Na Biblioteca Mario de Andrade, prefeito de São Paulo lança programa que oferece bolsas de estudo no valor de R$ 840 para 100 travestis por um período de dois anos

A quinta-feira, 29, foi um dia barulhento na Biblioteca Mário de Andrade. Ao chegar para o evento, marcado para acontecer no auditório às 14h30, Alessandro Melchior, coordenador de políticas públicas para LGBTs da prefeitura de São Paulo, ouviu um comentário. “Como tem travesti pela rua hoje. Será que é parada gay?” Ele pensou: “Essa é uma cena com a qual a cidade vai se acostumar, porque vai ver com cada vez mais regularidade.”

Marcando o 29 de janeiro, dia nacional da visibilidade trans, o evento no auditório reuniu travestis, transexuais, o prefeito Fernando Haddad, políticos e convidados para lançar oficialmente o programa Transcidadania, que ofereceu bolsas de estudo no valor de 840 reais para 100 travestis por um período de dois anos. A partir de 4 de fevereiro, primeiro dia de aula na rede municipal de ensino, as selecionadas vão voltar para a escola para completar o que falta do ensino fundamental ou freqüentar cursos técnicos para se preparar para se inserir no mercado de trabalho. Praticamente todas elas estão hoje na prostituição.

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“A gente quer fazer o que é certo, o que as pessoas sensatas fariam, mas queremos fazer também o que ninguém tem coragem de fazer e tem de ser feito”, discursou o prefeito Fernando Haddad, depois de ser aplaudido como um popstar. “As trans são poucas pessoas se compararmos com o tamanho da população, mas você não pode pensar só na maioria. Estamos estendendo a mão para uma população discriminada, estamos abrindo uma trilha nova, vamos aprender pelo caminho, mas não vamos recuar. Estamos do lado certo, de não deixar ninguém para trás.” 


UM PROJETO BONITO

Márcia Rodrigues, de 34 anos, foi à biblioteca com a mãe, Rosa Maria. “Estou na rua há 15 anos, e sem o projeto não teria condição alguma de largar a vida”, disse ela. “Vou voltar ao colegial e pretendo parar de fazer programa”. Dona Rosa estava dividindo a alegria, e as expectativas, da filha. “Estou feliz. Ela está bem e feliz, então eu também estou.”

Gisele Rosa, de 33 anos, vai retomar os estudos de onde parou, na 5ª série. “Fui prostituta no começo da carreira, depois fiz curso de modelo, trabalhei na parte de confecção do Projeto Tamar, estou acostumada a ir atrás”, disse ela. Um recado para o prefeito? “Acho que não saberia nem agradecer, é um projeto bonito.”

Paula Costa, 36, trabalha na rua, mas pretende largar. “A gente não está na noite porque quer e sim porque não tem outra opção de vida.” Débora Carraro, 34, trabalha como cabeleireira, depiladora – e faz programa. “Como vejo minha vida daqui a um ano? Melhor do que agora”, diz ela. Kelly Marques, 31, trabalha com cabelo e maquiagem, em um salão na Bela Vista. “Vou continuar, mas voltar para a escola está sendo maravilhoso, uma oportunidade única.” 

Travestis e transexuais foram à Biblioteca Mario de Andrade acompanhar o lançamento do programa da prefeitura paulistana
Edu Cesar
Travestis e transexuais foram à Biblioteca Mario de Andrade acompanhar o lançamento do programa da prefeitura paulistana

NADA PARECIDO

A travesti Nicolle Mahler, 29, funcionária da prefeitura, é articuladora do centro de cidadania LGBT. “Fizemos o primeiro contato com as meninas visitando os locais de prostituição, no horário de trabalho delas”, diz. “De todas que abordei, apenas uma não se interessou pelo Transcidadania. É um  projeto inédito, ninguém nunca viu nada parecido.”

Nicolle estava super produzida para o evento, num look que levou duas horas para ficar pronto. “Não é só porque a gente trabalha com direitos humanos que tem de ser hippie”, disse ela. “Eu sou perua.”

Ela afirmou que ver a população tendo acesso à cidadania é um sonho sendo realizado. “A discussão de cidadania LGBT fica muito restrita ao movimento gay e nós não somos necessariamente homossexuais. A maioria de nós é hetero”, disse ela. “Começam a nos negar os direitos básicos no primeiro minuto em que colocamos uma roupinha ou uma prótese de silicone.” 

PRIMEIRO DIA DE AULA

A prefeitura de São Paulo foi corajosa, está na vanguarda da América Latina, onde nunca antes um governo, seja no âmbito municipal, estadual ou federal, se aventurou num programa controverso como este, segundo discursou o secretário municipal de direitos humanos e cidadania, Rogério Sottili. O prefeito Haddad sabe que virão críticas e que o Transcidadania será alvo de preconceito e de propaganda contrária.

As meninas também estão preocupadas, mas não é com nada disso. A questão é: o que vestir no primeiro dia de aula?

“Eu já arrumei minha roupa para ir para a escola”, disse Gabryella Sabatinni, 21, que vai aproveitar a oportunidade para completar a 6ª, 7ª e 8ª série. “Calça coladinha, blusinha, allstarzinho. Bem garotinha.”

Jamilly Batista, 36, que vai fazer a 7ª e a 8ª séries, explica seu figurino. “Calça, blusa e um salto. O salto não pode faltar, o salto é que é o ‘tchan’ da pessoa.”

Jhenyffer Araújo, 24, vai bem comportada. “Calça, baby look e tênis. Bem garota, para respeitar o ambiente da escola.” Para não fazer programa, Jhenyffer pede dinheiro. “Eu moro na rua”, disse.

Michelle Carvalho, 30, quer ser enfermeira. “Hoje em dia estou só na prostituição”, disse ela, que cobra “150, 100, depende. Tem dia que não custa nada.” Ela está “na vida” há sete anos, não gosta de fazer programa e está decidida a viver ainda mais simplesmente para fazer o dinheiro do Transcidadania ser suficiente para sustentá-la.

Haddad com uma das transexuais presentes no evento
Edu Cesar
Haddad com uma das transexuais presentes no evento


Representando as 100 participantes do programa, Aline Marques, 36, se sentou na mesa oficial junto com Gabriel Chalita, secretário da educação, Sottili, o prefeito Haddad, Denise Dau, secretária municipal de políticas para mulheres, Luciana Temer, secretária municipal de assistência e desenvolvimento social, e Sandra Fae, secretária adjunta de desenvolvimento, trabalho e empreendedorismo. Ela fez um discurso emocionado e agradeceu chorando o prefeito Fernando Haddad. “Desculpa se estou falando besteira, mas o senhor está sendo um pai para nós.”

No fim do evento, já recomposta, ela contou o que vai vestir no primeiro dia de aula: vestido longo. “Vou para a escola bem bonita, bem pintada, bem posicionada. Esse calor está acabando com a água, que dirá com o corpo da gente.”

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