No espetáculo "Maria que Virou Jonas", Cia. Livre usa história supostamente real de mulher que ganhou um pênis para explorar possibilidades do sexo e definição dos gêneros

Uma mulher que vira homem que vira mulher. Um homem que vira mulher. Dois atores trans que fazem alternadamente um e outro papel. "Maria que Virou Jonas", que estreia na quinta-feira (19), é uma peça dentro da peça. Os dois transgêneros, Neo Maria (Lúcia Romano) e Jonas Couto (Edgar Castro), estão encenando o espetáculo "A Força da Imaginação". Em cena há um homem e uma mulher - qualquer um dos atores está instrumentado para interpretar qualquer um dos personagens. A escolha de quem será o homem e a mulher do casal inicial é feita no palco, diante da plateia, por sorteio. 

A ideia de que cada um pode assumir qualquer um dos sexos faz parte da discussão do deslocamento proposto pela Cia. Livre, composta por Lúcia, Edgar e pela diretora Cibele Forjaz. Escrito por Cássio Pires especialmente para a montagem, que recebeu incentivo do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, o texto trata das identidades móveis, da cada vez mais maleável questão de gênero e da quebra dos papeis definidos como masculino e feminino.

Odeio pessoas hetero que pensam que histórias sobre elas são universais e histórias de homossexuais são apenas histórias de homossexuais." (Fala de personagem da peça)

O público vira cúmplice da viagem proposta pelo espetáculo antes mesmo de entrar no teatro. Papeizinhos pescados de uma urna definem quem segue pela entrada reservada para ELES e quem entra pela entrada separada para ELAS. Lá dentro, numa espécie de camarim ao avesso, metade da plateia se encontra com Neo e a outra com Jonas, e a peça começa assim que se define quem vai se vestir de mulher e quem vai vestir as calças naquela apresentação. O terceiro sinal acontece apenas nesse momento.

Pois bem. O homem do casal está assombrado por uma história, supostamente verdadeira, que ouviu de um professor. Ao dar um salto muito grande para atravessar um buraco, uma mulher rompeu algum ligamento dentro de seu corpo e soltou um pênis que passou a ser dela. A mulher escuta sem acreditar, usando os argumentos que encontra para derrubar a veracidade do relato. Até que no dia seguinte, ao exagerar no pulo para atravessar uma poça d'água, acontece a exata mesma coisa com ela.     

Para chegar a "Maria que Virou Jonas", Cibele, Edgar e Lúcia partiram da história de Marie que vira Germain, apresentada pelo filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) no ensaio XXI em Da Força da Imaginação. Marie-Germain era habitante de Vitry, na França do século XVI. Ao mudar de sexo, é aceito socialmente como homem. O sexólogo Thomas Laqueur (1945) reconta a fábula no livro "Inventando o Sexo", no qual afirma que as chamadas verdades biológicas são construções da cultura.

A sociedade capitalista tem essa predisposição para criar modelos de consumo, e por isso reforça as ideias da mulher feminina e do homem masculino. O papel da arte é bagunçar esses modelos e introduzir a possibilidade da diferença." (Cibele Forjaz)

"A peça trata das transformações da mulher à medida que vai se transformando em homem. Ela tem de reaprender o próprio corpo, as relações sexuais, vai viver outras histórias, se prostitui. O casal tem que se reconstruir a partir da mudança do corpo", diz Cibele. "A sociedade capitalista tem essa predisposição para criar modelos de consumo, e por isso reforça as ideias da mulher feminina e do homem masculino. O papel da arte é bagunçar esses modelos e introduzir a possibilidade da diferença."

NINGUÉM NASCE MULHER

"O lugar da mulher e do homem é tabu também no fazer teatral", diz Lúcia. "O geral é a mulher fazendo papel de mulher e representando de um jeito feminino. Mas a mulher é uma invenção. Ninguém nasce mulher, como disse Simone de Beauvoir. Essa peça brinca com essa questão de como a gente performa o homem e a mulher. A genitália é insuficiente para dizer o que a gente é e como se relaciona sexualmente. Qual tem que ser o discurso, o da igualdade ou o da diferença? "

A peça brinca com essa questão de como a gente performa o homem e a mulher. A genitália é insuficiente para dizer o que a gente é e como se relaciona sexualmente. Qual tem que ser o discurso, o da igualdade ou o da diferença?" (Lúcia Romano)

Edgar conta que essa experiência de os atores se revezarem em papeis não é inédita nas montagens da Cia. Livre, que tem 15 anos de existência e já fez mais de 10 espetáculos, tendo representado o Brasil em diversos festivais internacionais. "Para o ator é sempre desafiante ver o parceiro de cena fazer a mesma personagem de outra perspectiva. É a mesma sequência de fatos, mas quem atua vai contar a história de maneira diferente. É uma experiência muito interessante."

"Odeio pessoas hetero que pensam que histórias sobre elas são universais e histórias de homossexuais são apenas histórias de homossexuais", diz, na voz de Edgar/Jonas, o personagem feminino/masculino do espetáculo. 

Serviço:

Maria que Virou Jonas ou a Força da imaginação

Sesc Belenzinho - Rua Padre Adelino, 1000 - Telefone: (11) 2076-9700

Quintas, sextas e sábados, às 19h30. Domingos, às 17h

De 19/02 a 15/03.

Duração: 1h45.

Não recomendado para menores de 16 anos.


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