19 anos depois de sua morte, a obra do gaúcho fez nova legião de fãs na internet. Ainda assim, mais de 50% das frases postadas nas redes como sendo dele não são de sua autoria, segundo a presidente da Associação Amigos de Caio Fernando

"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo.“

Você já deve ter lido essa frase em alguma postagem do Facebook, como legenda da foto de um pôr do sol no oceano, ou no mural de algum amigo mais sonhador. Pois esta frase é de Caio Fernando Abreu  em “Onde Andará Dulce Veiga?”, conto que virou livro e depois filme, dirigido por Guilherme de Almeida Prado em 2007. Assim como ela, centenas de outras frases do autor gaúcho viralizaram recentemente nas redes sociais e criaram uma nova legião de fãs do escritor que faleceu dezenove anos atrás nesta quarta (25), aos 47 anos, em decorrência do vírus HIV.


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Autor de contos como “Morangos Mofados” e “O Ovo Apunhalado”, Caio Fernando se encontrou na internet com uma de suas maiores influências, a escritora Clarice Lispector, de quem também os escritos se repetem infinitamente pela rede. Seus textos são citados por todas as redes sociais, e a maioria - também - indevidamente creditadas.

Caio Fernando Abreu faleceu aos 47 anos, há exatos dezenove anos
Reprodução
Caio Fernando Abreu faleceu aos 47 anos, há exatos dezenove anos

Para a presidente da Associação Amigos de Caio Fernando (AACF), Liana Farias , no entanto, essa questão da viralização é positiva. “De um tempo para cá, cada vez mais pessoas têm oportunidade de ter acesso à obra dele por causa desse ‘boom’ que deu na internet”, conta a produtora cultural, que também é uma das responsáveis pelo site oficial do autor. “Das pessoas que mandam e-mail para a gente, tem muitas agradecendo, porque leram um texto dele que mudou suas vidas, ou ajudou a resolver uma questão importante. É bem interessante como é impactante o texto dele, como mexe com as pessoas.”

Segundo ela, um dos motivos pelo qual a nova geração de internautas compartilha tantas frases do autor, mesmo sem ter lido uma obra inteira, é porque o texto dele continua bastante atual. “Ele fala muito de sentimentos do ser humano. Isso é atemporal. O que ele estava escrevendo na década de 70 e 80 sobre política, sentimentos e questões ambientais, vinte anos antes de ele morrer, continua a mesma coisa hoje, então as pessoas se identificam”, observa.

A gente lê um texto do Caio como se estivéssemos conversando com um amigo. Ele faz com que a gente não se sinta sozinho em determinados assuntos e temas” - Liana Farias

Liana acredita, inclusive, que além da qualidade dos textos, uma das maiores contribuições que Caio Fernando deixou é justamente a de sua obra ser tão acolhedora. “É como se ele fosse seu amigo. A gente lê um texto do Caio como se estivéssemos conversando com um amigo. Ele faz com que a gente não se sinta sozinho em determinados assuntos e temas”, brinca.

 Ela alerta, porém, que a viralização também tem seu lado negativo, e que mais de 50% das coisas que publicam como sendo de autoria do escritor não são dele. Para tentar controlar essa situação, a AACF criou uma campanha nas redes sociais, incentivando os leitores a postar frases do Caio com os devidos créditos e informando de qual texto dele aquela citação foi retirada.

“Inclusive, eu até fiz uma denúncia na Apple Store. 90% daquelas frases do aplicativo ‘Conselhos de Caio Fernando Abreu’ não são do Caio. A família dele que alertou”, conta.

De fã a fundadora da associação

Liana Farias conheceu a obra do Caio em 2002, quando um de seus amigos lhe apresentou ao livro “Fragmentos” (Editora L&PM). Após ler o conto “Para Uma Avenca Partindo”, a produtora ficou tão impressionada que foi atrás de todos os trabalhos do autor.

A associação, porém, foi criada bem mais tarde, em 2010. Procurando por uma frase de Caio para postar como legenda de uma foto sua nas redes sociais, Liana ficou sabendo da campanha “Salvem a Casa do Caio”, em que um grupo de pessoas tentava proibir a venda da casa do autor em Porto Alegre, para preservar a história do local.

“Como sou produtora cultural, eu me apresentei para esse grupo e me ofereci para montar um projeto e fazer uma coisa maior, mais bem elaborada, para de fato tentar resgatar e manter viva essa memória. Foi quando a gente fundou a AACF, para ter uma pessoa jurídica que representasse nossa intenção”, lembra.

Infelizmente, como ela mesma conta, o mercado imobiliário é mais rápido que o cultural, e a casa acabou sendo vendida. Mas nem por isso a associação foi desfeita. É graças a ela, inclusive, que o autor tem desde 2012 um site oficial  com uma média de 15 mil acessos por mês, com um acervo de obras, biografia e uma galeria de imagens de Caio.

“Recebemos muitos e-mails de leitores que não têm a menor ideia de quem é o Caio, que acreditam que é ele quem alimenta esses perfis em redes sociais e tudo o mais. É bem legal ver o trabalho da associação funcionando nesses casos. A gente esclarece, dá informação”, diz Liana.

A AAFC conta hoje com cinquenta sócios cadastrados, fora outras cinquenta pessoas que são amigas do Caio, que conviveram com ele ou são da família dele e que colaboram com a associação.

Para se cadastrar, é cobrada uma taxa única de R$ 30, para a manutenção do site, compra de livros para sorteios e o custo da hospedagem.

Livros relançados 

Este é um momento muito precioso para o Caio e sua obra; pode-se dizer que a sua literatura está realmente viva. (Márcia Jacintho, irmã)

Em 2014, uma série de livros de Caio Fernando Abreu que se encontravam esgotados e fora de mercado foram relançados pela Editora Nova Fronteira. "Os Dragões não conhecem o paraíso", "Pequenas epifanias", "Limite branco", "Onde andará Dulce Veiga?", "Pedras de Calcutá" e as antologias "Caio Fernando Abreu: o essencial da década de 1970", "Caio Fernando Abreu: o essencial da década de 1980" e "Caio Fernando Abreu: o essencial da década de 1990" já estão à venda. Para 2015, estão previstos "Morangos Mofados" e "Teatro Completo".

“Este é um momento muito precioso para o Caio e sua obra; pode-se dizer que a sua literatura está realmente viva. Já há algum tempo e principalmente este ano houve uma revitalização boa e mais do que justa da história do autor, e tenho certeza de que este projeto de edições novas e bem-cuidadas será muito bem-recebido pelos leitores”, diz Márcia de Abreu Jacintho, irmã do escritor.


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