Em Santana, Zona Norte de São Paulo, centro de acolhida com 900 vagas reservou 40 para LGBTs que não têm onde morar. Conheça algumas histórias que se cruzaram no Zaki Narchi

No número 600 da avenida Zaki Narchi, em Santana, Zona Norte de São Paulo, a movimentação diária tem hora marcada. A partir das 4 horas da tarde, filas se formam diante do complexo 1 do Centro de Acolhida Zaki Narchi. Os interessados nas 500 vagas para pernoite têm de ser homens com mais de 18 anos. Quem não consegue uma vaga - e com ela a garantia de banho, cama e jantar -, ou não abre mão das drogas, proibidas lá dentro, vai se acomodando para dormir por ali mesmo, no terreno descuidado que circunda a construção. O horário permitido para a entrada é das 4 da tarde às 9 da noite, o de saída é obrigatoriamente às sete da manhã.  

Mais adiante, na lateral do prédio, dois portões dão acesso aos complexos 2 e 3, com 200 vagas fixas cada. No dicionário local, os moradores são denominados conviventes ou abrigados. No 2, os abrigados têm cama própria e três refeições por dia, e fica à disposição o dia todo o núcleo de serviços, com banho, lavanderia, atendimento psicológico, assistência social e grupos socioeducativos, que promovem discussões temáticas como álcool e drogas, orientação profissional e saúde do homem.

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No 3, apenas 50 moradores têm direito a almoço e acesso ao núcleo de serviços durante o dia. Entre eles estão os 'perdia', que trabalham à noite e dormem de dia, os que ainda estão sem perspectiva de trabalho, já idosos ou em tratamento médico. O restante dos conviventes, caminhando na direção de se reintegrar à sociedade, passam o dia fora: trabalhando, procurando trabalho ou fazendo cursos. No fim da tarde, de volta ao abrigo depois de um dia de batalha, passam pela aglomeração na frente do 1 e sabem que, entre aqueles em situação vulnerável, eles são privilegiados. É como se, tomadas as devidas proporções, o 1 fosse o inferno, o 2 o purgatório e o 3 o céu. Ou ao menos a porta dele. 

"Ninguém merece morar no 1"

Débora Rodrigues da Cruz, 21, transexual, morava no 3 e era casada dentro do abrigo. Uma noite, cismado de que Débora o estava traindo, o marido pegou o celular dela para checar o Whatsupp e descobriu o que temia: ela tinha um amante. Os dois se engalfinharam numa briga por ciúmes, descumprindo uma das regras internas: foram desligados. Hoje Débora dorme no 1, assim como o ex-marido. O amante, que virou seu atual namorado, mora no 3. Débora gostaria muito de voltar, mas o regimento interno não permite. "Ninguém merece morar no 1. O cheiro é ruim, está cheio de homofóbicos. Minhas coisas ficam guardadas num armário aqui no 3, senão me levam tudo", diz ela. "Saí de casa porque meu pai é evangélico e militar e não me aceita. Ainda vou à casa dele e levo meu namorado, mas ele nem me olha direito. Vou ver minha mãe e minha irmã, Jaqueline, de 16 anos, que me deu meu primeiro sobrinho, Adrian, que eu amo." 

Em comparação com o 1 e seus frequentadores em situação máxima de vulnerabilidade, a rotina nas unidades 2 e 3 é realmente diferente. "A grande maioria chega ao 2 e ao 3 por encaminhamento, depois de passar pelo 1, ou vinda de outros abrigos da cidade", explica a psicóloga Nayla da Cunha Neves. Junto com outros dois assistentes sociais, ela presta assistência aos abrigados. Nos complexos 2 e 3, o centro de acolhida oferece 11 quartos com 40 camas cada um. O 3 tem ainda uma particularidade. Entre os 100 abrigados ali atualmente, 10 são LGBTs. A prefeitura designou um quarto, com 40 vagas, para a população LGBT. É o "quarto das meninas".

"O mundo para mim foi uma escola"

Alex Sandro dos Santos, 34, mora no Zaki Narchi há um mês. Antes disso, passou por outros abrigos da cidade, o Francisca Miquelina, na Bela Vista, e o João Paulo II, no Bom Retiro. Antes ainda, esteve preso. "Passei 10 anos e 4 meses privado da minha liberdade", diz ele. "Por aí, pelos cadeião da vida, nem gosto de lembrar", desconversa. Depois de um curso de capacitação, trabalha das 8 da manhã às 3 da tarde com a ONG VerBem, que doa óculos de grau para a população carente. "Eu confecciono os óculos e estou dando um passo à frente, tentando reconstruir o que eu perdi, recuperar um pouco da minha liberdade. Fui criado sem meus pais, cresci pelo mundo. O mundo para mim foi uma escola."  Hoje ele é um dos 10 moradores do "quarto das meninas". "É bom porque a gente tem privacidade. Algumas aqui têm peitinho, usam lingerie, calcinha. Eu sou gay, uso cueca, não tenho esse problema."

