Mariana Moura e Danielle Rampazo foram recebidas com espanto por equipe do local em que comemoraram a união e tiveram muitos pedidos negados durante a organização

João Paulo, Danielle (centro) e Mariana (dir.), fundadores da Sweet Mali - assessoria especializada em eventos LGBTs
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João Paulo, Danielle (centro) e Mariana (dir.), fundadores da Sweet Mali - assessoria especializada em eventos LGBTs

Difícil um casal não ter de se segurar para não arrancar os cabelos de ansiedade enquanto planeja o próprio casamento. É a lista de convidados, a organização da festa, a escolha do vestido da noiva, administração dos fornecedores e mais uma série de coisas que demandam paciência e muito planejamento. A pressão vem de dentro também, já que todo casal quer que seu casamento seja uma ocasião perfeita. E o nervosismo aumenta ainda mais quando o casal é homossexual e pode se deparar com o preconceito de alguns dos envolvidos.

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Quando começaram a planejar sua festa de casamento, que aconteceria em fevereiro de 2014, as noivas Mariana Moura e Danielle Rampazzo tiveram a primeira surpresa desagradável já no momento de marcar a data. O cartório da rua em que moram, em São Paulo, se recusou a oficializar a união e indicou que elas procurassem outro. No entanto, de acordo com a resolução 175 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aprovada em maio de 2013, todos os cartórios do Brasil são obrigados a celebrar os casamentos homoafetivos .

Danielle (esq.) e Mariana tiveram a ideia de criar a Sweet Mali após passar dificuldades durante o planejamento da cerimônia e da comemoração
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Danielle (esq.) e Mariana tiveram a ideia de criar a Sweet Mali após passar dificuldades durante o planejamento da cerimônia e da comemoração

"Nós procuramos outro cartório e lá eles foram mais receptivos", conta Mariana. Mas isso era só o começo. "Enfrentamos um despreparo muito grande da maioria dos fornecedores", conta Mariana. As dificuldades, porém, renderam uma ideia de negócio. Junto com o sócio João Paulo Pitta , elas criaram a Sweet Mali - uma assessoria especializada em eventos LGBTs.

"A gente viu que no mercado não existia nenhuma assessoria especializada em atender o público LGBT. Então pensamos: 'Vamos nós mesmas fazer isso e ajudar as outras pessoas que também querem casar e estão enfrentando os mesmos desafios'", lembra Danielle.

Lançada em outubro do ano passado, a Sweet Mali organiza casamentos gays e outros eventos voltados para o público LGBT, além de também oferecer treinamento gratuito para fornecedores que querem trabalhar com esse público.

Nossa intenção é fazer com que entendam que não existe diferença nenhuma, é uma comemoração como qualquer outra, normal. A gente não espera um tratamento diferenciado, a gente espera tratamento igual. (João Paulo)

"As pessoas têm medo de se aproximar, de puxar uma conversa e falar alguma coisa errada, colocar a outra pessoa em uma situação desconfortável. A nossa intenção é fazer com que elas entendam que não existe diferença nenhuma e que é uma comemoração como qualquer outra, normal. A gente não espera um tratamento diferenciado, a gente espera um tratamento igual. O treinamento é exatamente esse, fazer eles conseguirem tratar a gente com naturalidade", explica João Paulo.

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Quem vai planejar o casamento agora deve estar preparado para passar por algumas dificuldades durante o percurso. No entanto, o pessoal da Sweet Mali criou uma lista de dicas que podem evitar constrangimentos na relação com fornecedores. Veja:

1 - Deixe bem claro que é um casamento gay

Pode não parecer natural iniciar um pedido de orçamento de um bolo de casamento, por exemplo, contando que o casal é formado por duas pessoas do mesmo sexo. Mas a realidade, infelizmente, é que algumas pessoas ainda têm problema com a sexualidade alheia e estão, inclusive, dispostas a perder um cliente por isso. E você não quer ter que descobrir isso na véspera da sua festa, não é mesmo?

