Filmando "Além do Arco Íris", Cleyton Vilarino se espanta com postura homofóbica dos homossexuais. Antropólogo Peter Fry, da UFRJ, diz que nunca viu preocupação como a dos brasileiros de notar em suas crianças traços de feminilidade

Será que a homofobia obedece a uma regra? Existem diferentes graus de agressão homofóbica? Qual é o limite de aceitação aos gays nos espaços públicos? Cleyton Vilarino, 24, iniciou sua pesquisa com muitas questões a ser exploradas. A resposta a elas está no documentário “Além do Arco Íris”, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP.

O projeto nasceu há cerca de três anos, quando Vilarino começou a se aprofundar no tema Sexualidade e Ciências Sociais. A pesquisa virou o embrião de um livro-reportagem, que depois evoluiu para a ideia de transformá-lo em filme. O objetivo era que o maior número de pessoas pudessem ver o resultado. Foram cerca de dois anos de gravação. “Começou bem devagar. Levou muito tempo porque eu precisava entender o que a pessoas realmente pensam”, explica.

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ATHENA E WEBERSON

No início das filmagens, Vilarino tinha a tese de que, quanto mais distante de uma imagem de masculinidade, mais o homossexual sofrerá preconceito. E, quanto mais se aproxima do que a sociedade aceita como masculino, menos sofre. As mulheres homossexuais ficaram de fora do trabalho porque houve a necessidade de realizar um recorte. "Teria de abrir um novo debate, porque é uma relação muito diferente", diz. 

Para colocar sua hipótese à prova, Vilarino estabeleceu um contraste entre os dois principais entrevistados para o documentário, a transexual Athena e o gay Weberson. “Eu quis mostrar uma escala em dois polos”, conta Vilarino. Além dos dois protagonistas, que vão costurando o filme, há vários outros depoimentos de anônimos. 

O maior elogio que se faz ao homossexual é que ele não parece homossexual (Klecius Borges, psicólogo)

Klecius Borges, psicólogo especializado em relações homoafetivas, comenta a paradoxal vontade de o gay não parecer gay. "O maior elogio que se faz ao homossexual é que ele não parece homossexual", se espanta. Edith Modesto, fundadora do primeiro grupo de apoio a pais homossexuais, reitera. "O gay tem de parecer o mais hetero possível. Se um gay passar por hetero, a dificuldade é menor."

É o caso de Weberson. Um dos amigos dele foi entrevistado para o documentário e afirma que o grupo tem uma boa relação com ele pelo fato de não agir como mulher. Weberson, por sua vez, concorda com certas opiniões, como a de que os homossexuais devem “saber se comportar” e não adotar maneiras femininas. "Como diz meu pai, o problema não é ser gay, o problema é o comportamento", diz ele. "Se sou gay é porque eu gosto de homem, se gostasse de afeminado eu ficava com mulher", diz um anônimo, entrevistado em um bar de São Paulo. "Para andar comigo eu fico meio receoso (com os afeminados), não é preconceito, é receio, por não entender a pessoa." 

Eu tive de ouvir absurdos e ficar quieto, não podia começar um debate ali, senão não seria um documentário (Cleyton Vilarino)

Luís Arruda, do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual, diz ter a sensação de que os gays fazem de tudo para anular o seu lado feminino. "Todo ser humano é feminino e masculino, Os gays não fazem as pazes com seu lado feminino." Usando Weberson como exemplo, Vilarino questiona o preconceito enraizado dentro da própria comunidade gay. “Como um homossexual pode ter um discurso de alguém declarado contra a comunidade?” 

Ele próprio gay, Vilarino conta que foi difícil lidar com isso: "Tive de ouvir absurdos e ficar quieto, não podia começar um debate ali, senão não seria um documentário". A transexual Aretha dá o depoimento do outro lado da moeda. "Nos julgam e banalizam por sermos femininos. Acho o feminino bonito, o mundo precisa dele. A gente nasce com esse feminino dentro de si, não força a barra para ser assim." 

O antropólogo britânico Peter Fry, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também foi ouvido para o documentário e diz que nunca viu uma preocupação maior do que a dos brasileiros de notar em suas crianças algum traço de feminilidade. "Ah, fulando de tal não está jogando futebol, isso é sério. Ih, já foi visto com boneca! Crescer num ambiente desses, em que você está sempre sob suspeita, deve criar inseguranças em todo mundo." 

Nos julgam e banalizam por sermos femininos. Acho o feminino bonito, o mundo precisa dele. A gente nasce com esse feminino dentro de si, não força a barra para ser assim (Athena, transexual)

BEIJO GAY INCITA VIOLÊNCIA FÍSICA

Em uma das cenas mais fortes do documentário, a homofobia chega à agressão física. Vilarino pediu a um casal gay que se abraçasse e se beijasse em público. A instrução era de que os carinhos fossem se intensificando aos poucos. “A ideia era perceber até onde vai o limite da aceitação”, explica.

O documentarista levou reforço de algumas pessoas para ajudar no caso de tentativa de agressão - e fez muito bem, porque ela foi necessária. A primeira cena foi montada no Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo. O casal começa a se beijar e os carinhos vão ficando mais intensos. Vilarino conta que a agressão veio de quem ele menos esperava. Enquanto alguns homens lançavam olhares de reprovação, uma mulher apareceu com um pedaço de pau, xingou e agrediu o casal. “Foi um grande susto. Se gente não estivesse ali, o que teria acontecido? Foi o momento em que mais fiquei perdido.”

Ah, fulando de tal não está jogando futebol, isso é sério. Ih, já foi visto com boneca! Crescer num ambiente desses, em que você está sempre sob suspeita, deve criar inseguranças em todo mundo (Peter Fry, antropólogo)

A cena trouxe também algumas lembranças. "Eu já apanhei. Aquilo foi revisitar um trauma", diz Vilarino. Ele conta que, aos 15 anos, foi agredido em frente a um bar. No Ensino Médio, chegou a ser jurado de morte por outro aluno, que se recusava a “permanecer na mesma sala que um gay”.

 VERGONHA DA HOMOFOBIA

"Ficou claro que gay não é aceito. Ficou claro com o que aconteceu no Anhangabaú e com o que eu tive de ouvir”, afirma Vilarino. Ele encontrou pessoas que se sentem ofendidas pela simples presença de um casal gay. “O que me surpreendeu foi a justificativa para a homofobia”, conta. As pessoas que se manifestaram contra o beijo gay em público afirmaram que são contra qualquer exagero, inclusive de casais héteros. “Não é isso o que a gente vê na rua. Casais héteros não são agredidos”, diz. 

A situação melhorou nos últimos anos? "Eu acho que não, acho que mascarou", opina. "As pessoas agora têm vergonha da opinião que elas têm”. É o caso do preconceito contra o beijo gay, para o qual as pessoas encontraram uma justificativa a fim de mascarar a homofobia.

O documentário está em fase de ajustes finais para ser apresentado ao público e inscrito em festivais de cinema. “Eu quero que fique bem batido”, diz Vilarino.

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