Shiloh, a filha mais velha de Angelina Jolie, gosta de se vestir de menino. Mães que passam por experiências parecidas contam como lidam com a particularidade dos filhos. Especialistas advertem: boneca não tem a ver com sexualidade

Fernanda, a irmã mais velha, tem dois anos mais que Ana. As duas cresceram juntas, fazendo as mesmas coisas e gostando das mesmas coisas. Praticavam judô, capoeira e jogavam futebol. No carnaval, que as duas pulavam no clube de Piraju, cidade no interior de São Paulo, a escolha era por fantasias masculinas: um ano era uma de Batman e outra de Super-Homem, no outro uma de caveira e outra de assombração. Até que um dia, quando Fernanda estava com 10 anos, quis ir de Sheila do Tchan!, de shortinho, top e uma pena na cabeça. Ana foi de Banana de Pijama. Hoje Fernanda tem 25 anos, é advogada e heterossexual. Ana, aos 23, é estudante de design e acaba de terminar um namoro de quatro anos com uma menina. 

Fernanda foi ficando cada vez mais parecida com as outras meninas. Me surpreendi mais com a Fernanda querer ser igual às outras do que a Ana ser do jeito que é (Virgínia Marques)

"A partir daquele episódio da fantasia de carnaval, Fernanda foi ficando cada vez mais parecida com as outras meninas. Me surpreendi mais com a Fernanda querer ser igual às outras do que a Ana ser do jeito que é", diz Virginia Marques, a mãe das duas. "Nunca fui muito de ligar para estereótipos, sempre fui do jeito que eu quis."

No interior, Virginia foi confrontada por um conhecido. "Como você deixa suas meninas se vestirem de menino? Tem que tomar cuidado com isso aí". Ela desconsiderou completamente o alerta. "É muita pretensão as pessoas acharem que alguém vai ser gay porque usou essa ou aquela roupa na infância. Não é assim tão fácil."

ASSIM E PRONTO

A jornalista Paula Anselmo é mãe de dois meninos, João, 9, e Caetano, 7. Nenhum dos dois gosta de futebol, mas Caetano desde os três gosta de boneca. Ele acha lindas as saias rodadas e um dia na praia vestiu um vestido da irmã de Paula e adorou, disse que estava parecido com uma princesa. "Quando a gente ia comprar brinquedo, ou era boneca ou coisa de cozinha. Esse ano ele quer ganhar uma fábrica de chocolate", conta Paula. 

Ana Marques na infância
Arquivo pessoal
Ana Marques na infância

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Os pais nunca tiveram preocupação em tentar entender as preferências do filho e recusaram todas as sugestão de procurar um psicólogo. "A gente tem um filho, ele é assim e pronto. Nunca vi ele triste e nem se sentindo mal, ele sempre foi a nossa segurança", diz Paula.

Sua apreensão é a de toda mãe: que Caetano sofra. "Ele estudava em uma escola e no primeiro ano foi tudo bem. No segundo, me chamaram para conversar porque os meninos da classe estavam estranhando que ele gostava de brincar com as meninas. Alguns batiam nele e o xingavam. Ele e o irmão se amam, são inseparáveis, mas João também enfrentava situações em que os meninos vinham dizer 'seu irmão é gay'. Tivemos uma conversa com ele: 'A gente gosta do Caetano do jeito que ele é, você é irmão dele e tem de protegê-lo.'"

Trabalho com educação a minha vida toda. Observar e conviver com as crianças me fez ver que os interesses mudam, um dia a criança brinca de boneca e no dia seguinte está chutando bola (Zezé Sangion)

Na troca de escola, para o Colégio Ítaca, Paula teve uma conversa de portas fechadas com a diretora, Zezé Sangion, em que explicou que o filho dela era um menino-menina. A resposta de Zezé a deixou bem feliz: "Estamos de braços abertos para recebê-lo e protegê-lo".

"Paula nos procurou para dizer que o Caetano gostava de brincadeiras de meninas, de se vestir de menina às vezes", lembra Zezé. "Eu trabalho com educação a minha vida toda. Observar e conviver com as crianças me fez ver que os interesses mudam, um dia a criança brinca de boneca e no dia seguinte está chutando bola. Disse para ela que não se preocupasse de antemão, se tivesse alguma questão a gente iria lidar com ela. E não houve." 

A fala da diretora pode ser um alento para os pais que porventura estejam preocupados com a vontade dos filhos de se vestir ou brincar com brinquedos que são em princípio do sexo oposto. "Não acho que as coisas são pontuais assim, o mundo não é dividido desse jeito. Boneca não tem a ver com sexualidade. Temos de transitar numa faixa bem grande, é perigoso tipificar e restringir as possibilidades." 