Se entre os complexos do Centro de Acolhida Zaki Narchi o 3 é o mais ajeitadinho, o "quarto da meninas" é o mais arrumado de todos. São 20 camas beliche e nenhuma porta, como em todos os quartos dos abrigos públicos. "Não tem limite de tempo de estadia", diz Nayla. "Alguns estão aqui desde a inauguração, em 9 de outubro." Alguns habitantes do quarto são gays, outras são travestis ou transexuais, um é homem. Ele é namorado de uma das "meninas" e o casal dorme lado a lado, na cama superior de duas beliches vizinhas. 

"Quando apagava a luz os homens vinham passar a mão"

Vivian Soares, 27 anos, nasceu Thiago, em Fortaleza. "No Ceará tem muito preconceito: é o erro, goiaba, gaiola, paca, pacatuba, borboletinha", diz ela, citando os nomes para definir homossexual. "Meu pai não conheço, minha mãe se suicidou aos 30 anos, com depressão. Tenho duas irmãs, Monica e Monique, e dois irmãos que também são travestis, o Wellington, que é a Nicole, e o Marcos, que é Suzy. Minha mãe era lésbica e deprimida, eu também tenho crises de depressão. Acho que é genética." Quando Vivian foi expulsa do 1, no ano passado, seu namorado, Marcus Vinicius, pediu desligamento do 1 e eles foram morar juntos na rua. Agora os dois, que namoram há 9 meses, foram aceitos no 3. "Só o fato de ter um quarto só para os gays faz toda a diferença. No 1 era uma zoeira. Uma fileira com as camas do 1 ao 25 estava reservada para nós, era a rua das flores. Quando apagava a luz os homens vinham passar a mão."   

As regras internas são rígidas, e o descumprimento de alguma delas resulta em desligamento imediato da unidade, sem chance de volta. Fazer sexo nas dependências dos abrigos é uma delas. Consumir drogas é outra. Agressões físicas, e às vezes verbais, também são motivos para expulsão. Namorar sem sexo é permitido. Paquera, juras de amor, provocação, ciúmes, todos esses capítulos das histórias de amor acontecem ali cotidianamente.

"Tá namorando uma travesti!"

Márcio Fernando de Melo, 30 anos, é gaúcho de Porto Alegre. Veio para São Paulo trabalhar e está no complexo 3 do Zaki Narchi há dois meses. "Trabalho com eventos, no Anhembi, Center Norte, Transamerica. Onde me mandarem estou indo", diz ele. Na virada do ano, ele e Giovana se beijaram pela primeira vez. "Nosso objetivo é aproveitar a oportunidade que estamos tendo aqui para guardar dinheiro e vamos alugar uma casa juntos. Aqui não é vida para ninguém. É só para se levantar e sair para não voltar mais. Está tudo dando certo, se melhorar estraga."  Ele e Giovana conversaram e decidiram juntos que era melhor ele não dormir no quarto das meninas. Por isso, Márcio dorme num quarto vizinho, junto com outros homens. "Aqui dentro tem respeito, mas lá fora é aquilo de 'Tá namorando uma travesti!' Eu não ligo, não me atinge. Assumo mesmo, ando de mão dada, beijo no shopping. Essas pessoas que agem assim são infelizes."

Alguns abrigados ainda têm relação com a família, outros não têm relação alguma, outros não têm família, outros não querem ter. "Às vezes uma mãe descobre que o filho está aqui e quer visitá-lo. Como os conviventes são maiores de idade, temos de pedir a autorização deles para permitir a visita. Alguns não aceitam", diz Nayla. "Mas qualquer contato é raro." Mais fácil quem tem família lá fora ir visitar - e depois voltar para o abrigo. 

"Ele é o amor da minha vida"

Giovana Coimbra, 37, mineira de Três Pontas, chegou a São Paulo quatro meses atrás. Na quarta-feira (21), ela e seu namorado, Márcio, se desencontraram. Quando ele saiu para trabalhar na montagem de um evento, ela ainda não tinha voltado de um bico na limpeza de vidros. Ele ligou para ela e se declarou: "Por você eu vou até o fim do mundo." Ela sentou sozinha numa mesa para 4 e jantou chorando de emoção. "Eu já tive várias decepções amorosas, entrei em várias furadas, mas agora encontrei o amor da minha vida", disse ela. Giovana é a caçula de 11 irmãos e ficou na casa dos pais cuidando deles. A mãe tem 76 anos, o pai tem 80. Depois de se desentender com um irmão, decidou largar tudo e vir para São Paulo recomeçar a vida. "Vim com a cara e a coragem. Estou procurando um trabalho fixo. Faço faxina, limpeza, trabalho de recepcionista, o que tiver eu faço. Não tenho restrição a trabalho."

Dificuldade de encontrar posição no mercado de trabalho é a grande queixa dos abrigados. O centro facilita a aproximação das empresas abertas a contratar transexuais e travestis. "Temos parcerias com empresas como ONGs, projetos sociais e restaurantes", diz Nayla. "Além de programas da prefeitura, como o Transcidadania , que oferece bolsas de estudo para transgêneros frequentarem cursos técnicos." Segundo ela, nenhuma das travestis e transexuais do abrigo estão se prostituindo no momento. Drogas, sim, são um problema. Elas são proibidas lá dentro, mas quem quer consumir basta atravessar a rua. "Aqui se for pego usando é desligamento", diz Nayla. "Mas tem as escapadas."

