"Não me respeite muito", pediu o escritor gaúcho ao ser procurado pelo diretor Robson Phoenix em 1994 com o desejo de adaptar seus contos para o teatro. "Animais de Hábitos Noturnos", em cartaz em SP, é o segundo capítulo de trilogia

Eram tempos antes da internet, e a comunicação entre Robson Phoenix, então um jovem agitado e atrevido vivendo no Rio de Janeiro, e Caio Fernando Abreu, de volta à casa dos pais em Porto Alegre desde que se descobrira doente de Aids, se deu pelo telefone e por cartões postais. Foi num desses, com o desenho esotérico de uma fada de um lado e o texto à vista de quem se interessasse por lê-lo do outro, que Caio Fernando redigiu a autorização para Robson montar no palco uma adaptação do conto "Pela Noite".

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No primeiro contato por telefone, Robson mandou logo um "Eu te amo e vou montar o seu conto, acho melhor você autorizar senão vou montar à sua revelia". "Ele riu, me achou petulante e gostou de mim. E instruiu: 'Não me respeita muito'". A peça estreou no espaço alternativo do Teatro João Caetano, centro do Rio. Caio não foi assistir, mas Robson mandou para Porto Alegre uma versão gravada em video do espetáculo. Caio gostou. "Ele disse que nunca tinha visto um conto dele montado com tanta fluidez."

"Pela Noite" foi a primeira parte de uma trilogia teatral que Robson pretende montar baseada na obra de Caio Fernando. O segundo capítulo, "Animais de Hábitos Noturnos", está em cartaz em São Paulo, no Teatro dos Parlapatões, até 28 de fevereiro.

Com quatro atores em cena, dois homens e duas mulheres, a peça mistura trechos de seis contos contidos nos livros "Morangos Mofados" (1982) e "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" (1988) e fala de "sexo, solidão, dor, vida, morte, falta, o vazio que não se preenche, o amor que não tenho, o desamor com que não sei lidar", lista Robson. "As coisas sobre as quais Caio escreve sempre." De "Morangos Mofados" entraram "Diálogo", "O dia que Júpiter encontrou Saturno" e "Além do Ponto".  De "Dragões" foram "Os Sapatinhos Vermelhos", "Dama da Noite" e "Sem Ana, Blues".

Não há muito em cena, apenas alguns objetos e uma luz pontual. Tudo é preto, vermelho e branco, e as palavras se destacam como se fossem uma quarta cor. Os personagens vão se revezando numa sequência de situações de encontros e desencontros. Todo mundo está meio perdido - e sozinho.

Claudia e Márcia, irmãs de Caio Fernando Abreu, são entusiastas da obra de Robson
Reprodução
Claudia e Márcia, irmãs de Caio Fernando Abreu, são entusiastas da obra de Robson

"A gente tá namorando?" é pergunta que se repete nos casais que se unem em diversas formações. Um homem e uma mulher, uma mulher e outra mulher, um homem e outro homem, outro homem e outra mulher. "Foi assim que a gente se conheceu. A pessoa errada no lugar errado. Mas na hora certa", diz um dos personagens que foi abandonado. Sobraram três gostos na boca: vodka, lágrima e café.

Então ele decide namorar de novo, sofrendo a dor de desistir do amor passado. "Trair a mulher que me abandonou doía mais do que ela ter me abandonado", diz ele. A nova namorada (se é que eles estavam namorando), embora apaixonada, renuncia ao ver que ele não esquece a anterior. "Ter que desamar aquele homem foi um aborto, eu tive que amputá-lo de dentro de mim", ela diz, e lembra que, na definição do dicionário, "paixão" consta como "martírio, o sofrimento de Jesus na cruz." O amor ela desconsidera. "Amor não existe, o que existe é sexo. Amor é coisa de gente fraca."

Dedicatória que Caio Fernando fez para Robson no livro 'Ovelhas Negras'
Reprodução
Dedicatória que Caio Fernando fez para Robson no livro 'Ovelhas Negras'

Mas é isso aí. "A gente só entra na vida depois de uma dor" é outra fala do espetáculo. "Sabe quando a vida parece que quer te matar?" Por fim, o que todos repetem é: "Quer saber? Esquece essa merda toda que eu disse, tá?"

Robson esteve com Caio uma única vez, quando o escritor foi ao Rio lançar "Ovelhas Negras", em 1996. "Eu estava trêmulo e tímido. Esperei para ser o último da fila do autógrafo. Escrevi meu nome no papelzinho. Ele reconheceu o nome, olhou para mim e disse: 'Se você não viesse eu ficar muito bravo com você. Você demorou muito." Caio morreu naquele ano, no dia 25 de fevereiro.



Serviço:

Espaço Parlapatões

Praça Franklin Roosevelt, 158 - Consolação - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3258 4449

Quinta e sexta, 21h.

Até 28 de fevereiro

Ingresso: R$ 20,00

A pedido do iGay, Robson escreveu uma carta para Caio Fernando, para mandar notícias do mundo nesta quarta (25), em que se completam 19 anos de sua morte. Foi escrita com a mesma máquina de escrever em que Caio escrevia a sua correspondência, uma Olivetti Lettera 44.




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