As pessoas têm preocupação excessiva com relação aos meninos explorarem o lado feminino. Essa homofobia precoce causa tensão absolutamente desnecessária nas famílias (Cecilia Zylberstajn)

O antropólogo britânico Peter Fry, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que nunca viu uma preocupação maior do que a dos brasileiros de notar em suas crianças algum traço de feminilidade. "Ah, fulano de tal não está jogando futebol, isso é sério. Ih, já foi visto com boneca! Crescer num ambiente desses, em que você está sempre sob suspeita, deve criar inseguranças em todo mundo", diz ele. A psicóloga e psicoterapeuta de adolescentes e adultos Cecilia Zylberstajn concorda: "As pessoas têm preocupação excessiva com relação a isso", reflete. "Essa homofobia precoce causa tensão absolutamente desnecessária nas famílias."

As irmãs Ana (esq.) e Fernanda (dir.)
Arquivo pessoal
As irmãs Ana (esq.) e Fernanda (dir.)

"O SER HUMANO NÃO É UMA EQUAÇÃO MATEMÁTICA"

Ela condena a maneira de dividir hermeticamente meninos para cá e meninas para lá. "Evita que os meninos conheçam as meninas e isso vai acarretar problemas de relacionamento lá na frente." E mais: reforçando os estereótipos masculino e feminino, os pais criam filhos despreparados para ajudar em casa e dividir tarefas. "Proibir os meninos de brincar de casinha porque na nossa sociedade isso é 'coisa de mulher' é uma forma de reproduzir em casa ritos e preconceitos da sociedade. O menino explorar o lado feminino não quer dizer que ele vai ser homossexual. O ser humano não é uma equação matemática."

Na casa de Virgínia, Fernanda continuou jogando futebol e sempre se destacou no esporte. "Aos 16 anos ela foi fazer intercâmbio na Nova Zelândia e foi convidada para entrar na seleção de base nacional. Lá futebol é coisa de menina", diz Virginia.

A trajetória de Ana foi mais cheia de tropeços. "Na formatura da quarta série ela tinha um namorado, Fernando", conta Virginia. "E nessa época começou a desenvolver uma série de sintomas - ficou fóbica, tinha medo de tudo, não entrava no carro e nem no elevador, começou a ir mal na escola, se cortava, uns cortes grandes, assustadores. Ela estava num conflito muito grande, sentia o que definia como uma angústia monstra. Acho que o namoro era uma maneira de tentar se enquadrar."

Durante um ano fiz a vida da Ana um inferno. Depois a gente conversou e ela disse que fez o mesmo comigo, que fazia as coisas para eu saber, para me provocar (Virginia Marques)

Aos 14 anos ela mudou de escola, para o Dante Alighieri, tradicional reduto da comunidade italiana em São Paulo, e se deslumbrou de estar num colégio grande, com muito mais autonomia. Ali fez amizade com uma menina que beijava meninas e começou a beijar meninas também. Aos 18 ela avisou a mãe que tinha uma namorada. "Fiquei desesperada, o que será disso?", confessa Virginia. "Fui conversar com a psicóloga, durante um ano fiz a vida da Ana um inferno. Depois a gente conversou muito sobre isso e ela disse que fez o mesmo comigo, que fazia as coisas para eu saber, para me provocar."

Quando Virgínia aceitou a homossexualidade da filha, comprou a briga dela completamente. "Foi de forma agressiva, até. Entrei com as duas patas em cima de todo mundo, deixei claro que não ia permitir nenhum tipo de preconceito ou discriminação. Sinto que a família respeita, mas não aceita. Respeita mais por mim, pela minha braveza, do que pela Ana", conta. 

ADEUS ÀS BONECAS

João e Caetano fazem aniversário no mesmo mês e gostam de dar festas juntos. "Já tentamos dar duas festas e não funcionou", conta Paula. Um ritual da família é limpar o quarto dos meninos depois do aniversário e doar os brinquedos que eles não querem mais. Este ano, Caetano doou todas as suas bonequinhas, com exceção de uma que ele acha especialmente bonita. "Aos poucos a gente percebeu que ele está se posicionando de outra forma. Continua amando desenhar, brincar de música, de construir coisas. Mas também está fazendo judô e começando a gostar de brincar de luta com o irmão. Tem uma namorada na escola, uma namorada na natação, é muito popular, extremamente comunicativo. É um menino feliz." 

Respeito o filho que eu tenho, uma criança que me prova todo dia que não há uma barreira entre brinquedo de menino e brinquedo de menina. Ele entende que o mundo é dele e ele pode fazer o que quiser (Paula Anselmo)

Caetano tem amigos meninos, amigas meninas, está completamente adaptado na escola e se dá bem com todo mundo. Paula está tranquila. "Se ele vai ser gay ou não é problema dele. Ele é extremamente seguro do que é e do que gosta. Tem alto senso estético, sabe combinar peças, gosta de gente que cheira bem. Se esses são fatores que vão definir a sexualidade dele mais para frente, vamos ver. Nunca encaramos isso como problema ou uma questão preocupante. Respeito o filho que eu tenho, uma criança que me prova todo dia que não há uma barreira entre brinquedo de menino e brinquedo de menina. Ele entende que o mundo é dele e ele pode fazer o que quiser."


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