"Fumo uma maconhazinha, dou uma pauladinha numa pedra e bebo"

Natã Juvencio Costa, 42, é "rodado de albergue". "Faz 9 anos que estou nessa vida de albergue", diz ele. Antes de chegar ao Zaki Narchi, dois meses atrás, ele estava no João Paulo II, que fechou. De lá conhecia Alex Sandro de vista, mas não eram chegados. "Achava ele chato, insuportável. Andava com uma capa preta que só o demônio! Eu pensava: 'Meu Deus, essa bicha é babado!'" Agora que estão dormindo no mesmo quarto, os dois se aproximaram. "Ruim aqui não é, mas pode melhorar. Ter um quarto só para nós já muda tudo. Não estou vendo as más línguas dos homofóbicos por aqui", diz. Natã nasceu em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, onde viveu até os 16 anos. Ainda tem família lá, mas eles não o aceitam. "Quero ver meu pai antes de ele fechar os olhos, mas quando digo que vou visitar meus irmãos perguntam: 'Vem fazer o que aqui?' Se eu for lá vou ficar na rua." Ele confessa que é meio nervoso, começa os cursos e não termina, às vezes passa pelo Caps (Centro de Atenção Psicossocial). E toma drogas: "Fumo uma maconhazinha, dou uma pauladinha numa pedra e bebo".  

Vivian se inscreveu para disputar uma das 100 vagas do Transcidadania, programa piloto da prefeitura de São Paulo que vai dar bolsas de estudos, de 840 reais por mês, para tirar as trans da rua. "Área com que me identifico mesmo é a administração, sou apaixonada por números", diz ela. Uma dificuldade é que o projeto dá prioridade a quem não terminou o ensino fundamental, e Vivian tem o ensino médio completo. Nayla conta que, no momento, ela é a única do Zaki Narchi interessada pelo programa. "Encaminhamos duas travestis para o Transcidadania, Vivian e Giovana. A Giovana desistiu porque considera que o dinheiro que ganha no trabalho informal é melhor para ela. Ela trabalha com eventos, manda dinheiro para a família no interior de Minas. 

"Não penso em mais nada sem ela"

Marcus Vinicius Marchini, 34, namorado de Vivian, é o único homem dormindo no quarto das meninas. "A gente namora à distância, eu deito na minha cama e ele na dele e a gente fica se olhando", diz Vivian. "Eu acordo e ele está me olhando: 'Bom dia, meu amor!' Fico toda derretida." Ao contrário de Márcio, esta é a primeira vez que Marcus namora uma travesti. "Estou no quarto delas até para não ouvir piadinha: 'O que esse puto tá fazendo aqui? Vai para o quarto das moças!'", diz ele, que voltou para o abrigo depois de passar o dia trabalhando e entregou para Vivian o dinheiro que ganhou, 50 reais. "O que eu quero é voltar à sociedade, reconstruir a vida com diversidade, tropeços, bagunça e tudo o que vier para a nossa vida. Não penso em mais nada sem ela. Muito amor eu já tenho e Deus no coração. Vamos que vamos."

Todas as unidades do centro fecham os portões às 21 horas e logo depois as luzes se apagam, às 10 da noite. Mas não é proibido ver um filme ou assistir a uma partida de futebol, se os conviventes se comprometerem a não fazer barulho. "Mesmo com as luzes dos quartos apagadas, eles podem ficar na sala de TV", diz Nayla. O café da manhã é servido das 6 às 7, com exceções possíveis para quem precisa sair mais cedo. "Às 21 horas nós lançamos as vagas no sistema. Se por acaso tem um emergencial de frio, por exemplo, temos de saber quantas são as camas disponíveis nos abrigos da cidade", explica. Quem vai trabalhar à noite e precisa chegar em horário diferente, tem de pedir autorização. Outra exceção que pode ser aberta mediante autorização é para os abrigados levarem marmita para o trabalho.

"Deus não me deu as asas ainda"

Rafael de Andrade Souza, 39, de Beberibe, Ceará, está ocupando temporariamente uma vaga de pernoite no 2. "Estou querendo uma vaga aqui no 3", diz ele. À procura de trabalho como auxiliar de cozinha ou em serviços gerais, Rafael não sabe direito o que quer da vida. "Sou católico, gosto de ler a Bíblia, tinha o sonho de ser frei mas depois de um tempo tudo mudou. Sou fã da Wanessa Camargo. No dia em que vi aquela mulher eu desmaiei e tudo", diz ele. "Queria ser famoso, mandei minha inscrição para o BBB 15 e cheguei a fazer vários videos, mas não deu. Ano que vem eu tento de novo. Deus não me deu as asas ainda. Quando ele me der eu vou voar bem alto."












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