"Sou uma menina. Me pareço com uma menina. Meu coração é de uma menina", diz Zoey, que começou a hormonização para evitar efeitos da puberdade como barba e mudança de voz

BBC

Considerada a melhor série de comédia atualmente no ar nos Estados Unidos, "Transparent" conta a história de um pai de 70 anos que decide assumir sua identidade feminina. A série ganhou dois Globos de Ouro no domingo (11): melhor série de comédia e melhor ator de comédia para Jeffrey Tambor, intérprete da trans Maura Pfeffermann.

Com personagens transgêneros mais realistas, Hollywood pode estar ajudando a sociedade a aceitá-los na vida real – inclusive as crianças transgêneros.

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Um número cada vez maior de crianças está usando medicamentos bloqueadores da puberdade para evitar mudanças indesejadas em seus corpos, como o crescimento de seios ou de barba. O tratamento é controverso. Críticos dizem que bloquear a puberdade de uma criança é um tipo de abuso e que elas devem ser aconselhadas a aceitar seu corpos.

Mas pais de crianças com desordem severa de identidade de gênero e médicos que tratam delas dizem que não fazer nada pode ser perigoso e que deixá-las passar pela puberdade “no gênero errado” pode resultar em depressão profunda e suicídio. "Certamente há medos relacionados aos efeitos colaterais", diz Johanna Olson, diretora do departamento de transexualidade no Hospital de Crianças de Los Angeles, que começou a prescrever os remédios em 2007. 

Ela afirmou que uma de suas pacientes, de 12 anos de idade, tentava cometer suicídio toda vez que menstruava. "Então, certamente, é preciso levar isso em conta. Eu poderia perder a criança antes de termos informações suficientes para dizer 'Sim, isso é uma intervenção segura em um adolescente de 12 ou 13 anos, ou ela pode se matar'."

Eu poderia perder a criança antes de termos informações suficientes para dizer 'Sim, isso é uma intervenção segura em um adolescente de 12 ou 13 anos, ou ela pode se matar' (Johanna Olson, médica)

"Quando eu era pequena sempre dizia: ‘Sou uma menina. Me pareço com uma menina. Meu coração é de uma menina", diz Zoey, de 13 anos, que nasceu menino mas se identifica como menina. Johanna Olson é a sua médica, e prescreveu hormônios para bloquear sua puberdade e incitar o desenvolvimento de características femininas. Joey está muito satisfeita com o resultado. "Consegui chegar ao meu objetivo e fui aceita em escolas, o que tinha sido a parte mais difícil da minha vida porque tinha que agir como alguém que eu não era."

Zoey começou a se identificar como mulher desde pequena. Quando criança ela costumava perguntar à mãe por que "Deus cometeu um engano" e deu a ela o corpo errado. Os supressores de puberdade usados por ela são medicamentos de efeitos reversíveis e aprovados por autoridades britânicas, pois são usados há décadas para tratar de crianças que apresentam puberdade prematura.

Para pessoas com disforia de gênero, ou desordem de identidade de gênero, os medicamentos são ministrados entre os 9 e os 17 anos. Os médicos dizem que estão dando tempo à criança para decidir se realmente quer viver com um gênero diferente, e os adolescentes podem tomar hormônios para desenvolver características do gênero oposto. Bloqueadores de puberdade começaram a ser usados em crianças transgênero nos anos 1990. 

Debate corrente na comunidade médica discute quando iniciar o uso de bloqueadores e terapia hormonal de mudança de sexo. Kenneth Zucker, especialista em identidade de gênero do Centro de Dependência e de Saúde Mental de Toronto, diz que sua clínica normalmente espera até que os pacientes tenham 16 anos antes de prescrever hormônios para que desenvolvam características do sexo oposto. Mas a clínica tem utilizado bloqueadores de puberdade em crianças a partir dos 10, dependendo de quando eles começam a puberdade.

