foi mais que um irmão. Está sempre no meu pensamento, leio seus textos, edito livros e faço roteiros de cinema sobre ele. Nesse momento, além de estar terminando um novo livro sobre a amizade de Caio com Hilda Hilst, estou organizando uma exposição sobre a obra dele para o Museu da Língua Portuguesa, um espaço maravilhoso aqui na Estação da Luz, em São Paulo. Vai ser em 2016, quando celebramos os 20 anos de sua morte.

iGay: Você acompanha alguma dessas páginas dele no Facebook, tem alguma que indica especialmente?

Paula Dip: Não exatamente. Quando sou procurada ou citada dou um like, uma palavrinha, mas com economia. Visito às vezes uma pagina  chamada Turma do Caio (amigos da Lara), porque gosto muito da garota que cuida dele, a Lara Souto Santana, uma estudiosa de Caio, com tese defendida na USP. Eu mesma sempre publico fotos e textos dele, mas acho as redes sociais invasivas, podemos passar dias inteiros afogados naquele turbilhão de egos bonitinhos. Pura perda de tempo. Tem que desligar a coisa, sair da toca, ler um livro, ir ao cinema, caminhar na rua, ver os amigos, cozinhar, namorar, viver de verdade. Acho que Caio faria isso. Isso sim é revolucionário.   

iGay: Você imagina que ele continuaria a escrever cartas no papel? Ou se deixaria levar pela tecnologia e trocaria o papel por whatsupp, Facebook e essas novas maneiras de se comunicar?

Meu trabalho é manter o Caio vivo entre nós. Em 2014 fiz um jantar para celebrar o aniversário dele e chamei amigos, foi maravilhoso. Ele estava entre nós, de turbante e com um decote profundo, como gostava de dizer.

Paula Dip: Difícil dizer. Mas a julgar pelos amigos daquele tempo, o Celso Curi, o Luisar, o Giba, o Luciano, o Samuca, a Grace, a Cacaia, a Graça, a Sandra, o Zezo, tá todo mundo bacana e muito antenado nas novidades tecnológicas. Deduzo que ele também estaria, ou melhor, ele também está. É disso que se trata meu trabalho, de manter o Caio vivo entre nós. Em 2014 fiz um jantar para celebrar o aniversário dele e chamei amigos, foi maravilhoso. Ele estava entre nós, de turbante e com um decote profundo, como gostava de dizer. Na noite em que recebemos o troféu de melhor filme do Mix Brasil, senti que ele também estava perto de nós. Eu tinha certeza da vitória, como se ele tivesse me soprado em segredo.

iGay: Qual é o aspecto do Caio Fernando que mais faz falta para você?

Tinha milhares de amigos. Uma tarefa difícil, pois ele era às vezes tão intenso que intimidava. E cultivava inimigos com a mesma facilidade: podia ser demolidor quando encrencava com alguém e decidia rodar a baiana.

Paula Dip: Não dá para single out um aspecto do Caio, não existe isso. Todos nós somos uma multiplicidade de aspectos, um amálgama único e indissolúvel, sensível a varias temperaturas. Caio tinha uma chama, um encanto, que trazia as pessoas para perto dele. Tinha uma habilidade enorme para lidar com as palavras, era culto, educado, divertido, um lord. Tinha milhares de amigos. Uma tarefa difícil, pois ele era às vezes tão intenso que intimidava. E cultivava inimigos com a mesma facilidade: podia ser demolidor quando encrencava com alguém e decidia rodar a baiana.

iGay: No livro amigos dizem que ele era cortante nos comentários, podia ser venenoso, até demolidor. Mas ele devia ser muito honesto, coisa que falta nas pessoas hoje em dia.

Ele ficava muito magoado com a rejeição e quando provocado respondia de forma avassaladora. Brutal mesmo. Uma vez ele botou fogo nos cabelos de uma guria que enchia o saco dele num bar.

Paula Dip: Não mentia, pelo menos não descaradamente. Era honesto na medida do possível, e chegava muito perto das pessoas com sua lente de aumento literário/cinematográfica. Desnudava tudo. E escrevia sem medo sobre o que via e sentia. Alguns não ficavam à vontade, não gostavam do que viam. Ele ficava muito magoado com a rejeição e quando provocado respondia de forma avassaladora. Brutal mesmo. Uma vez ele botou fogo nos cabelos de uma guria que enchia o saco dele num bar.

iGay: O que ele ia achar de saber, por exemplo, que a expressão Saia Justa virou programa de TV, que bolacha e lasanha sobreviveram ao tempo?

Paula Dip: Saia justa é um mistério, muita gente reclama a autoria dessa expressão. Eu me lembro dele dizer saia justa sempre. Mas se não foi ele que inventou, ele tinha a manha de botar na roda e falar tanto, que a coisa virava moda. Ele era bom nisso, teria sido um publicitário riiiiico! Mas odiava publicidade, chamava de prostituição (assim como jornalismo). Já bolacha, lasanha, nigrinha, jaciiira, rodenir, são algumas das centenas de palavras que ele inventou em situações hilárias e ninguém mais esqueceu.  

iGay: O que você acha que ele pensaria de ver um mundo um pouco mais tolerante, beijo gay na novela, casamento gay permitido no Brasil, cantora baiana se casando com uma mulher, filme de duas meninas ganhando o festival de Cannes?

Caio dizia que homossexualidade não existe, existe sexualidade voltada para um objeto qualquer de desejo que pode ou não ter genitália igual, isso é um detalhe

Paula Dip: Ele era um cara muito adiante do seu tempo. Nunca participou de movimentos gays, achava que virava gueto. Não levantava bandeiras, era um guerreiro zen. Dizia: “A homossexualidade não existe, existe sexualidade voltada para um objeto qualquer de desejo que pode ou não ter genitália igual, isso é um detalhe, mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade”. Ele falava isso nos anos 70, 80, quando homossexual se escondia, vivia no armário, morria de Aids. Essa foi sua grande provação, morrer de Aids, foi um carma mesmo.

Caio foi um Cazuza das letras, ele dizia: “Morrer de Aids é a minha cara”.

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