Com as bolsas de estudo de 840 reais por mês do projeto Transcidadania, Ciarah, Natasha, Paula, Eliza, Renata, Eshiley e Valeryah voltam à escola para recuperar o tempo perdido

Natasha Nazário parou porque era discriminada. “Ah, era aquela coisa de viadinho, bichinha”, lembra. Eliza Coelho desistiu porque tinha de correr da escola para fugir dos meninos. “Tocava a sirene e eu saía na frente de todo mundo. Se encontrasse alguém do portão para fora, eles implicavam comigo. Levei muita corrida”, conta. Ciarah Pitima diz que os meninos a obrigavam a fazer coisas com eles. “Eu batia o ponto no banheiro ou então na pracinha lá embaixo. E não era um menino só, eram quatro, cinco. Eu ficava com medo.” Renata dos Santos Silva atesta: “O bullying está sempre presente.”  

Se eu pudesse mandar um recado para o prefeito Fernando Haddad, diria isso: muito obrigada pela chance que está nos dando” (Natasha Nazário)

Por um motivo ou outro, todos parecidos, faz muitos anos que elas deixaram de ir à escola. Natasha, Eliza, Ciarah e Renata se encontraram na tarde de quarta (4), dia de volta às aulas no Cieja (Centro Integrado de Educação de jovens e adultos) Sé, no Cambuci, para recuperar o tempo perdido.

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Uma prova de português e matemática definiu de onde elas retomam os estudos. Natasha vai fazer 7ª e 8ª séries, Eliza a 5ª e a 6ª. “Estou vendo essa oportunidade como uma segunda chance para todas nós. Antes era só eu de bichinha para aguentar os bofes, agora nós somos muitas. Se eu pudesse mandar um recado para o prefeito Fernando Haddad, diria isso: muito obrigada pela chance que está nos dando”, diz Natasha. Ciarah tem certeza de que a experiência vai ser bem diferente de quando ela era obrigada a participar de orgias escolares. “Agora é outra história, somos várias amigas, não estamos mais sós.”

Agora é outra história, somos várias amigas, não estamos mais sós.” (Ciarah Pitima)

Tênis, calça jeans, camiseta – e o caderno universitário completando o look – foi o figurino escolhido pela maioria das participantes do programa Transcidadania, que ofereceu bolsas de estudos de R$ 840 por mês para 100 transgêneros frequentarem a escola diariamente. “Gosto dessa pegada”, disse Renata. A empolgação com que as alunas chegaram para o primeiro dia de aula foi a mesma com que o Cieja Sé, uma das quatro escolas da cidade envolvidas no programa, as recebeu. Na entrada, painel com fotos delas trazia o recado: “Escreva uma nova história. Recomece e reconstrua seus sonhos em 2015.” 

Em vez de discriminação, balinhas e mensagem de boas vindas distribuídas pela assistente pedagógica educacional do Cieja Sé, Daniela Cavalcanti Gonini. Para ela, está tudo ótimo: receber alunos trans faz parte da vocação da escola, que tem capacidade para 490 pessoas. “Nós praticamos a diversidade”, diz Daniela, explicando que as salas de aula do centro reúnem jovens, adultos, idosos e 10% da frequência tem alguma deficiência mental. “Muitos não puderam estudar por conta de deficiência, por falta de condição, ou abandonaram a escola por sofrer preconceito.”

Voltar para a escola veio me devolver uma alegria. Estou adorando pegar metrô, ter carteirinha de estudante, me sinto voltando à adolescência. E não vou parar aí, quero estudar psicologia (Valeryah Rodriguez)

Eshiley Oliveira - “O sobrenome do meu marido”, avisa – garantiu presença no segundo dia de aula. “Nossa, foi ótimo. Estou me sentindo de volta à sociedade. Amanhã com certeza estou aqui de novo.” Valeryah Rodriguez – “É numerologia”, explica – parou de frequentar a escola em 1993, quando começou a tomar hormônio. “Sempre tinha uma piadinha. Mesmo sem ser eu já era chamada de travesti, então pensei: ‘Vamos dar um jeito nisso’”, conta ela, que se transformou em travesti e depois em transexual. Tentou voltar à escola em outras ocasiões, fez tentativa em escola particular e levou um golpe de uma escola falsa de educação à distância. “Gastei uma grana e quando chegou o certificado ele não existia, não tinha firma reconhecida e nem validação do MEC. Era uma folha de sulfite impresso”, diz. “Voltar para a escola veio me devolver uma alegria. Estou adorando pegar metrô, ter carteirinha de estudante, me sinto voltando para a adolescência. E não vou quero parar aí, quero estudar psicologia.”

As aulas no Cieja, que duram duas horas e 15 minutos, são apenas uma parte do programa Transcidadania, que prevê 6 horas diárias de atividade educativa. “É como um trabalho, tem de ir todo dia”, diz Alessandro Melchior, coordenador de políticas públicas para LGBTs da prefeitura de São Paulo. “No ano todo, só são permitidas três faltas que não tenham relação com alguma situação emergencial comprovada.” As horas restantes serão completadas com aulas de cidadania, cursos técnicos e visitas a museus.

A cidade tem de capacitar os serviços públicos para lidar com essa população." (Symmy Larrat, coordenadora do Transcidadania)

A coordenadora do Transcidadania, Symmy Larrat, ela própria transgênera, diz que a possibilidade de o programa existir é uma combinação de cenário propício com vontade política do prefeito. “O momento que estamos vivendo é resultado de muita militância, que conquistou visibilidade para essa população, e a sensibilidade do prefeito”, explica, dizendo que muita coisa já está sendo feita para melhorar a vida dos LGBTs em São Paulo. “A cidade tem de capacitar os serviços públicos para lidar com essa população. A guarda municipal está recebendo instruções de como respeitar os direitos humanos dos LGBTs e os postos de saúde também estão aprendendo a lidar com eles. Algumas UBS (unidades básicas de saúde) já têm capacitação e por isso mesmo são as mais procuradas.”

A escola, na opinião de Symmy, também precisa se adaptar. “O que tem de ser ensinado em sala de aula é cidadania”, declara.


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