Tanto Olson quanto Zucker dizem que tiveram muitos poucos relatos de arrependimento de seus pacientes que receberam bloqueadores de puberdade. Mas Zucker revela o resultado de um estudo que mostrou que mais de 80% das crianças que foram à clínica e não foram tratadas com bloqueadores hormonais estavam satisfeitas com seu gênero biológico quando chegaram aos 22 anos.

"Eu acho que o que vai ficar interessante nesta área nos próximos 10 anos é que, pelo menos em alguns setores, há uma abordagem muito mais permissiva para o apoio à terapia hormonal de mudança de sexo e até mesmo para a cirurgia, e a questão a ser levada em conta é: 'A abordagem mais permissiva vai estar correlacionada com mais arrependimentos ou mais insatisfação?'"

AUTOMEDICAÇÃO

Antes de receber bloqueadores de puberdade, as crianças devem passar por avaliações de saúde mental, rigorosos exames médicos e aconselhamento. Olson diz que os melhores resultados são obtidos com o início do uso de bloqueadores hormonais aos primeiros sinais da puberdade. Isso se torna mais complicado pelo fato de que as crianças estão passando pela puberdade mais jovens. Algumas crianças transgênero compram medicamentos ilegais na internet para tentar se tratar, muitas vezes com consequências graves.

Por mais que séries populares de TV facilitem a abordagem do assunto transexualidade, o fator internet é o maior impulsionador do aumento da visibilidade de crianças transexuais. Pela internet, famílias trocam histórias sobre seus filhos e esclarecem dúvidas sobre essa "fase" da vida filhos que, aparentemente, nunca termina. Alguns críticos dizem que o número crescente de crianças transgênero é devido a pais urbanos e liberais indo longe demais com crianças que poderiam apenas estar fazendo experiências e testando convenções.

TRANSIÇÃO DIFÍCIL

A mãe de Zoey, Ofelia, é um trabalhadora hispânica, mãe solteira de três filhos, que não sabia nada sobre transexuais até que seu filho começou a dizer: "Eu sou uma menina." Agora ela é uma defensora dos direitos transexuais.

"É bobagem pensar que estou incitando uma criança a passar por isso. Se você entender o quanto é difícil para eles fazer esSa transição, as lutas que eles têm que enfrentar para ser aceitos entre os seus pares, a dor que eles têm de atravessar...", disse Ofelia.

Essa é quem minha filha é - isso faz sentido. Para mim e minha família, funciona. Ela está feliz. Ela está na escola. Ela está aprendendo. Não há nada de diferente nela. Ela é apenas transgênero (Ofelia, mãe de Zoey, 13)

"Essa é quem minha filha é - isso faz sentido. Para mim e minha família, funciona. Ela está feliz. Ela está na escola. Ela está aprendendo. Não há nada de diferente nela. Ela é apenas transgênero - e é isso."

Devido à crescente conscientização sobre transgêneros, os médicos dizem que suas clínicas têm sido inundadas por pacientes nos últimos anos. A Associação Médica Americana publicou diretrizes para ajudar os médicos.

Adultos transgêneros que não podem vivenciar sua identidade de gênero têm maiores taxas de suicídio, são mais propensos a ser assassinados, e muitas vezes sofrem discriminação no local de trabalho.

"A experiência trans é notável - passar por ambos os sexos -, é tão raro. Vamos comemorar isso, e não apenas tolerar. Temos algo a aprender com as pessoas trans." (Johanna Olson, médica)

"Não há nenhuma recompensa por ser transgênero, nenhuma recompensa. Há uma vida tomando remédios, desistindo de sua fertilidade, é mais difícil viver sendo trans", diz Olson, ressaltando que as pessoas que decidem fazer a transição sentem que esta é a única opção que eles têm para viver com seu verdadeiro eu.

"A experiência trans é notável - passar por ambos os sexos -, é tão raro. Vamos comemorar isso, e não apenas tolerar. Temos algo a aprender com as pessoas trans."

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