SOCORRO, A JOALHEIRA SUMIU

“Eu mandei fazer uma joia para dar de presente para a Mariana, até que a mulher que me atendia perguntou para quem era a aliança e eu falei que era para minha noiva. Ela nunca mais me atendeu. Liguei várias vezes, mandei e-mail e nunca mais tive resposta. Sumiu”, conta Danielle.

2 - Prepare-se para escutar ‘não’

“A gente entrou em contato com diversas casas de festa, restaurantes, etc. Nenhum disse especificamente que não atendia o público gay, mas todos inventaram algum tipo de desculpa. 'Para essa data não tem mais reserva. Nessa outra vamos estar em obras. Não temos nenhum lugar reservado para você ficar mais à vontade’”, lembra Danielle, citando os argumentos usados para fazê-las desistir da reserva.

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Sim, é frustrante e revoltante ser impedido de celebrar o seu casamento da maneira como você sempre planejou - e tudo por homofobia velada. Mas é bom lembrar que vale mais a pena descobrir com antecedência que um estabelecimento ou fornecedor é preconceituoso do que fazer essa constatação durante a festa, e correr o risco de ter o seu dia estragado pela ignorância de terceiros.

Equipe da Sweet Mali
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Equipe da Sweet Mali

3 - Sentiu alguém desconfortável? Pergunte qual é o problema

As pessoas têm medo de que vai chegar o ônibus da Priscilla e descer um monte de grag queens jogando glitter, que na pista de dança só vai tocar Madonna." (Mariana)

“As pessoas têm medo de que vai chegar o ônibus da Priscila, descer um monte de drag queens jogando glitter e que na festa só vai tocar Madonna. Claro que não é assim, estamos planejando uma festa comum, com convidados comuns, não muda nada. Se você entrar na festa e não souber quem são os noivos ou as noivas, você não vai saber que é um casamento gay”, diz Mariana.

PARECE HOMOFOBIA, É DESCONHECIMENTO

Quando as recém-casadas chegaram ao local que reservaram para fazer a festa, perceberam pela expressão dos garçons e recepcionistas que eles não tinham ideia do que esperar de um casamento gay. No decorrer da festa, porém, eles ficaram mais à vontade e perceberam que era uma celebração comum. Portanto, antes de armar um barraco em um dia tão feliz por achar que alguém está sendo homofóbico, lembre-se que pode se tratar apenas de alguém desinformado. Para isso, o ideal é tirar as dúvidas da equipe que fará o casamento antes da cerimônia e da festa.

4 - Pesquise se o fornecedor já fez algum evento LGBT e busque indicações

Baseada em São Paulo, a Sweet Mali atende na capital e também no interior paulista. Para os interessados de outros estados, porém, eles prestam assessoria remota e tentam encontrar parceiros e fornecedores gay-friendly na região em que os noivos moram.

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Para quem não pretende utilizar uma assessoria para ajudar a organizar o casamento, a dica é pesquisar quem são os organizadores e fornecedores de eventos LGBTs da região, pois provavelmente não terão restrição em atender um casal de pessoas do mesmo sexo.  Além, é claro, de pedir indicações para outros casais gays.

5 – Tem algum convidado homofóbico? Não convidar pode ser uma opção

É muito difícil encontrar um casamento gay onde todos os parentes das duas famílias estão morrendo de felicidade com a situação. Ao mesmo tempo, queremos convidar todas as pessoas que são importantes para presenciar esse momento especial. É aí que pode surgir um problema.

A LISTA DOS DESCONVIDADOS 

“Esse é um medo que grande parte das pessoas tem. A gente conversa bastante e tenta entender a situação. Os noivos têm de fazer o que o coração está mandando, tudo tem que ser especial para os dois. Foca no casamento, na festa, na celebração do amor. Se outras pessoas não gostam e não vão ficar tão felizes, não convidar pode ser uma boa opção”, recomenda Danielle.

6 – Passe por cima dos obstáculos e aproveite o seu dia

“Mesmo com todas as dificuldades, no dia do casamento foi maravilhoso. É inesquecível. Eu queria casar todo ano”, brinca Mariana. “Nós estávamos preparadas. É uma união homoafetiva sim. Lidem vocês com isso.”

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