Sem o usual apoio da prefeitura, os blocos de Brotas (interior de SP), que já chegaram a ser 11 em carnavais passados, desistiram de desfilar. Todos menos um, que nasceu de uma ação entre amigos em 1998 e este ano produziu 400 abadás

Quase que não teve carnaval de rua em Brotas este ano. A prefeitura estava sem dinheiro e retirou o apoio que vinha dando para os blocos nos anos anteriores. Topou apenas fornecer uma ajuda de custo para o aluguel do carro de som e o apoio logístico de praxe - fechar as ruas, cuidar da segurança, fazer a divulgação. Considerando que não se coloca um bloco na rua com menos de R$ 25 mil, um a um os blocos da cidade foram desistindo de desfilar. Todos menos um: o Força na Peruca.

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Fundado 17 anos atrás por Célia Jordani, filha pródiga de Brotas com dom para tocar surdo e um sobrenome que é sinônimo de tradição no comércio da cidade, o Força tinha um motivo de honra para desfilar: a volta ao carnaval de Ana Paula Barbulho, essa uma paulistana que como se diz por lá "tomou a água de Brotas e nunca mais foi embora".
Membro do Força há 14 anos, ela toca um cavaquinho vigoroso e se tornou a parceira oficial de Célia na composição dos sambas enredos e dos sambas-reggae que brotam generosamente. "É muito fácil compor com ela, é só sentar", diz Ana. "Qualquer coisa vira samba: um filme, um prato, uma frase. A gente diz 'Isso dá samba!', e já sai cantando."
Ana se afastou do carnaval por um problema sério de saúde, que a tirou do Força na véspera do desfile do ano passado. "Fiz o samba, participei de dois ensaios, achei que estava com algo menos grave e quando vi o carnaval ficou aqui e eu fui internada no hospital em São Paulo. Foi dramático." O bloco saiu de qualquer maneira, chamaram outro rapaz para tocar cavaco e a irmã de Ana Paula, Ana Claudia, correu para substituí-la nos vocais.
A incerteza de que Ana estaria pronta para o desfile deste ano provocou um atropelo no carnaval. "Saí do hospital em outubro, a gente fez o samba em novembro e eu pensei: 'Desfilar eu vou. O samba está pronto, eu estou fora do hospital, vou nem que tenha de subir no caminhão.' No fim deu para desfilar no chão, tocando, cantando, as duas noites." O Força desfila sempre duas vezes, no sábado e na segunda. A irmã de Ana voltou para cantar este ano e trouxe a filha, Giovanna, de 15 anos, com o namorado, para passar o carnaval em Brotas.
O bloco tem essa particularidade: foi fundado por um bando de amigas, muitas delas gays - e um amigo, Kim Mariani, que inventou o nome -, mas não ficou restrito ao gueto. Pelo contrário, cresceu para todos os lados, com amigos de São Paulo, amigos de Brotas, amigos dos amigos, parentes, crianças. Da família de Célia estavam na avenida este ano uma irmã e uma sobrinha na comissão de frente, um irmão e um sobrinho no blocão (a ala que fecha o desfile, reservada para convidados e para quem compra o abadá), o namorado da sobrinha e o cunhado na bateria.

A boneca também veste a camisa do Força
Ana Ribeiro
A boneca também veste a camisa do Força


"Virou uma turma e o bloco é o que todo mundo tem em comum", diz Ana. "A gente se encontra sempre - se bobear eu tenho mais amigos aqui do que em São Paulo." E o cordão do Força na Peruca cada vez aumenta mais. "Antes era um grupo de amigos e você sabia quem era quem e quem era amigo de quem. Agora isso se perdeu, tomou uma proporção absurda."

QUE FORÇA É ESSA

Este ano, em que o samba enredo foi "Que força é essa que a peruca tem?", foram produzidos 400 abadás - e vendidos 350. "Damos para a comunidade os abadás para quem não pode pagar", diz Celia. "Em novembro, em dois fins de semana, a gente fez um samba louvando a força que a Ana teve pra enfrentar essa barra: fala de fé, de coragem, e brinca com a própria expressão força na peruca: eu tô bonita, tô bem na fita." E fizeram ainda o samba-reggae "O que é que a peruca tem?", que brinca com "o que que a baiana tem" e de quebra presta homenagem a Dorival Caymmi. Diz (mais ou menos) assim: "O que é que a peruca tem, tem graça como ninguém, tem gente animada tem, e a força que vai além... Pega a peruca e vem, ô ô de peruca eu vou atrás do meu amor."

TODOS POR UM

Quando conta com a verba da prefeitura, o Força tem até carnavalesco contratado. Para fazer o desfile sem essa ajuda - o repasse deste ano representou um terço do valor regulamentar -, os integrantes decidiram simplificar a apresentação e se unir para levantar fundos para pagar as contas. "A gente sempre fez isso, arrecadamos dinheiro ao longo do ano", diz Celia. "Temos um grupo de samba de 8 mulheres que faz shows pela cidade, que também se chama Força na Peruca. Tocamos nossos sambas enredos, outros que eu e a Ana fizemos e sambas clássicos e conhecidos. Todo mundo tem outra profissão e está envolvido com música." Ana acrescenta: "Fizemos uns shows daqui, uma rifa dali, apertamos onde deu. Não é fácil botar um bloco na rua." 

Força na Peruca
Ana Ribeiro
Força na Peruca

Em vez das fantasias elaboradas para comissão de frente e bateria, e de perucas caprichadas para todas as alas, em 2015 foi camiseta e peruca industrializada para todo mundo. "Nós saímos alguns anos com carro alegórico, e aí é considerado escola de samba", diz Celia. "Mas preferimos nossa formação de bloco mesmo, com comissão de frente, bateria, porta estandarte, rainha de bateria e o blocão." Para Ana, não faltou nada. "Desfilamos de camiseta e peruca, é isso que importa. Nossa viagem é cantar e tocar e desfilar."

De certa forma, a crise na prefeitura fez o Força voltar para as suas origens. Em 1998, seu primeiro ano de existência, o Força nasceu como uma ação entre amigos - e durou anos sendo auto-suficiente. "Éramos um grupo de 15 amigos na fazenda Santa Eulália e decidimos criar um bloco. Fizemos tudo lá, os abadás nós mesmos pintamos e cortamos, todo mundo se envolveu na criação e na confecção. Compramos perucas coloridas e o Kim inventou o nome. Saímos 15 pessoas, sem samba enredo, só uma batucada e o refrão 'uca uca uca força na peruca'".

O uca uca uca sobrevive até hoje como o grito de guerra do Força na Peruca.


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