O 1º Enaht, realizado em São Paulo de 20 a 23 de fevereiro, possibilita troca de experiências e faz seu papel de gerar visibilidade

Os transhomens que a gente conhece: Luc , o filho do Marcelo Tas, Stephen , filho de Warren Beatty e Annette Bening, Thammy , filho da Gretchen, Chaz,  filho da Cher. Os que se movimentam para se fazer conhecer: todos os quase 400 que se increveram e os 150 que apareceram para o primeiro Enath (encontro nacional de homens trans), que aconteceu na USP de 20 a 23 de fevereiro.

SIGA O IGAY NO FACEBOOK

Alguns deles as próprias famílias não conhecem. Outros elas não reconhecem. "Minha mãe sabe, mas não aceita", disse um bem jovem, de mãos dadas com a namorada, que veio de Minas Gerais e não quis dizer seu nome e nem se deixou fotografar. Mas ele, mesmo sem mostrar seu rosto, quer o que todos querem: visibilidade. O nome todo do evento é exatamente 1º Enaht - da Invisibilidade à Luta.

Veio gente do Espírito Santo, do Distrito Federal, de Minas Gerais, do Paraná, do Rio Grande do Sul. Alguns são de São Paulo, e estes são os sortudos - aqui ao menos tem psicólogos e psiquiatras para atendê-los em consulta, e tem hormônio disponível nas farmácias. A compra depende de receita, vinculada a um laudo médico.

Eu sei quem eu sou. Por que preciso que alguém confirme para mim quem eu sou para fazer a hormonização e a cirurgia?" (Enzo Guerra)

"Eu sei quem eu sou. Por que preciso que alguém confirme para mim quem eu sou para fazer a hormonização e a cirurgia (de retirada dos seios)?", questiona Enzo Guerra, que se mudou do Ceará para São Paulo em dezembro. "O corpo é meu e eu só posso modificá-lo se tiver um laudo assinado por várias pessoas, psicólogo, psiquiatra, assistente social."

SÃO PAULO, TERRA DOS HORMÔNIOS

Nathan Follador, 19 anos, se mudou recentemente do ES para São Paulo. O motivo principal, além da namorada que estava com ele no encontro, foi a facilidade para comprar hormônio masculino. "Quando comecei o processo lá em Vitória, foi tudo muito fácil. Duas conversas e o médico me deu a receita. Mas não pude começar a tomar porque não encontrei o hormônio." Em muitos lugares, mesmo com a receita, eles não conseguem comprar. "Você chega na farmácia com uma receita com nome feminino e eles dizem: 'mas essa não é você'. Então falam que não tem hormônio masculino, mesmo quando tem", diz Fred, que mora na Bahia. 

Essa questão de documentos com o nome feminino e aparência que não condiz com o nome de registro gera constrangimentos diários para os homens trans. "Ir ao banco tirar dinheiro é um problema, viajar é complicado, e tudo isso é a questão do nome e do sexo que constam nos documentos civis", disse o mineiro que preferiu permanecer anônimo.

Por essas e outras tantas é que a importância do encontro foi resumida por todos, sem exceção, com o conceito de visibilidade. "Temos tradição de invisibilidade", diz Leo Moreira Sá, de São Paulo. "A cultura nos invisibiliza porque não consegue nos ver como homens e sim como mulheres que querem ser homens."

A cultura nos invisibiliza porque não consegue nos ver como homens e sim como mulheres que querem ser homens." (Leo Moreira Sá)

Além da questão do nome, o reconhecimento facilita a aceitação e traz à tona a discussão de vários pontos que afligem a todos: cidadania, estudo, saúde, emprego, uma política pública, enfim, que contemple os direitos dos homens trans. Além, é claro, de compartilhar experiências. "Esse encontro é um marco histórico, com mais de 300 homens trans inscritos", diz Lam Mattos, de Brasília. "Calculo que vivam hoje em Brasília entre 70 e 80 homens trans, e lá não tem um centro de tratamento específico. Ou você busca uma rede de médicos particulares, e banca o tratamento, ou recorre a um circuito clandestino de compra e venda de hormônios."

20 ANOS DE FILA

Hoje em Brasília há entre 70 e 80 homens trans, e não tem centro de tratamento. Ou você busca uma rede de médicos particulares, e banca o tratamento, ou recorre a um circuito clandestino de compra e venda de hormônios." (Lam Mattos)

Uma cirurgia de retirada das mamas pelo SUS tem uma fila interminável, com espera de cerca de 20 anos. Os planos de saúde não costumam bancar a cirurgia, que é considerada estética. Alguns processos foram bem sucedidos para conseguir o reembolso das despesas do hospital - e só. "Precisamos provar que isso não é um luxo, é uma questão de saúde púiblica", diz Lam, que é coordenador do Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade) em Brasília. "O principal motivo desse encontro é mostrar que nós existimos e que isso não é uma brincadeira."

Rodrigo Alves conta que a realidade para quem vive em São Paulo é mesmo muito diferente do resto do Brasil. "São Paulo tem o CRT, centro de referência e tratamento, que oferece consulta, fornecimento de hormônio, acompanhamento médico e psicológico", diz ele, que se trata pela rede particular e está com a mamoplastia (cirurgia de retirada dos seios) marcada para acontecer em breve. "A minha vai custar R$ 12.700. Estou entrando com um processo para ver se o plano de saúde paga as despesas hospitalares."

A redesignação sexual, segundo ele, é "um mito, uma lenda urbana". "Ninguém conhece ninguém que tenha feito. É uma cirurgia para mais de 100 mil reais e não há especialistas no Brasil. Para as mulheres trans a cirurgia de redesignação, bem mais simples, custa 30 ou 35 mil." Segundo ele, um médico na Califórnia é experiente neste tipo de cirurgia para os homens trans, mas os preços são proibitivos para a grande maioria. "Custa 120 mil e mais os 9 meses de recuperação na Califórnia."

Minha família me apóia financeiramente, mas resiste a me chamar pelo meu nome social e me tratar no masculino." (David Zimmerman)

A dificuldade gerou uma oportunidade de negócio para David Zimmerman, que veio do Paraná para participar do encontro e trouxe alguns produtos de sua grife T BOY, a única nacional com produtos exclusivos para homens trans. Ele estava vendendo peckers (próteses penianas) para criar volume na calça e binders, coletes elásticos para esconder os seios antes da cirurgia. Ambos custavam R$ 50,00. "Acho importante uma política pública para acolhimento dos homens trans na área da família", disse ele. "Minha família me apóia financeiramente, mas resiste a me chamar pelo meu nome social e me tratar no masculino."







    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.